Negócios

Siemens sob nova direção

O poder está mudando de mãos na Siemens. Depois de fazer um trabalho exemplar nos 12 anos em que esteve no posto de principal executivo do conglomerado industrial germânico, Heinrich von Pierer, 63 anos, está passando o bastão para Klaus Kleinfeld, 46 anos. Apesar de sua indicação ter sido saudada com entusiasmo pelo mercado, Kleinfeld terá um trabalho duro pela frente. A empresa que ele vai assumir em 1º de janeiro de 2005 pouco lembra a Siemens da década de 80, que se movia de forma paquidérmica e dependia enormemente dos contratos com o governo alemão para sobreviver. Pierer fez progressos notáveis. Sob sua gestão, em pouco mais de uma década, as receitas saltaram 85%, para US$ 89 bilhões (2003). Na era Pierer, o balanço do grupo não conheceu a cor vermelha. No ano passado, a Siemens exibiu lucro recorde de US$ 2,9 bilhões. Enquanto isso, rivais como a francesa Alstom e a sueco-suíca ABB lutavam desesperadamente para não sucumbir à crise financeira, resultante de erros de gestão e do desaquecimento da economia global. O principal desafio de Kleinfeld será justamente manter a Siemens nessa trilha.

Uma das divisões que deverá ocupar a maior parte do tempo de Kleinfeld é a área de telecomunicações. Foi nela que Pierer obteve um dos maiores êxitos de sua gestão. Ao apostar na tecnologia GSM, em vez de seguir os padrões TDMA e CDMA, a Siemens se colocou em posição de destaque nos mercados com grande potencial de crescimento: América Latina, Ásia e os países do Leste europeu. Hoje, a Siemens responde por 8,4% das vendas de celulares no mundo. Na América Latina, a marca detém uma fatia de 10,3%, com perspectivas de expansão acelerada: ?Comercializamos 1,397 milhão de celulares no primeiro trimestre deste ano, um avanço de 282% sobre igual período de 2003?, festeja Joe Kaeser, diretor mundial da divisão Siemens Mobile. O Brasil teve papel fundamental nesse crescimento. É que boa parte dos aparelhos foi produzida na fábrica de Manaus (AM). O bom desempenho levou a direção da companhia a ampliar a unidade. ?Vamos investir mais R$ 40 milhões para atender o crescimento da demanda?, completa Paulo Stark, vice-presidente de celulares da América Latina. Outra medida do prestígio da região foi sua inclusão no mapa de lançamentos simultâneos de produtos. Na quinta-feira 15, os executivos apresentaram parte dos 12 novos aparelhos que chegam ao mercado mundial até o final do ano. Eles têm em comum o design arrojado e também a interatividade. Os top de linha oferecem câmera digital de 1,3 megapixel e há um modelo resistente a água, poeira e queda. Os preços de venda estimados variam de US$ 100 (o modelo A57) a US$ 300 (SL65).

Cortador de custos. A telefonia, menina dos olhos da Siemens, será de fato o grande campo de testes para Kleinfeld. Excelente recuperador de empresas, ele terá agora de provar que também é bom na arte de segurar números em alta. O novo presidente ganhou fama na companhia depois de ter revertido a situação da problemática subsidiária da Siemens nos Estados Unidos, responsável por 25%
das receitas do grupo. Para atingir o objetivo, abriu o manual de administração e abusou das regras de recuperação financeira: demitiu mais de 10 mil funcionários e, em dois anos, reduziu o número de divisões da empresa de 24 para apenas oito. Espera-se que ele dê uma boa chacoalhada na corporação, mantendo o ritmo de Pierer. Mas sem exageros. É que do alto do Conselho de Administração, Pierer manterá os olhos atentos a cada passo de seu pupilo. Com poder, inclusive, para trocá-lo, se achar necessário.