Negócios

OS NOVOS REIS DO ALGODÃO

Os livros contam que a industrialização do Brasil começou no campo. Produtores rurais com os cofres recheados de dinheiro graças às exportações de café começaram a montar fábricas para produzir itens até então trazidos do exterior. E daí surgiram grandes clãs industriais. A família gaúcha Logemann fez o caminho inverso. Até 1999, era, em conjunto com a americana John Deere, a maior fabricante de máquinas agrícolas do País. Na ocasião, vendeu sua participação para a própria Deere e partiu para a zona rural. Hoje, são os maiores plantadores de algodão do País. É caso clássico de apostar na baixa e ganhar na alta. O algodão quase desapareceu dos campos brasileiros. Uma praga fez a produção cair de 800 mil toneladas anuais para 250 mil toneladas. Nesse momento, os Logemann entraram no ramo. Hoje, a safra está próxima do 1,2 milhão de toneladas ? e eles se tornaram os maiores do setor. Hoje, a SLC, a holding dos Logemann, fatura quase R$ 1 bilhão.

No ranking dos produtores brasileiros de grãos, eles ocupam um dos primeiros lugares. Suas fazendas somam 135 mil hectares. Cerca de 91 mil hectares são ocupados por lavouras de algodão, soja, feijão, milho e café, e ainda sobra espaço para tomate e amendoim. Este ano a área plantada subirá para 100 mil hectares. ?Até 2010, aumentaremos essa área em 50%?, diz Eduardo Logemann, presidente da SLC e neto do fundador do grupo.

 

Aos 53 anos, Logemann em nada lembra os velhos coronéis de latifúndios brasileiros. Não é raro encontrá-lo de terno e gravata. Mas é capaz de falar horas sobre as questões que envolvem o universo rural brasileiro. Queixa-se, por exemplo, dos ?espasmos de crédito? concedido pelo governo, via Banco do Brasil. ?O agricultor fica na retranca, pois não tem certeza
de que terá o dinheiro quando precisa?, comenta ele. Para ele, o governo deveria aproveitar a fase de prosperidade na agricultura
para investir na infra-estrutura. Nos Estados Unidos, cada tonelada de soja consome cerca de US$ 13 em logística. No Brasil, US$ 27. ?Além de estradas e portos, há outras necessidades?, diz. Armazenagem, por exemplo. ?Muitas vezes, a safra é vendida rapidamente, mesmo com preços pouco atraentes, porque não
há onde guardá-la?, explica ele. ?Se pudéssemos segurá-la em momentos de baixa, influenciaríamos até nos preços interna-
cionais. Só somos competitivos da porteira para dentro.?

Vamos aos números. As lavouras de algodão dos Logemann rendem 280 arrobas por hectare, contra a média de 180 arrobas no País. No milho, a produtividade atinge 140 sacos por hectare, o dobro da média. Os Logemann possuem uma fórmula diferente da de outros produtores. Primeiro, suas terras estão espalhadas por fazendas em três Estados, Mato Grosso, Maranhão e Brasília. ?Ao exportar do Maranhão para a Europa, ganho quatro mil quilômetros de transporte?, conta Logemann. É um item sensível nos negócios da família. Mais de 70% do algodão e da soja colhidos por ela são vendidos ao exterior.

Outro ingrediente de sua ?fórmula? é apostar em novas fronteiras.
No Maranhão, eles foram pioneiros na soja. ?Os preços são me-
nores. Se a terra é ruim, conserta-se?, afirma Logemann. Algumas fazendas tinham 70% de areia no solo, e foram transformadas em campos verdes, graças à tecnologia. A cada ano, esse item consome R$ 55 milhões da SLC. Em cada fazenda, um pedaço de 30 a 40 hectares é reservado para pesquisa e desenvolvimento, sempre
em parceria com entidades como Embrapa e fornecedores, a exemplo da Bayer. ?Assim, em cada fazenda, temos a semente ideal para aquele clima e solo?, diz Logemann.