Negócios

A costura gigante da Coteminas

A sensação é do bíblico confronto entre Davi e Golias, mas com uma diferença: o resultado. No mundo da indústria têxtil brasileira, está cada vez menor o espaço para que o ?pequeno Davi? repita a dose e derrote o ?gigante Golias?. Depois de ser quase dizimadas com a abertura econômica promovida pelo governo do presidente Fernando Collor de Mello e de sentir na pele a invasão dos produtos importados com a paridade cambial do Plano Real, os fabricantes de tecido vivem uma nova onda: a consolidação. E o alvo são pequenos grupos do País, que estão na mira de gigantes, como Santista Têxtil e Coteminas, do vice-presidente do Brasil José Alencar.

No início desta semana, a empresa de Alencar iniciou uma costura que promete unir a sua Coteminas à Cedro Cachoeira e à Fiação São José, além da Tecidos Santanense. Seria uma megafusão inédita no setor. Só a Cedro, um grupo de 131 anos, fatura R$ 364 milhões e disputa o setor de índigo com Vicunha, Santista e a própria Santanense (receita líquida de US$ 48 milhões). Com a São José na operação, focada em tecidos para roupa profissional e índigo, a empresa estaria presente do fio ao produto final.

O primeiro passo do ambicioso projeto nasceu justamente na Santanense. Uma emanharada operação de aumento de capital acionário poderá dar o status de controlador à Coteminas. Basta o sinal verde dos atuais sócios-majoritários e um cheque de quase R$ 4 milhões para que a composição da Oxford, que detém a maior fatia de capital da Santanense, mude de mãos. Os atuais donos da Santanense têm 60,9% e o sucesso desse aumento de capital reduziria a sua parcela para 49,6% na Oxford. Em contrapartida, a Coteminas pularia de 39% para 50,4%. ?Não há data para a finalização da operação?, afirma João Batista da Cunha Bomfim, diretor de relações com o mercado da companhia de José Alencar, que é comandada pelo filho Josué Gomes da Silva.

Bomfim desconversa quando o assunto é consolidação da indústria têxtil brasileira, que faturou US$ 23 bilhões no País e exportou US$ 1,7 bilhão no ano passado. Afirma que isso é assunto para Josué que, por sua vez, não atendeu a reportagem da DINHEIRO. Mas se o principal executivo do grupo fica em silêncio, o mercado especula como nunca sobre a necessidade de expansão da companhia dos Silva. ?A Coteminas é focada em cama, mesa e banho e a compra da Santanense a coloca no cobiçado mercado de jeans. Também há uma sinergia entre as fábricas das duas companhias, que estão em Montes Claros (MG)?, acrescenta André Coppio, analista da Fama.

Dona de uma receita de R$ 1,27 bilhão, a empresa do vice-presidente do País tem uma holding, a Encorpar, cuja função é agrupar as participações que possuem em outros grupos. Na Cedro Cachoeira, a Encorpar tem 29% do capital total e 18,5% das ações com direito a voto. Na São José, a realidade é melhor ainda. A empresa de Alencar tem 36,8% das ações com direito a voto, o que facilitaria a união. ?Estamos assistindo a um novo ciclo da indústria têxtil brasileira. Em vez de comprar equipamentos novos, os grandes grupos estão optando pela aquisição de empresas nacionais?, diz Haroldo Silva, gerente de economia da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit).

O setor é quase unânime em dizer que a única forma de desenrolar o novelo é investir em tecnologia e ganhar escala. Não basta dominar passarelas de moda do planeta com belas modelos, produzir talentosos estilistas e exportar a marca Brasil.
É necessário eficiência, porque a concorrência é monstruosa. Envolve países ricos e em desenvolvimento, como a China, responsável pela compra de um terço das máquinas têxteis no mundo.