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O ÚLTIMO VÔO

Anos atrás, em um dos inúmeros vôos transatlânticos que comandou entre Londres e Nova York, o comandante Mike Bannister foi surpreendido por um ligeiro tumulto entre os passageiros. Dois famosos executivos de duas megacorporações americanas voavam lado a lado e impediram com determinação um outro passageiro de fotografá-los juntos. Dias depois, descobriu-se a razão do gesto: os dois CEOs apareceram em público e anunciaram a bilionária fusão de suas empresas. Em outra ocasião, Bannister interceptou pelo rádio uma conversa entre dois pilotos, assustados com o que parecia um OVNI voando bem acima deles a duas vezes a velocidade do som. Em cinco minutos, o comando de vôo em terra desvendou o mistério. Não era um disco voador e sim um Concorde. E Bannister era o piloto. Episódios como esses fazem parte das memórias do piloto-chefe dos Concordes da British Airways. Um homem que passou os últimos 26 anos comandando aviões da única família de jatos comerciais supersônicos da história e recebeu a missão de pilotar o último vôo do Concorde, marcado para 24 de outubro.

Aos 52 anos, casado com uma diretora da British Airways (BA) e pai de três filhos, o comandante encara a tarefa de subir pela última vez no cockpit do supersônico como um prêmio a sua carreira. Ele foi o mais jovem piloto a comandar Concordes, a partir de 1977. Tinha 26 anos. ?Em 1957, larguei a escola tradicional para entrar na escola de pilotos. Em 1967, ouvi falar pela primeira vez no projeto Concorde e jurei que pilotaria aquela máquina. Dez anos depois, estava decolando com o supersônico?, disse Bannister à DINHEIRO. Desde então, ele construiu uma brilhante trajetória na BA, como piloto, instrutor e executivo. Hoje, Bannister administra as frotas de Airbus, Boeing 737,757 e 767 e Concorde da companhia. Tem mais de 100 aviões e mil tripulantes sob sua responsabilidade.

Atualmente existem apenas 12 pilotos e nove co-pilotos autorizados a comandar o Concorde. São necessários 25 anos de prática em
outros aviões (esqueça a carreira meteórica de Bannister, ele não vale como parâmetro) e um treinamento de seis meses para
encarar o supersônico. Normalmente, em uma aeronave de grande porte como um Boeing 747, o curso dura dois meses. ?O Concorde voa a duas vezes a velocidade do som (ou 2.160 km/h), a até 18 mil metros de altitude. É uma outra forma de pilotar?, garante Bannister. Além disso, o Concorde é menos informatizado do que os aviões atuais. Mantém, com poucas alterações, o mesmo estilo de comando dos anos 60. Num jato moderno, o piloto decola e pousa ? o resto é tecnologia. No supersônico, é preciso ?braço?. ?É como guiar um carro esportivo?, diz Bannister.

O fim do Concorde começou a ser discutido no dia 25 de julho de 2000, data do primeiro e único acidente fatal da história dessa aeronave, em um vôo da Air France de Paris a Nova York que caiu 60 segundos depois de decolar, matando os 100 passageiros e 9 tripulantes. Depois disso, uma série de modificações nos aviões foi exigida pelas autoridades de aviação, e o Concorde só voltou a voar em novembro de 2001. A aeronave ainda é lucrativa. Com a tarifa padrão de primeira classe mais 20%, um Concorde só precisa ter metade de seus assentos ocupados para voar ?no azul?. Acontece que esses aviões estão se aproximando dos 30 anos de idade. Air France e BA declaram-se impossibilitadas de continuar investindo na atualização dos Concordes. Em 1977, cada um deles custou o equivalente a US$ 350 milhões a preços de hoje.

O último vôo, no dia 24 de outubro, deve decolar de Nova York às 7 da manhã, rumo a Londres. Quando pousar o Concorde pela
última vez, Bannister colocará um ponto final na curta era do transporte supersônico de passageiros ? iniciada em 21 de janeiro
de 1976 ? e levará ao clímax uma acirrada disputa entre caçadores
de souvenirs. O site de leilões eBay registrou um aumento de 100% nos negócios com itens do Concorde desde o anúncio de que a
frota será aposentada. A própria BA aérea lançou um site que
oferece lembrancinhas oficiais, como chaveiros, que custam até
R$ 325 a unidade. Quando tirar seus supersônicos do ar, a empresa quer garantir que eles permaneçam em exposição. A companhia já recebeu 60 propostas de museus e está selecionando os concorrentes finais. A decisão deve ser anunciada nos próximos dias.