Negócios

O NOVO HOMEM DA METALFRIO


Poucas empresas no Brasil tiveram tantos donos quanto a Metalfrio. Foi fundada pelos empreendedores Joaquim Caio e Alfredo Brasil em 1960. Associou-se mais tarde à Springer e à Panasonic. Em 1989 foi adquirida pela Continental. Há exatos dez anos entrou para o time da multinacional alemã BSH, uma das maiores fabricantes de eletrodomésticos do mundo. Parecia seu destino final. Não foi. A empresa acaba de ser comprada pela Artesia, uma empresa de gestão de recursos controlada pelo economista Marcelo Faria de Lima e o administrador Márcio Camargo. Após uma negociação que durou seis meses ? com três interrupções no meio do caminho – os novos donos estão levando, por algo em torno de R$ 20 milhões (segundo avaliações do mercado), uma empresa aparentemente saudável. O faturamento atingiu R$ 170 milhões em 2003 e suas dívidas não ultrapassam R$ 7 milhões. Com 550 funcionários, a Metalfrio é dona de metade do mercado brasileiro de freezers comerciais, no qual concorre com Hussmann e Mercofrio. O lucro não é divulgado, mas Lima garante que a companhia opera no azul. ?Analisamos mais de 60 oportunidades nos últimos dois anos. A Metalfrio foi a melhor opção que apareceu?, diz Lima, 42 anos, o homem que vai ocupar a presidência do conselho de administração da Metalfrio. ?A empresa tem uma posição sólida no mercado, uma planta fabril moderna e boas possibilidades de crescimento nos próximos anos, apesar do setor estar no fundo do poço.?

A venda da empresa estava anunciada desde 2002, quando a sua operação tornou-se independente do grupo BSH. O Brasil era o único lugar do mundo em que a multinacional ainda produzia freezers comerciais. ?O negócio não estava ruim, mas não era nosso foco?, explica Bernhard Schuster, presidente da BSH para a América Latina. Tanto é verdade que o último investimento feito pelo grupo ocorreu há cinco anos, quando a BSH gastou US$ 7 milhões na modernização da fábrica. A Artesia entregou sua proposta de compra ao grupo BSH dez dias antes do prazo final. Além dela, outras três empresas, cujos nomes não podem ser revelados, estavam no páreo. ?Ficamos sabendo da venda na última hora, mas já temos experiência em avaliar novos negócios e tomar decisões rápidas?, diz Márcio Camargo. Com a venda, quase nada muda na equipe da Metalfrio. Pelo menos por enquanto. O cargo executivo continuará nas mãos de Luiz Eduardo Moreira Caio, filho do fundador da empresa e um dos homens que mais entendem desse segmento no Brasil. ?Passamos por tantas mãos nesses quarenta anos que não será difícil sobreviver a mais uma mudança?, diz Caio. ?É até uma combinação bacana. A gestão financeira é o que eles têm de melhor. Já nós somos industriais, entendemos de produto, de clientes.?

Se assim for, melhor, porque daqui em diante o estilo de gestão vai mudar radicalmente. Os novos donos vão levar para a Metalfrio a cultura da ?meritocracia?, herdada dos tempos em que eles trabalharam no Banco Garantia ? Lima e Camargo tiveram uma passagem pelo banco de investimentos em meados da década de 90. A idéia agora é introduzir uma política de gestão voltada para resultados. Todos os funcionários, do contínuo ao presidente, de-
vem se preocupar com lucro. ?É um regime darwiniano. Sobrevive o melhor, o que tem inteligência, noção de prioridade, objetividade e quer lucro para si e para a empresa?, diz o banqueiro Luiz Cézar Fernandes, profundo conhecedor dessa cultura. ?Para o indivíduo é penoso, mas para a empresa não tem nada melhor?. Fundador do Garantia, Fernandes também levou o ?conceito? para outro banco seu, o Pactual. Os sócios da Artesia também pensam assim e basta conversar algumas horas com eles para perceber a característica comum. ?Seremos mais agressivos que a BSH, mas não temos motivo para sair mudando tudo?, explica Lima. ?Na nossa cabeça, o importante agora é crescer e conquistar clientes internacionais.? Criada em 2000, a Artesia tem tido como regra comprar negócios, fazê-los crescer rapidamente e, mais adiante, vender uma participação a um sócio capitalista. Foi assim com a agência de publicidade Eugênio e com a Neovia, empresa de banda larga por rádio. Depois que Lima se associou ao publicitário Maurício Eugênio
na agência, ela cresceu 250% em três anos e ganhou um parceiro estrangeiro: o grupo americano DDB, dono da DM9 no Brasil. Na Neovia os novos sócios apareceram logo no primeiro ano de ope-
ração. Em dezembro de 2003, a Intel Capital e um fundo brasileiro
de tecnologia, o Stratus, compraram ações da empresa de banda larga. Será, então, que a Metalfrio terá em breve mais um dono?
Lima afirma que não. Caso isso ocorra, não será nenhuma novi-
dade para a Metalfrio.

De galho em galho
1960
? A Metalfrio é fundada em São Paulo por Joaquim Caio e Alfredo Brasil para fabricar componentes de refrigeração e geladeiras para a indústria de sorvete e bebidas

1986
? Duas novas companhias ? a Panasonic e a Springer de Mário
Amato – se associam à Metalfrio

1989
? A Continental 2001, da família Giaffone, compra a Metalfrio.
Líder do mercado de fogões, a Continental faz a aquisição com o objetivo de ampliar sua linha de eletrodomésticos

1994
? A multinacional alemã BSH adquire a Continental 2001,
levando junto a marca Metalfrio

2002
? A Metalfrio ganha o sobrenome Solutions e passa a funcionar como uma empresa independente. Luiz Eduardo Moreira Caio, filho do fundador, é escolhido para comandar a companhia. É o primeiro passo para a sua venda. O Brasil era o único lugar do mundo onde a multinacional ainda fabricava freezer industrial

2004
? A Artesia, dos economistas Marcelo Faria de Lima e
Márcio Camargo, ganham o jogo. Eles levam uma empresa
de R$ 170 milhões e 500 funcionários.