Negócios

Roda da fortuna

De tempos em tempos, o empresário Robert Mangels costuma receber pêsames de alguns interlocutores mais irônicos. ?Basta eu dizer que minha empresa possui controle nacional, é familiar e atua no setor metalúrgico?, brinca ele. Fundada há 76 anos pelo imigrante alemão Max Mangels Júnior, avô de Robert, a Mangels, assim como grande parte das metalúrgicas, sofreu duros golpes com a abertura de mercado a partir dos anos 90. Sobreviveu ? mas a duras penas, é verdade. Depois de um longo período de estagnação, os números da companhia fizeram as pazes com os controladores. As fábricas se modernizaram, o faturamento cresceu, o lucro voltou e o endividamento diminuiu. Só que os investidores não deram bola para nada disso. A Mangels possui ações negociadas na Bolsa eum terço de seu capital está no mercado de capitais ? o restante pertence à família. Mas na hora de investir, acaba correndo ao BNDES e ao próprio caixa da empresa. É o que acontece no momento, quando coloca de pé um plano de investimentos de R$ 60 milhões.

Mesmo agora, quando a Bolsa vive uma espécie de renascimento, os papéis da Mangels continuam acumulando pó. Estão cotados hoje a 25% do valor patrimonial, depois de atingir o fundo do poço com 10%. O plano de Mangels é levar esse índice até, pelo menos, 100%. ?Num país com taxas de juros nas alturas, a Bolsa possui o dinheiro mais barato?, diz Mangels. ?Não podemos abrir mão dessa fonte de recursos.? O primeiro passo será contratar um market maker. Trata-se de uma corretora ou fundo que se comprometa a manter um movimento mínimo de ações da empresa. Os detalhes não estão definidos, mas Mangels fala num patamar de pelo menos R$ 100 mil a R$ 200 mil. ?Assim, os papéis da empresa terão liquidez, pois sempre haverá um comprador para eles?, diz Mangels. Em companhia do diretor de relações com investidores, Mangels também tem se dedicado a uma maratona de encontros com analistas e gestores de fundos.

Nessas conversas, a dupla procura desfazer uma imagem cristalizada na mente dos homens de mercado. Analistas consideram a Mangels uma empresa excessivamente diversificada, com três unidades de negócios, diferentes entre si: fabricação de rodas para automóveis, produção de botijões de gás e laminação de aço. ?Os investidores não sabem se estão comprando ações da fabricante de autopeças ou de uma metalúrgica?, diz Mangels. Para desmontar essa imagem, ele bate numa mesma tecla: a diversificação não é tão acentuada assim. ?A matéria-prima nos três negócios é a mesma, o aço?, diz ele. A Mangels compra 150 mil toneladas de aço plano por mês e é um dos maiores clientes da CSN, por exemplo. ?Isso nos dá um poder de compra considerável e é um fator de redução de custos?, afirma.

A rentabilidade baixa dos últimos anos também tem afastado os possíveis interessados. Em 2001, a companhia faturou R$ 331 milhões e registrou um lucro pífio de R$ 1,6 milhão. No ano seguinte, foi pior ainda. As receitas cresceram para R$ 376 milhões, mas o balanço foi tingido de vermelho, com prejuízo de R$ 4,4 milhões. As coisas só melhoraram em 2003, graças a vendas de R$ 477 milhões e um resultado positivo de R$ 8 milhões. A empresa também gerou mais caixa: foram R$ 40 milhões em 2003, contra R$ 11 milhões três anos antes. ?Estamos em rota de crescimento. Precisamos contar para os investidores?, diz Mangels.

376 milhões de reais foi a receita da Mangels em 2003