Negócios

Ultra na mira

Bancos de investimento às vezes agem como abutres. Ao primeiro sinal de fraqueza de uma empresa, acercam-se dela, posicionando-se para disputar possíveis sobras. Nas últimas duas semanas, um pequeno grupo desses bancos iniciou um discreto vôo em torno do Grupo Ultra, líder do mercado brasileiro de gás de cozinha (GLP). Seus analistas estão trabalhando na avaliação dos ativos da companhia para desenhar um ou mais modelos de venda. Detalhe importante: a encomenda não partiu dos controladores do grupo. A iniciativa é dos próprios bancos, que vêem a entrada da Petrobras no mercado de GLP (por meio da recém-anunciada compra das operações da Agip) como a mais séria ameaça já enfrentada pela Ultragaz e enxergam nisso uma oportunidade de negócio. A idéia é convencer os acionistas a vender a Ultra (inteira ou só a área de gás) e oferecer opções de engenharia financeira a potenciais compradores, de modo a tornar-se intermediário de uma eventual transação.

Paulo Cunha, principal executivo e presidente do Conselho de Administração do Grupo Ultra, disse à DINHEIRO que desconhece esse movimento de bancos e garantiu que não há ?a menor possibilidade? de uma proposta de venda ser aceita. Graças a um acordo de acionistas que completa 20 anos em dezembro e será então remodelado, Cunha fala, de fato, em nome dos controladores da Ultra. Há, no entanto, pelo menos uma acionista de peso que escapa de seu controle. É Daisy Igel, herdeira do fundador da companhia, Ernesto Igel, e detentora de 18,1% das ações da Ultrapar (holding das empresas do grupo). Embora não integre o bloco de controle, Daisy é peça importante da estrutura societária da Ultra e vem demonstrando interesse em vender sua participação desde que a companhia abriu seu capital, há quase cinco anos. Com o eminente rearranjo societário no grupo, é esta senhora quem primeiro atiça o apetite dos bancos de investimento. ?Quem tem vontade de vender sua participação pode achar que este é o momento?, sugere um analista.

Encolhimento. É bom lembrar que o mercado de gás de cozinha está encolhen-
do. Prejudicadas pelo avanço do gás natural encanado, as vendas totais de GLP caíram 5,7% no ano passado comparadas às de 2002. Paralelamente, parte dos analistas teme que a Petrobras, que monopoliza o fornecimento de GLP, seja leva-
da a adotar uma política de subsídios maiores para baratear o gás de cozinha ? com efeitos danosos sobre a concorrência. ?O fato é que a Petrobras tem condições de assumir a liderança do setor na hora que quiser e isso desvaloriza as empresas concorrentes?, avalia Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura. Paulo Cunha discorda e diz esperar lealdade na concorrência com a estatal. ?Se a Petrobras abusar, estaremos caminhando em direção à África e não ao primeiro mundo?, adverte.

Mesmo supondo que, no ?cenário África?, a Ultragaz fosse posta à venda, faltaria uma variável para fechar esta equação: o comprador. Dos jogadores já instalados no tabuleiro nacional, o único com porte para a aquisição seria a holandesa SHV, líder mundial em GLP. Mas, com o controle da Minasgás e a aquisição de todo o capital da Supergasbras (concretizada na quarta-feira 7, por US$ 100 milhões), ela já detém 24% do estagnado mercado brasileiro e teria problemas com o Cade para adquirir os 25% da Ultragaz. Sendo assim, a alternativa seria a entrada no jogo de um concorrente externo e, neste caso, o mais provável chama-se Repsol. Com menos de 4% do mercado brasileiro de combustíveis, o gigante espanhol tem interesse declarado em aumentar sua participação no setor petrolífero, incluindo uma incursão no segmento de GLP.

A investida dos bancos de investimento sobre a Ultra é mais um capítulo do inferno astral de Paulo Cunha. Seu ambicioso plano de dominação da petroquímica brasileira começou a ruir há três anos, quando ele deixou escapar a chance de comprar a Copene (jóia do pólo de Camaçari). Desde então, Cunha vem manobrando para se firmar no papel de barão do gás. Daí seu compreensível desgosto com a entrada da Petrobras no seu caminho. Na semana passada, circulou no mercado a informação de que o empresário teria enviado à ministra Dilma Roussef (Minas e Energia) uma carta de próprio punho dizendo que, se a Petrobras queria comprar uma empresa de GLP, que comprasse a dele. Cunha desmente: ?Tenho secretária, não mando cartas de próprio punho e não tratei desse assunto com ninguém do governo?. O tiroteio, ele garante, ainda não começou.