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VENTO A FAVOR DA VOLKS

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 Arrancada Demel, presidente da Volks do Brasil, pilota o ousado projeto de revitalização da marca

 

O projeto virou realidade em plena manhã da Quarta-Feira de Cinzas. A Volkswagen do Brasil mal esperou o fim do carnaval para exibir em sua linha de montagem, na remodelada fábrica da Anchieta, em São Bernardo do Campo, o pequeno e moderno Polo. O veículo nasce ancorado em investimentos de R$ 2 bilhões e com a nobre missão de reposicionar a marca no mercado nacional. É, literalmente, o carro-chefe da Volks para recuperar a liderança na venda de automóveis, posição que a montadora manteve intacta durante mais de 40 anos, mas que lhe foi arrancada pela arqui-rival Fiat no ano passado. Com o Polo, lançado há menos de seis meses na Europa, a empresa inaugura um novo segmento ? intermediário entre o Gol e o Golf ? e promete abocanhar 5% do mercado. Serão produzidas 50 mil unidades este ano, devendo chegar a 100 mil veículos em 2003. ?É um novo começo no Brasil?, definiu o presidente mundial da Volks, Ferdinand Piëch.

O carro estréia no mercado brasileiro em meados do ano. A montadora ainda não definiu o preço, mas estima algo em torno dos R$ 25 mil para o novo modelo, que sai de fábrica com air bag duplo, som, ar-condicionado e direção hidráulica. Cerca de 25% da produção seguirá para o exterior, principalmente América Latina. A Volks, quarta maior exportadora do Brasil ? com vendas de R$ 3 bilhões ?, quer manter o ritmo de encomendas internacionais e não por outro motivo concentrou a produção do novo Polo em modelos com motorização 1.6, 1.9 (diesel) e 2.0. Uma versão 1.0, mais ao gosto e ?ao bolso? dos brasileiros, não deverá ser produzida. Pelo menos por enquanto. ?Tudo vai depender da demanda. Se o mercado pedir, vamos fazer?, afirma Herbert Demel, presidente da Volkswagen do Brasil. Ele descarta a possibilidade de o Polo substituir o Gol, a grande alavanca de vendas da montadora nos últimos 20 anos. ?Mas é bom a VW pensar com carinho neste assunto. O Gol é um projeto ultrapassado, uma espécie de avô do carro popular?, diz Glauco Arbix, professor da USP e estudioso do setor automotivo.

 

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Investimento R$ 2 bilhões para transformar a unidade da Anchieta em fábrica-modelo

 

Mais que ganhar pontos percentuais no mercado, o Polo talvez seja o símbolo maior do surgimento de uma nova Volkswagen. Esqueça o ?carro do povo? ? tradução literal do nome da montadora. A marca, agora, quer provar que não é só uma grande fabricante de motores, mas sim de conceitos, design, acabamento e tecnologia. A Volks quer conquistar uma fatia mais robusta na faixa dos consumidores com maior poder aquisitivo. A explicação é simples. Carros a partir de R$ 25 mil, por exemplo, têm margem de lucro muito superior aos ditos populares 1.0. Não por acaso, quando perguntam a Demel sobre o avanço da rival Fiat, ele responde desta forma: ?Quem é líder? Quem tem mais volume de venda ou quem coloca mais dinheiro no bolso?? Nesse quesito, a montadora é imbatível: vendeu R$ 10 bilhões em 2001, contra R$ 5,5 bilhões da Fiat. Só que o Polo não está sozinho nesta arena. Ford e GM vão percorrer a mesma trilha respectivamente com o Amazon e o novo Corsa. ?A disputa vai ser acirrada?, prevê Markus Stricker, vice-presidente da consultoria AT Kearney.

Por isso mesmo, a Volks não vai deixar de lado o mercado popular ? afinal 70% das vendas no Brasil se concentram neste segmento e modelos 1.0 representam o passaporte para outros carros da marca. O planejamento estratégico de Demel inclui a produção do primeiro veículo mundial, desenvolvido pela filial brasileira. O projeto, que já foi chamado de Tupy, é guardado a sete chaves. Especula-se que ele seria derivado do Lupo, um subcompacto que faz bastante sucesso na Europa. Apesar de não comentar sobre o carro mundial, Demel dá pistas sobre o que pretende fazer. A produção do Gol, hoje dividida entre as unidades de Anchieta e Taubaté (SP), vai se concentrar inteiramente nesta última cidade. Com isso, Anchieta terá espaço para receber um novo modelo.

A revolução que está acontecendo por aqui não é fato isolado. Faz parte de uma estratégia mundial desenhada pelo chefão Ferdinand Piëch, e que foi batizada de Trevo de Quatro Folhas. São quatro segmentos novos que a Volks mundial vai explorar: utilitários esportivos, sedãs luxuosos clássicos (para concorrer com Mercedes), minivans e um veículo superesportivo (para brigar com a Ferrari). O projeto tem dois objetivos básicos: manter o bom desempenho nos EUA e colocar a montadora em todos os segmentos possíveis. O mercado brasileiro também vai ser beneficiado. Já está certo que as minivans e os utilitários esportivos vão rodar por aqui. ?A empresa demorou para reagir. Mas agora está no caminho certo?, diz o professor Arbix.

 

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Prestígio Piëch (à esq., de preto) mostra o novo Polo ao chanceler alemão Schröder (à dir.)

 

A letargia a que se refere Arbix custou caro à Volks. Nos últimos anos, a montadora alemã ignorou o avanço da concorrência. Tente se lembrar de um grande lançamento da Volks na última década. O que se viu nas fábricas da empresa durante esse tempo foi tão-somente a reestilização de modelos e uma estratégia voltada em grande parte ao fortalecimento do Gol. Enquanto isso, concorrentes remodelavam linhas de montagem e traziam conceitos inovadores. A Volks assistiu a tudo isso de camarote e só começou a se mexer quando o Brasil recebeu dez novas montadoras, movimento que começou em 1998. Herbert Demel, austríaco indicado por Piëch para acelerar o processo de modernização da Volks no Brasil, deu o tom exato da mudança: ?De uma hora para outra, vimos quatro montadoras se transformarem em catorze, ao mesmo tempo em que o mercado sofreu uma brutal retração?.

Em 1998, então, a Volks começou a revolução. O projeto PQ-24, que deu origem ao Polo, teve início com a demolição de 37 prédios de cinco mil metros quadrados na fábrica da Anchieta. Era preciso remodelar a antiquada unidade de São Bernardo, trazer novos conceitos de produção e prepará-la para o lançamento de um carro que pudesse reinventar a companhia. Até então, a unidade fazia apenas os modelos Santana, Quantum, Kombi e alguns lotes de Gol. Pouco para quem pretendia construir uma nova história no mercado brasileiro. A fábrica veio abaixo. As ?cansadas? máquinas foram trocadas por 400 novos robôs. Funcionários deixaram de apertar botões para comandar a produção por meio de palm-tops. Foi introduzida a solda a laser. A linha de pintura foi automatizada e montagem do veículo feita por meio de sistema modular, onde os fornecedores de peças atuam dentro da fábrica. Piëch e Demel queriam mostrar que o Brasil tinha condições de sediar um moderno parque fabril. Provaram isso com a fábrica de São José dos Pinhais (PR), erguida em 1999 e que serviu de inspiração para as mudanças introduzidas na Anchieta. No Paraná, Demel obteve sua primeira vitória. A unidade, que produz Audi A3 e Golf, lidera as exportações enviando veículos para os exigentes mercados dos EUA e Canadá. ?O Golf provou que podemos produzir carros de qualidade?, afirma Demel. ?Estou satisfeito com os processos de produção utilizados no Brasil, alguns deles inéditos como o consórcio modular, que podem servir de referência pra outras unidades no mundo?, endossa Piech. É uma nova Volks.

 

 

 

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