Negócios

Expresso canadense

A gigante Bombardier, pedra no sapato da Embraer, está chegando ao Brasil. De trem. Preferiu os trilhos aos aeroportos por razões simples. Primeiro porque não haveria o menor motivo para brigar no setor de aviação em pleno território da Embraer. Depois porque soaria como provocação, algo diplomaticamente incorreto depois de trocar caneladas por um bom tempo com a rival na Organização Mundial de Comércio, em Genebra. Pois bem. Diante disso, os canadenses decidiram desembarcar por aqui por meio de grupos ligados ao seu braço ferroviário, a Bombardier Transportation. Estão de olho na expansão de trechos de trens urbanos e metrôs. E podem até escolher o melhor caminho. Eis as opções: operar através da filial brasileira da Adtranz ou transformar a combalida Cobrasma em porta de entrada. Ou então fazer as duas coisas.

Explica-se: no início de agosto, a Bombardier fez uma proposta de US$ 725 milhões pela compra da Adtranz, pertencente ao grupo Daimler Chrysler. A aquisição está sendo analisada por diversos órgãos antitrustes em diferentes países. Se a Bombardier conseguir o ?sim? das autoridades, terá o Brasil na bandeja. A Adtranz já está aqui e opera por meio de um contrato com a Cobrasma, que aluga parte de sua fábrica em Hortolândia, interior de São Paulo. Em outras palavras, a Bombardier compraria uma e poderia levar duas empresas. ? A proposta dos canadenses é de integrar totalmente os negócios da Adtranz e isto, é claro, envolve o contrato com a Cobrasma?, diz Albert Blum, presidente da Adtranz do Brasil. Mas se houver algum desvio de rota e a Adtranz não for incorporada? A Bombardier parte para cima da Cobrasma.

 

?Ainda não podemos falar nada porque a compra da Adtranz está sendo avaliada?, disse à DINHEIRO Pierre Pichette, diretor de relações externas da Bombardier. ?Mas nosso interesse no Brasil não vem de hoje e estamos olhando todas as possibilidades?. O presidente mundial, Robert Brown, em recente entrevista à DINHEIRO, já dava uma pista: ?O setor de transporte é muito interessante no País?. Qualquer que seja o caminho, os canadenses contam com o apoio do governo brasileiro. O secretário de Assuntos Econômicos e Integração do Ministério das Relações Exteriores, José Alfredo Graça Lima, disse que o governo não pretende acionar o BNDES para financiar, por exemplo, a compra da Cobrasma, mas que nada impediria a abertura de crédito para a empresa do Canadá adquirir a fábrica brasileira.

A Companhia Brasileira de Material Ferroviário foi, durante anos, uma locomotiva no setor. Era a fornecedora preferida do governo e chegou a exportar vagões e equipamentos. Seu comandante, Luís Eulalio de Bueno Vidigal, era o símbolo do empresário moderno. Mas todo esse prestígio começou a ruir quando o governo ? responsável por 70% das encomendas à Cobrasma ? reduziu os pedidos. Adicione-se aí a crise que colocou o setor ferroviário na lona e o resultado não poderia ser outro: seis anos consecutivos de prejuízos até a concordata no biênio 1991/1992. Em 1993, a Cobrasma ainda conseguiu levantar a concordata, mas caiu de novo nos anos seguintes e resolveu encerrar as atividades. Hoje, o que restou daquele império de vagões (além de um monte de credores na porta) é a fábrica de Hortolândia, cujos galpões são ?alugados? para empresas como a Adtranz.

 

Qualquer que seja o desfecho, o ?expresso canadense? fará a festa no Brasil. Chega aqui com vários contratos firmados pela Adtranz e com dinheiro e tecnologia suficientes para levantar a Cobrasma. No primeiro caso, a Bombardier, de imediato, embolsaria R$ 22 milhões para recuperar vagões da Companhia Paulista de Transportes Metropolitanos. Também levaria R$ 20 milhões para fornecer equipamentos ao Metrô de São Paulo. Há, ainda, acordos de manutenção dos vagões da ALL, que administra a antiga malha sul da extinta Rede Ferroviária Federal S.A. Isso sem contar os planos da Adtranz de montar novas fábricas.

A Bombardier Transportation responde por 25% do faturamento de US$ 9,4 bilhões do grupo Bombardier. Com vendas de US$ 2,3 bilhões, a divisão mantém fábricas em 12 países e vem aumentando sua importância dentro da corporação. Nos últimos dias, por exemplo, fechou contratos de quase US$ 1 bilhão para desenvolver um novo sistema de transporte automático sobre trilhos em Las Vegas (EUA) e em Kimhae (Coréia do Sul). Em outras palavras, dinheiro não vai faltar para levantar a combalida Cobrasma. Se o governo ajudar, então, será covardia.

Veja também

+ T-Cross ganha nova versão PCD; veja preço e fotos

+Conheça os 42 anos de história da picape Mitsubishi L200

+ Remédio barato acelera recuperação de pacientes com covid-19

+As 10 picapes diesel mais econômicas do Brasil

+ Avaliação: Chevrolet S10 2021 evoluiu mais do que parece

+ Grosseria de jurados do MasterChef Brasil é alvo de críticas

+ Cozinheira desiste do Top Chef no 3º episódio e choca jurados

+ Governo estuda estender socorro até o fim de 2020

+ Pragas, pestes, epidemias e pandemias na arte contemporânea

+ Tubarão-martelo morde foil de Michel Bourez no Tahiti. VÍDEO

+ Arrotar muito pode ser algum problema de saúde?