Negócios

O Gandhi bilionário da Índia

Aos 21 anos, Azim Premji teve de largar um curso de engenharia em Stanford, Estados Unidos, e se enfiar em um vilarejo rural, em Bangalore, Sul da Índia. Seu pai acabara de morrer e, como reza a tradição indiana, ele, o filho mais velho, deveria assumir os negócios da família ? uma refinadora de óleo de cozinha. A Western India Vegetable Products (Wipro) tinha valor de mercado de 70 milhões de rupias (US$ 1,6 milhão). Mas o recém-empossado presidente queria mais, muito mais ? e começou a diversificar os negócios. ?Com a saída da IBM da Índia, na década de 70, passei a investir no potencial do país para criar tecnologia?, explica Premji, em entrevista exclusiva à DINHEIRO. Hoje, aos 55 anos, o indiano viu o que poucos empresários jamais sonhariam: a Wipro Technologie ? o braço tecnológico e mais lucrativo de seu império, que pesquisa e desenvolve programas para computadores ? faturou US$ 102 milhões em 99. E tornou-se a maior companhia da Índia, com valor de mercado de US$ 8,8 bilhões. A Wipro Corporation, formada por dezenas de empresas, vale US$ 51 bilhões.

Graças ao sucesso da Wipro Technologie, Premji, dono de 75% do capital do grupo, tornou-se o segundo homem mais rico do planeta, com patrimônio pessoal de US$ 38 bilhões. Isso significa dizer que o valor de mercado de sua empresa poderia pagar todo o déficit fiscal da Índia. Em 1999, segundo o ranking da revista Forbes, perdeu apenas para o todo-poderoso da Microsoft, Bill Gates (US$ 90 bi). Hoje, com o sobe-e-desce das ações de tecnologia, Premji caiu para a terceira posição, atrás do próprio Gates e de Larry Ellisson, da Oracle (US$ 49,98 bi). Mas nem ouse discutir a questão financeira com Premji, fiel seguidor do líder pacifista Mahatma Gandhi: ?Esses rankings têm como base a capitalização de mercado das empresas, o que muda diariamente?, faz questão de afirmar. ?Acredito em poucas coisas: fazer o bem, ter um dia honesto de trabalho e não se preocupar com o mercado de ações.?

De dia honesto de trabalho em dia honesto de trabalho, Premji vem fazendo sua Wipro Technologie crescer. Desde janeiro, o capital da Wipro subiu 215% e a empresa, com 6,5 mil funcionários, já é a segunda maior exportadora de software da Índia. Para o próximo ano, os números não deverão desapontar. A Wipro fornece tecnologia para 100 das 500 maiores empresas do mundo. E, neste ano, foi escolhida por Bill Gates como parceira para desenvolver o Windows 2000.

Pode parecer estranho pensar numa superpotência de softwares na Índia, onde apenas quatro em cada mil habitantes têm computador e há menos de uma linha telefônica por cem residências. A explicação é dada pelo próprio ?magnata? do software indiano. Por décadas, essa empobrecida nação viveu à sombra da economia mundial, exportando manufaturados. ?Naquele período, o principal recurso era o capital. Hoje, é o poder do cérebro?, diz ele. Com a explosão da ?nova economia? nos Estados Unidos, a Índia ganhou projeção. Calcula-se que o país despeja 1 milhão de profissionais de tecnologia no mercado. Muitos migraram para os Estados Unidos. Depois de encher os bolsos, retornam para investir naquele que pode ser o maior mercado do mundo, com 1 bilhão de consumidores.

A lua-de-mel da Índia com a alta tecnologia apenas começou, mas está alterando pouco a pouco a cara do país. O vilarejo de Bangalore ? onde Premji e uma centena de outros repatriados resolveram sediar suas companhias ? tornou-se o centro dessa indústria de softwares. O Vale do Silício indiano não lembra, nem de perto, o luxo americano, mas os sinais de dinheiro já são visíveis. ?A indústria de tecnologia criou mais milionários na Índia, nos últimos cinco anos, do que todas as indústrias juntas em 50 anos?, conta. Mas não só a indústria de tecnologia floresceu. A economia veio a reboque, crescendo 6% no último ano, quando as exportações de software aumentaram 50%.