Negócios

WILSON ENTRA EM CAMPO

Alguns executivos da Wilson não entenderam muito bem a presença de Gabriel Batistuta nas reuniões da companhia. Conheciam o craque argentino, mas esperavam vê-lo apenas como um possível garoto-propaganda da marca e não de terno e gravata, palpitando nos negócios da empresa. O jogador sentou-se à mesa e começou a falar sobre a tática que a fabricante de materiais esportivos deveria adotar para conseguir no campo de futebol as mesmas vitórias que havia conquistado nas quadras de voleibol ou tênis, nos greens do golfe ou na terra batida do beisebol. Suas credenciais para a aula corporativa? Mais de 300 gols, três copas do mundo nas costas, passagens pelo Boca Juniors, Roma, Fiorentina, Internazionale e agora Al Arabi, do Catar. E um curso de administração feito na Itália. Batistuta é mais que uma estratégia de marketing da Wilson para debutar no concorrido mercado de artigos de futebol, que movimenta US$ 800 milhões apenas na América Latina e atrai 400 milhões de consumidores. O craque é executivo da companhia, com direito a participação nos resultados, salário e mordomias. Com as dicas do argentino, a fabricante quer desenvolver os melhores produtos e cravar seu logotipo numa área dominada por ícones como Nike e Adidas. ?O futebol era uma assinatura pendente na Wilson e Batistuta é jogador de fama internacional, além de um trabalhador incansável, cheio de idéias inovadoras?, revela Nora Valejjos, diretora geral da Wilson do Brasil. ?A combinação é perfeita.? A prioridade da empresa será o mercado latino-americano. Em três anos, a meta é abocanhar 20% do setor, vendendo bolas, camisas, chuteiras e outros acessórios. Depois será a vez de Europa e Ásia.

A tabelinha entre o craque e a fabricante americana é de longo prazo. O jogador deve passar duas temporadas no Catar e depois pendurar as chuteiras. Só em 2006 terá condições de assumir de vez seu lado empresarial. ?Há anos que busco uma oportunidade como esta, de construir meu futuro em uma grande marca esportiva?, afirma Batistuta. Por enquanto, Nora, Juan Carlos Aziz ? presidente para a América Latina ? e o craque conversam quase que diariamente via celular ou e-mail para definir os passos da fabricante no novo campo de atuação. O trio apontou dois mercados vitais na estratégia de crescimento: México e Brasil. O México serviu de teste para a estréia nos gramados. A empresa começou timidamente a produzir bolas de futebol em 2002 e fechou aquele ano vendendo 58 mil unidades no país. Nos dois primeiros meses de 2003, após iniciar uma campanha agressiva de marketing, conseguiu comercializar 800 mil unidades. No Brasil, os produtos chegam ao mercado em setembro. Caneleiras e luvas serão importadas. A produção de calçados, roupas e meias será entregue a cinco licenciados nacionais: Paramount, Puket, Mercantil, Panoceanic e Realtex. A idéia é que Brasil e México sejam os responsáveis pelo abastecimento na América Latina.

Ao contrário da rival Nike, a Wilson não pretende gastar bilhões de dólares em campanhas publicitárias. O plano é fazer um marketing dirigido, com esforços e promoções no comércio especializado. Além disso, há uma verba destinada para patrocínio de atletas e clubes de futebol nos países-chave. No Brasil, um dos candidatos a estampar o W da empresa no uniforme é o São Caetano, hoje atendido pela Penalty. As conversas com o azulão estão adiantadas. ?A estreante no setor escolheu um time novo, com grande potencial e não tão caro. É um indício de que sua aposta é de longo prazo, crescendo junto com o clube e comendo o mercado aos poucos?, avalia o consultor Alexandre Loures, ex-Delloite e atual diretor de relações internacionais do Atlético Paranaense. Além do patrocínio de equipes, outra estratégia é trazer para o Brasil o projeto de lojas exclusivas da marca. Há unidades sendo testadas na Argentina. A empresa não revela os investimentos na linha futebol. O que se sabe é que sua holding, a Amer Sports, dona de receitas de US$ 1,2 bilhão, não vai economizar. A idéia é que o futebol responda em cinco anos por 50% das vendas da Wilson na América Latina, hoje na casa dos US$ 100 milhões. ?Quando entramos no beisebol e no volei não éramos ninguém e hoje somos líderes mundiais. No futebol, a trajetória não será diferente?, promete Nora. Batistuta assina embaixo.