Negócios

Surpreendente avanço do Bimbo

A empresa que agora está conquistando o Leste Europeu, mais especificamente a República Checa, não é uma companhia americana, européia ou japonesa como as demais que fizeram o primeiro desembarque. Tampouco produz carros ou produtos de alta tecnologia. O nome da recém-chegada é Bimbo, sua origem é o México e seus produtos são banais pães industriais, biscoitos e massas. É uma gigante do setor alimentício, com faturamento anual de US$ 8 bilhões. A entrada do Grupo Bimbo na República Checa marca a estréia em um mercado dominado por americanos e outros tradicionais produtores europeus. ?Faltava fincar nossa bandeira nessa região para consolidar o processo de internacionalização da empresa?, diz Gustavo Solares, diretor do Grupo Bimbo, em entrevista a DINHEIRO.

A globalização penetrando em mercados alternativos é uma estratégia iniciada há cerca de 10 anos pelo Bimbo. Na ocasião, a economia mexicana dava seus primeiros passos rumo à abertura. Uma espécie de vaticínio tomou conta do mundo dos negócios local: as empresas mexicanas estavam fadadas a perecer por falta de competitividade diante da iminente invasão dos estrangeiros. O Bimbo tratou de usar a mesma arma para enfrentar a concorrência. ?Nós nos tornamos invasores antes de ser invadidos?, diz Solares.
Hoje, o grupo atua em 16 países, entre eles Alemanha e Estados Unidos, além da maioria dos mercados latino-americanos. Há cerca de dois anos, executivos mexicanos estiveram no Brasil em busca de parceiros. Olharam, olharam e resolveram tirar o pé do acelerador. ?Trata-se de um mercado muito complexo e que exige estudos mais aprofundados?, diz Solares. ?Mas continuamos analisando e estou certo que atuaremos no Brasil. Resta definir apenas se construiremos uma fábrica ou compraremos alguma empresa já estabelecida.?

Sejamos sinceros: quando o Bimbo desembarcar no Brasil, os profissionais de marketing da companhia terão de fazer malabarismos para que o nome da empresa não se transforme numa chacota nacional. Só a notícia sobre a entrada do Bimbo na República Checa, publicada no The Wall Street Journal, virou piada entre executivos do setor alimentício brasileiro, que acompanham as movimentações desse futuro concorrente ? a maioria dos comentários jocosos sobre o assunto, aliás, é impublicável.

Caso semelhante a esse ocorreu anos atrás, quando o banco holandês Rabo resolveu abrir um escritório no Brasil. Precavidos, os executivos incluíram um ?i? e lançaram o banco no mercado brasileiro com o nome Raibo. Assim, acreditavam, nenhum cliente ficaria constrangido em falar que colocou seu dinheiro no Raibo. Não deu certo. Todos passaram a perguntar por que o nome havia sido mudado e as explicações se tornaram mais constrangedoras do que a marca original. Tempos depois voltaram atrás na decisão.

É óbvio que isso não impedirá os investimentos da empresa no Brasil ? afinal a internacionalização é a principal estratégia de crescimento do grupo. Hoje, o Bimbo possui 70 fábricas em 16 países e emprega 64 mil funcionários. Seus 750 produtos são distribuídos com uma frota própria de 27 mil veículos, de peruas a caminhões pesados. Fundado em 1945, o grupo ainda mantém muito de sua cultura familiar. Lorenzo Sendra, um dos fundadores do conglomerado, juntamente com o irmão Roberto, costuma dizer que a virada do grupo teve data e local marcados. No princípio da década de 80, um comprador do McDonald?s estava selecionando os fornecedores de pães e considerou que os produtos do Bimbo não eram bons o suficiente. O grupo investiu, então, mais de US$ 30 milhões em qualidade. Hoje, é o único fornecedor de pães para a rede de fast food no território mexicano. As investidas em outros países, em geral, têm como ponto de partida a instalação de lojas do McDonald?s. ?Fomos atrás de quem sabe como abrir novas fronteiras?, diz Solares. Pode ser uma boa lição para as empresas brasileiras, assustadas com a crescente concorrência dos estrangeiros.