Negócios

O LEGADO DOS CÉUS

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No dia 12 de outubro chega às telas dos principais cinemas do País o filme Maria, a mãe do filho de Deus. Seria apenas mais um lançamento cinematográfico não fosse por um detalhe: a película é estrelada pelo padre Marcelo Rossi, o maior garoto-propaganda da Igreja Católica. O projeto de R$ 7,5 milhões (uma superprodução para os padrões brasileiros) dá bem a medida da força do ?produto? religião nos vários segmentos da economia. A fé, mais do que nunca, está movendo milhões de reais e atraindo novas empresas ao mercado cristão. A fração mais barulhenta, sem dúvida, é a das igrejas evangélicas, donas de um rebanho composto por 26 milhões de pessoas espalhadas por todas as classes sociais. Consumidores ávidos por produtos com a grife ?Jesus?, eles movimentam uma fatia estimada em R$ 3 bilhões por ano, de acordo com empresários que militam na causa. E não se trata apenas do ?kit básico?: bíblia, paletó, gravata e viagens aos lugares santos (Aparecida ou Jerusalém). Muitos empreendedores estão enchendo os bolsos comercializando artigos como roupas, CDs, móveis, cadernos, agendas, jogos, instrumentos musicais, games e até mesmo licenciando personagens com ?inspiração celestial?. As 800 empresas que fazem produtos para o rebanho cristão não sabem o que é recessão. Suas vendas crescem a taxas de até 30% a cada ano. Com tantas companhias explorando esse filão, era uma questão de tempo para que alguém criasse uma feira específica para o setor. Foi o que fez o pastor Eduardo Pacheco Calissi, diretor da EBF Eventos. A segunda edição da Feira Internacional do Consumidor Cristão começa em 23 de setembro, em São Paulo. A expectativa é que, em seis dias, sejam realizados R$ 30 milhões em negócios, aumento de 200% em relação a 2002.

Serão 90 expositores no evento. A maior fatia (80%) é composta por representantes de segmentos tradicionais: editoras e gravadoras de disco. Mas há espaço para indústrias de alimentos (Superbom), fabricantes de material escolar (Pasticor Cadernos), confecções (Hpice), instituições financeiras (Bradesco) e seguradoras (Porto Seguro). Empresas de telecomunicações também pegam carona. A fabricante Ericsson e a operadora de telefonia TIM, por exemplo, aproveitam a feira para testar novos serviços, como o envio de mensagens bíblicas para a telinha do celular ou toques personalizados com músicas de louvor a Deus. A Ericsson saiu na frente e, no início de julho, lançou o celular Fiel, em parceria com a Assembléia de Deus. A idéia é oferecer o produto em redes de distribuição voltadas ao público gospel. Nesse segmento de consumo o mercado editorial continua sendo o responsável pelos maiores volumes. Dados preliminares da pesquisa ?Diagnóstico do setor editorial evangélico brasileiro? mostram que as editoras movimentaram R$ 139,1 milhões em 2002. A bíblia continua sendo o principal artigo. No ano passado, foram vendidos cerca de 8 milhões de ?livros sagrados?. Metade disto foi produzido pela Sociedade Bíblica do Brasil, que exporta para mais de 30 países.

Esse terreno fértil despertou também a atenção de multinacionais. Desde 1995, a americana Zondervan controla a Editora Vida, líder entre as empresas independentes com receitas de R$ 12,6 milhões. ?Vamos crescer 24% este ano?, diz o pastor Eudes Martins, diretor-executivo da companhia. O número reflete uma estratégia agressiva que combina preços baixos e livros de encadernação simples mas muito bem cuidados, com até 300 páginas. Além disso, a editora também entrou firme na área de ?auto-ajuda cristã?, investindo em ícones como os americanos Philip Yancey e Rick Warren. O livro Uma vida com propósito é a grande aposta de Martins para este ano. ?Em apenas seis meses ele vendeu 4,5 milhões de exemplares nos EUA?, conta.

Gospel. A música é outro filão que tem rendido bons dividendos. Até meados da década de 90, ninguém imaginaria que o Brasil seria varrido pelo fenômeno dos padres cantores. Nem mesmo que a música gospel se transformaria no terceiro gênero mais consumido, com uma fatia de 14%, destronando o pagode e a música sertaneja, segundo pesquisa do Instituto Franceschini de Análise de Mercado. A porção evangélica movimenta R$ 100 milhões. E é nessa seara que desponta a Line Records, ligada à Igreja Universal do bispo Edir Macedo. Já ouviu as canções de Jamily, J. Neto ou Donizete? Pois saiba que eles estão na linha de frente do cast da gravadora, que vende 25 milhões de CDs por ano e fatura R$ 13 milhões. ?Estamos incomodando as grandes empresas do setor?, alfineta Maurício Soares, diretor da Line Records. Alexandre Schiavo, vice-presidente de Marketing e Artístico da Sony Music, reconhece a força das rivais, mas avisa que quer uma fatia do bolo. Sua arma é o padre Marcelo Rossi. O CD com a trilha do filme estrelado pelo religioso já está no mercado. ?Esperamos vender 500 mil cópias?, diz. Resultado da união de Columbia TriStar Pictures, Globo Filmes, Sony Vídeo e Diler Produções, o filme vai brigar pelo recorde nacional de bilheteria.

Não há mercado mais democrático que este. No reino dos negócios divinos, há espaço para todos ? das gigantes multinacionais aos microempresários. O casal Paulo Mauerberg Júnior e Ana Cristina, dono da Hpice, apostou no segmento de moda, há 10 anos, e não se arrependeu. Suas camisetas, almofadas e chaveiros com mensagens de louvor ?Sou 100% Jesus? e a clássica ?Deus é fiel? fazem sucesso entre os adolescentes. ?Nossas vendas crescem 30% a cada ano?, diz Júnior. Para 2003, a estimativa é faturar R$ 1,2 milhão. Fabricantes de instrumentos musicais também estão dançando no ritmo da onda evangélica. ?Metade das vendas do setor é feita para os grupos gospel?, conta Ney Nakamura, sócio da Marutec Music, que produz guitarras e baixos Tagima. Há dois anos, ele inclui músicos desse estilo (o pastor Bruno, da Banda Resgate; e Juninho Afram, da banda G3) entre os patrocinados pela marca. Nakamura não conta os números envolvidos na operação, mas sua decisão de olhar para os artistas de Deus parece ter sido acertada. É crescente o número de músicos que procuram instrumentos da Marutec.

Entretenimento, aliás, é uma área promissora no mercado cristão. Empresas e igrejas estão investindo pesado no licenciamento de personagens infantis. Um dos mais bem-sucedidos é o Smilinguido, da Associação das Igrejas do Cristianismo Decidido. A simpática forminguinha já estampa milhares de cadernos, agendas, bonés, toalhas e até mesmo latas de extrato de tomate. A personagem já atravessou as fronteiras do Brasil rumo aos EUA, Japão, além de países da América Latina e Oriente Médio. ?Em novembro, lançaremos os gibis com a turma Smilinguido?, diz Neide Regina Dahlke, que responde pelo marketing da entidade. A tiragem inicial será de 100 mil cópias. Diante de tanta sede de consumo, algumas potências do setor financeiro decidiram dar uma ajuda aos fiéis ? e aos seus cofres também. O Bradesco e a Visa, por exemplo, lançaram cartões de afinidade em parceria com a Assembléia de Deus, a Convenção Batista Brasileira e a igreja Renascer. ?As Igrejas foram as primeiras a enxergar o seu rebanho como um mercado consumidor. Agora é a vez dos empreendedores arriscarem seu capital?, diz o pastor Eduardo Calissi, da EBF Eventos. Arriscar, na verdade, é uma força de expressão. A experiência demonstra que o lucro neste segmento é líquido e certo. Amém!