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O ESQUELETO QUE VIROU 5 ESTRELAS

São 780 quartos, 13 andares, corredores com 160 metros de comprimento, 12 elevadores, 40 mil peças de enxoval, 18 mil talheres, 8 mil lâmpadas, 1.500 quilos de alimentos consumidos por dia, 340 funcionários e 18 câmeras frigoríficas para armazenar comida, bebida e lixo. Bem-vindo ao maior hotel do Brasil: o Holiday Inn do Parque Anhembi, em São Paulo. O empreendimento de R$ 150 milhões será inaugurado oficialmente nesta semana. Quem vive na capital paulista e passou pela Marginal do Rio Tietê nos últimos meses, provavelmente notou a transformação: um velho esqueleto gigante virou um hotel executivo de padrão internacional. O prédio de gosto duvidoso, que mais parecia um caixote largo, foi originalmente erguido na década de 70 para hospedar freqüentadores do centro de convenções Anhembi. Acabou virando um fantasma de concreto. O projeto de transformá-lo em hotel só vingou em 2001, quando a construtora São José se associou à dona do terreno, a Alcântara Machado. Iniciou-se ali uma corrida frenética de reconstrução do prédio. Foi como começar quase tudo de novo: demolir escada, desalagar garagem, retirar entulhos, adaptar tubulação, refazer piso, isso sem contar o acabamento, a parte mais cara e trabalhosa do processo. Durante um ano inteiro, 2 mil pessoas estiveram envolvidas com a obra ? nos últimos quatro meses, os operários chegaram a trabalhar uma média de 18 horas por dia.

 

Mas, agora, começa a parte mais engenhosa: administrar o dia-a-dia de um hotel desse calibre. O trabalho exige tanta dedicação que o gerente-geral do Holiday Inn, Dagoberto Silva, teve de se mudar, com a mulher e dois filhos, para o local. ?Isso aqui é um transatlântico. É preciso estar disponível 24 horas por dia, supervisionando todos os serviços?, diz Silva, que vai deixar um imóvel espaçoso no Morumbi, zona sul
da capital, para morar em um apartamento de 80 metros quadrados. Nos últimos 12 meses, Silva perdeu nove quilos. Na última semana, véspera da inauguração, ele recebeu pelo menos 100 ligações telefônicas e 200 e-mails por dia. ?É uma verdadeira operação de guerra?, explica Silva, execu-
tivo que fiscaliza até mesmo os detalhes – a cor do carpete, o frigobar do quarto, o uniforme da camareira e a comida dos dois restaurantes.

Antes do lançamento, foram necessárias duas semanas para fazer a faxina no lobby do hotel, um mês para lavar todo o enxoval e igual número de dias para limpar os vidros. O Intercontinental, dono da bandeira, foi convidado justamente por isso: experiência no ramo. A gigante americana tem 3.200 hotéis no mundo inteiro – o do Parque Anhembi é o quinto maior da multinacional.

A operação é estratégica para o grupo. Ela é vista também como ponto de partida para novas investidas no País. ?Daqui para frente, nossas operações na América Latina vão se dividir entre antes e depois do Holiday Inn Anhembi?, disse a DINHEIRO Álvaro Diago, presidente do Intercontinental para as Américas. ?Mudamos até o nosso centro administrativo e financeiro do Rio de Janeiro para São Paulo.? A expectativa em torno do negócio é proporcional ao tamanho do empreendimento. O objetivo é absorver o fluxo de pessoas que passam pelo Anhembi, o maior centro de convenções da América Latina, que funciona 205 dias úteis no ano. Para o mercado, o sucesso é considerado inevitável. As vendas das cotas de investimento foram concluídas em um dia ? e para 600 condôminos. A meta do Intercontinental é manter uma média de ocupação de 50% durante os 12 primeiros meses, mas o hotel já está com a lotação esgotada em quatro eventos importantes do ano. Quando isso ocorrer, serão mais de mil hóspedes circulando pelos corredores, pegando elevadores, subindo e descendo escadas, tomando café, almoçando e jantando quase ao mesmo tempo. É praticamente
uma cidade, só que vertical. Se a administração erra a mão,
vira um caos. Como São Paulo.