Negócios

PROJEÇÃO NACIONAL

Ele parece ter saído daqueles filmes americanos de gangues de motocicletas. Cabelos compridos, bigode no estilo Hell Angels e a inseparável Harley Davidson lhe abrindo caminho. Aí está Marcos Araújo, 47 anos, paulista de Botucatu, dono da Cinematográfica Araújo. Um empresário diferente, que abomina tanto os manuais de administração quanto terno e gravata. ?Fiquei mais rebelde depois de velho. Não ligo mais para o que os outros pensam?, explica. A rebeldia não é apenas uma opção
estética. Ela também faz parte do seu estilo de fazer negócios. Marcos é um dos brasileiros que mais constroem complexos de cinema no País. Foram 23 nos últimos cinco anos, num total de 68 salas.
Tudo na sua empresa é feito de um jeito muito peculiar. Para começar, ele é o próprio arquiteto das suas obras, sem nunca ter passado nem perto de um curso superior. ?Eu gosto de cinema sem padrão, arrojado, com muita luz, cores fortes, tipo Las Vegas?, justifica. Também gosta de invadir cidades de médio porte, onde
os concorrentes passam longe. Vem dando certo. Com essa fór-
mula, o rebelde conquistou pontos preciosos num setor dominado
por grupos como UCI, Cinemark e Severiano Ribeiro. Em alguns centros, chega a bater o movimento das salas rivais.

O empresário buscou no exterior a sua fórmula de sucesso. Percorreu o mesmo caminho do dono da rede Cinemark, Lee Roy Mitchell, que na década de 80 fez fortuna construindo cinemas em cidades de médio porte. Inspirado em Mitchell, Araújo montou na Harley e correu o País. Foi a Londrina, Maringá, Bauru, São José do Rio Preto e Sorocaba. Mas não bastava estar onde as grandes redes não vão. Era preciso vender ingressos a preços populares (o mais caro custa R$ 8), ter salas confortáveis e uma programação ?inteligente?. Rentável, em outras palavras. Conseguir preço baixo e salas confortáveis é tarefa de Marcos. ?Não quero matar a concorrência. É meu preço, estou ganhando dinheiro assim?, diz o empresário. A margem de lucro da Cinematográfica Araújo, que faturou R$ 28 milhões em 2002, é da ordem de 25%. Uma pequena parte desse dinheiro banca a vida dos donos e a outra é reinvestida na construção de salas. Nessas horas, Araújo não poupa nenhum centavo. Viaja para o exterior três vezes ao ano para visitar feiras do setor e gasta o que for preciso para deixar o cinema com a sua cara. A última dele foi revestir pilastras de um de seus complexos com aço inox, um capricho que custou R$ 50 mil. ?As salas de Araújo são ótimas?, elogia Luiz Gonzaga de Luca, diretor de relações institucionais do Grupo Severiano Ribeiro, um dos maiores do País com 175 salas.

A terceira missão fica a cargo do pai de Marcos, que, aos 72 anos, define onde e como os filmes serão exibidos. ?A programação é a alma do nosso negócio. Meu pai tem um feeling que pouca gente tem no Brasil,? conta Marcos. Pudera. A família está no ramo desde que o cinema era mudo. O avô era um dos oito distribuidores de filmes que
o Brasil tinha na década de 30. Nos anos 70, o grupo chegou a ter 220 salas em pequenas cidades do País. Como vários empresários dessa área, os Araújo tiveram um final infeliz nas décadas seguintes e se desfizeram da maior parte das suas telas. A família só voltou à cena com a chegada do conceito multiplex. Marcos diz que sua meta é ter perto de 100 salas quando completar 50 anos. Construir parece não ser um problema. O desafio agora é consolidar a marca. Para começar, Cinematográfica Araújo não é um nome muito comercial.
?A empresa é eficiente e o crescimento dela chama a atenção.
Mas ter uma marca é fundamental em um mercado tão competitivo como o nosso?, afirma Valmir Fernandes, presidente da Cinemark. Talvez seja a hora do empresário deixar a rebeldia um pouco de
lado para se encaixar às regras do mercado.