Negócios

10 perguntas para Sérgio Spinelli

DINHEIRO ? Por que o mercado de capitais voltou a atrair empresas?
Spinelli ? Houve vários fatos prejudiciais ao mercado de capitais. O caso Naji Nahas e o confisco do Plano Collor deixaram os investidores traumatizados. Aí começou um plano de recuperação, tocado pela CVM. Abriu-se a Bolsa para estrangeiros, permitiu-se o lançamento de ações de empresas brasileiras no exterior e o FGTS passou a ser usado para investimento em ações. O renascimento da bolsa é fruto desse processo.

Por que os efeitos demoraram tanto?
Por causa das crises internacionais que atingiram o Brasil. Além disso, muitas empresas queriam que o mercado pagasse um valor pelas ações que os investidores não estavam dispostos a pagar.

Qual a novidade nesses últimos lançamentos?
Todas as quatro empresas a lançar ações (CCR, Natura, Gol e ALL) não são exportadoras, como ocorria no passado. Elas aderiram a um relacionamento mais aberto com os investidores e também se comprometeram a dar para os minoritários o mesmo tratamento dado aos controladores. Outra novidade é a chegada do investidor pessoal. Na CCR foram cerca de mil e na Natura esse número saltou
para quatro mil. Na Gol, foi mais de 50% superior.

Quais são as empresas que abrirão capital?
Elas têm histórico de crescimento e sobretudo disposição para respeitar o investidor. Serão empresas de menor porte mas com produtos inovadores. Num primeiro momento elas foram financiadas por fundos de private equity.

O ex-presidente da CVM, Cantidiano Sampaio, foi pressionado por ter atendido o grupo Opportunity. A nomeação de gente do mercado para a CVM não gera desconfiança?
É natural que advogados renomados sejam convidados. O que está em questão é a fiscalização. Os processos são demorados porque eles envolvem punição. Em outros países, isso também acontece. Nos EUA, advogados do mercado se tornaram presidentes da SEC (a CVM de lá). O que não dá é uma indicação política para um cargo técnico.

A CVM não tem sido muito passiva no acompanhamento das grandes negociações, como no caso Ambev-Interbrew?
Cabe ao investidor tomar a iniciativa. A CVM age como um juiz, não pode interferir numa relação privada. Mesmo no caso da Ambev, ela fez sugestões de ajustes.

Por que não há punição nos casos envolvendo o mercado de capitais?
Não falta rigor. Falta agilidade. Um caso que demora 10 anos para ser julgado é a própria negação da Justiça.

O sr. lembra qualquer caso de punição?
Não. Não tivemos casos exemplares como nos EUA. Mas com a especializaçãode técnicos do Ministério Público e as delegacias especiais, as respostas serão mais rápidas.

A especulação também não prejudica a confiança no mercado?
Sem especulação a bolsa não existe. Ela é necessária, pois sua função é dar liquidez ao mercado. O que não é razoável é um investidor que ganhe dinheiro em questão de horas pague os mesmos 20% de alguém que faça um investimento de longo prazo na bolsa. Também não é razoável que um investimento em ações pague 20% do ganho de capital, sendo que a venda de um controle de uma companhia fora da bolsa pague 15%.

O que o governo pode fazer?
As próximas privatizações devem priorizar a pulverização do capital. Empresas estatais poderiam se transformar em empresas públicas, como nos EUA.
Perdemos essa oportunidade na privatização da siderurgia e da telefonia.