Negócios

Olhos atentos para o Brasil

Ofrancês Olivier Mathieux, presidente do Essilor para América Latina e Caribe, está feliz da vida. Primeiro porque a matriz acaba de autorizar a subsidiária a investir R$ 15 milhões para a instalação uma linha de produção de lentes anti-reflexo na fábrica de Manaus (AM). Até então, o produto era importado. De quebra, como consumidor, ele vai pagar menos quando precisar renovar seus vistosos óculos. ?A fabricação local nos permitirá reduzir custos em cerca de 19%?, argumenta Mathieux. Mais que isso, o chefão da Essilor quer mesmo é elevar o status da subsidiária. Hoje, a planta de Manaus exporta ? para a França, Canadá e diversos países da América Latina e Caribe ? apenas produtos de baixo valor agregado, as lentes de plástico. ?A anti-reflexo vai abrir as portas dos Estados Unidos para nós?, diz. As vendas externas colaboram
com US$ 10,5 milhões, o equivalente a 15% das receitas da unidade brasileira. A meta é aumentar o montante para 20% até o final de 2004. Atualmente, o segmento de lentes anti-reflexo representa cerca de 18% do mercado brasileiro de lentes, avaliado em R$ 400 milhões.

A atuação de Mathieux à frente da subsidiária é reconhecida na corporação. O executivo integra o seleto grupo dos 13 dirigentes com assento no board da Essilor. Em 17 anos de Brasil ele conseguiu realizar um trabalho exemplar. A produtividade e a qualidade da planta de Manaus, por exemplo, é a maior entre as 19 fábricas da corporação no mundo. Apenas uma em cada 100 peças produzidas apresenta defeito. A média global é de 2 para 100. Além disso, a gigante Essilor, cujas receitas globais somam US$ 2,7 bilhões, é líder absoluta no Brasil, com uma participação de 50% no mercado de lentes. ?Para este ano, estamos projetando um crescimento de 4% nas vendas?, conta o executivo. Boa parte do avanço acontecerá justamente no segmento premium de lentes anti-reflexo, vendidas por um preço duas vezes maior que as convencionais.

Por todas essas conquistas, ninguém na matriz ? situada em Charenton, um subúrbio de Paris ? ousou recusar o pedido de monsieur Mathieux para turbinar a fábrica de Manaus. Além dos números reluzentes da filial, o presidente da Essilor na América Latina apresentou outro forte argumento para levar a nova linha de produção: com ela, há a possibilidade de enfrentar com mais firmeza o contrabando e as concorrentes locais que praticam o chamado ?importabando?, a importação com preço subfaturado. A prática vem crescendo de forma assustadora no Brasil. Dados da Abiótica revelam que enquanto o faturamento de todo o setor ótico desceu de R$ 990 milhões no ano 2000 para R$ 787 milhões em 2003, a participação do contrabando nesse mercado aumentou, no mesmo período, de 29,3% para 60%.

Daqui a duas semanas, o executivo vai acompanhar a chegada de um dos papas da Essilor ao Brasil. Trata-se de Bernard Maitenaz, inventor das lentes bifocais Varilux e presidente mundial da corporação entre 1981 e 1990. Maitenaz desembarca no País para participar da Abiótica, a feira que reúne as empresas do setor. Além de ciceronear o compatriota, Mathieux poderá aproveitar a oportunidade para conquistar um grande aliado em um novo projeto: a possível fabricação no Brasil de lentes fotocromáticas, as Transitions. Ele não perde tempo.

OS NÚMEROS DO SETOR ÓTICO NO BRASIL
faturamento total (em R$ milhões)

ano

2000

2001

2002

2003

valor

990

905

960

787

 

Estimativa de participação da pirataria

ano

2000

2001

2002

2003

 

29,3%

28,2%

40,7%

60,0%