Negócios

O PLANO DAS AMERICANAS

Os executivos das Lojas Americanas têm um jeito muito peculiar de tocar uma das mais tradicionais redes de varejo do Brasil. Eles simplesmente não estão nem aí para as notícias econômicas que saem nos jornais. A regra é clara: se tem dinheiro em caixa, a empresa investe; se não tem, paciência. Foi assim em 1998, no auge do Plano Real. Enquanto a concorrência só investia, a Americanas colocava o pé no freio ? vendeu suas 23 lojas de supermercado ao Carrefour e não abriu mais do que seis portas a cada ano. Agora, com a economia asfixiada, é hora de pisar no acelerador novamente. A Americanas quer terminar 2003 com 14 novas lojas ? foram nove até agosto ? e inaugurar pelo menos 20 no próximo ano, um ritmo de quase duas por mês. O grupo, que inovou o varejo na década de 30 vendendo produtos por menos de 2 mil réis, vai desbravar o Brasil com um modelo inédito: a Americanas Express. São lojas de vizinhança, com até um quarto do tamanho das tradicionais, que têm até dois mil metros quadrados de área construída. ?Queremos estar mais perto dos clientes. Esse é o tipo de projeto que exige um investimento menor e torna nossa expansão mais rápida?, diz Roberto Martins, diretor financeiro da rede, que fechou 2002 com 105 lojas e um faturamento de R$ 1,9 bilhão.

A primeira Express foi aberta em Copacabana, na capital carioca, mas a rede prevê outros três lançamentos ainda este ano ? dois no Rio de Janeiro e um em São Paulo. E é com esse mesmo formato que a Americanas irá mais longe. A sua meta é chegar a cidades com menos de 100 mil habitantes nos próximos três anos. ?A loja não terá estoques nem custos altos com distribuição. Ela ficará em cidades do eixo Rio?São Paulo por onde já passam os nossos caminhões?, explica Martins. A novidade foi bem recebida pelo mercado. Para Gustavo Hungria, analista que acompanha as ações do grupo, essa é uma forma barata de ganhar clientes novos sem concorrer com as outras lojas da rede, já que ninguém costuma viajar para comprar nas Lojas Americanas. ?Esse é o momento ideal para expandir. A empresa organizou sua estrutura interna de maneira brutal, melhorou suas margens de lucro e passou a administrar seus estoques e centros de distribuição de maneira mais eficiente?, diz Hungria. Com a casa em ordem, a companhia passou a tirar todo o dinheiro para expansão do seu próprio caixa. Neste ano, a Americanas prevê gastar R$ 73 milhões, 40% mais que em 2002. O dinheiro irá para a inauguração de lojas, compra de tecnologia e construção de um novo centro de distribuição, em Jandira, na Grande São Paulo. Mais moderno e com uma capacidade de distribuição 50% maior, ele vai substituir o centro que funciona hoje em Barueri (o grupo tem outros dois centros de distribuição, em Recife e no Rio de Janeiro).

Os indicadores financeiros da Americanas começaram a apresentar sinais de melhora a partir de 2001, logo depois de o grupo passar por uma reestruturação interna que resultou, entre outras mudanças, na demissão de mais de 4 mil funcionários. A companhia voltou ao lucro ? foram R$ 103 milhões no ano passado ? e distribuiu dividendos de R$ 89,2 milhões aos acionistas, um recorde na história do grupo. O maior esforço, segundo Martins, foi no sentido de aumentar a margem bruta das vendas. Graças a negociações com fornecedores e um controle mais inteligente dos estoques, ela saiu de 26,1% em 2000 para 30,5% no primeiro semestre deste ano. A receita da companhia também vem crescendo acima da inflação. O site de compras da Americanas bate recordes consecutivos de vendas ? elas cresceram 106% no ano passado e atingiram R$ 93 milhões no primeiro semestre de 2003, 70% a mais do que no mesmo período do ano anterior. Hoje em dia, vermelho mesmo só na marca da rede.