Negócios

Mineira planeja ser multi

Aos sete anos de idade, José Alencar não tinha muito tempo para brincar com a molecada da zona rural de Muriaé, região mineira da Zona da Mata. Já estava enfiado no armarinho do pai vendendo tecidos. Ele era o 11º filho entre 15 irmãos. A vida não era fácil. Por isso, aos 14 anos tomou uma decisão. Pegou a pequena mala de madeira, juntou três mudas de roupa e foi para a cidade trabalhar em outra loja do mesmo ramo por um salário de 300 cruzeiros, a moeda da época. O dinheiro não dava para pagar a pensão, se alimentar e ter a roupa lavada. Foi obrigado a fazer o primeiro negócio da vida com a dona da hospedaria. Barganhou com ela e conseguiu uma cama improvisada. Depois de um ano e meio dormindo no corredor da casa, recebeu uma proposta para trabalhar em Caratinga com um grande comerciante da cidade. Aos 18 anos, com a ajuda do irmão mais velho, montava sua primeira loja, batizada de A Queimadeira.

Meio século depois, hoje com 68 anos, José Alencar é um dos homens mais importantes da indústria têxtil brasileira. Ele é o fundador da Coteminas, uma companhia formada por 11 fábricas, espalhadas pelo Nordeste e Minas e que tem cerca de 8 mil funcionários. No ano passado o faturamento da empresa foi de mais de meio bilhão de reais, o que representou um crescimento de quase 50% em relação a 1998. Os produtos de Alencar, no começo conhecidos apenas no interior de Minas, hoje estão em prateleiras dos EUA, França, Inglaterra, Itália, sete países da América do Sul e, pasmem, chegaram até Hong Kong. ?Acho que sempre tive vocação e arte para as vendas?, diz o empresário, em entrevista exclusiva a DINHEIRO, que quebrou a longa temporada de silêncio sobre os seus negócios.

Em direção ao mercado internacional é que os passos da empresa já estão sendo dados. Na semana passada o filho caçula de Alencar, Josué, de 36 anos, superintendente da empresa desde 1989, visitava clientes nos Estados Unidos. Ele não explica qual será o caminho das pedras, por exemplo, para tomar mercado dos asiáticos, seus grandes concorrentes, mas avisa: ?Estamos fazendo pesquisas nos EUA e na Europa. Queremos comprar canais de distribuição e marcas nesses mercados?.

Dentro de quatro anos o superintendente da Coteminas quer que a participação das exportações no faturamento passe de 14% (número de 1999) para 50%. Pode haver alguma aquisição no Brasil? Ele responde em tom de brincadeira: ?Não sei de ninguém que esteja à venda. Quem souber, me avise?. Mas há quem afirme que, assim como está pronta para as aquisições, a companhia também poderia ser vendida. Josué Alencar diz que não. ?Nós queremos comprar?, afirma.

O filho está seguro sobre a estratégia de aquisições. Segundo ele, a Coteminas está com sobra de caixa e não tem problemas com dívidas, uma lição ensinada pelo fundador da companhia. ?Não quebrei como os outros porque Deus entrou no meio e disse ?não se endivide??, conta José Alencar. Além disso, foi depois de uma aquisição ? da catarinense Artex, dona de marcas como Santista Têxtil, Calfat e Garcia ? que a companhia deixou de ser verticalizada, mudou sua vocação de só fazer tecidos e entrou no mercado de produtos de consumo. A estratégia vingou. Em 1999 a Coteminas fabricou 8,8 milhões de quilos de tecido (quase 9% da produção nacional), transformados em toalhas, camisetas e roupões. Se tudo isso fosse usado para fazer lençóis, teriam sido produzidos 176 milhões de peças. O suficiente para abastecer a população do Brasil e do Chile.

Apesar de a diversificação de investimentos não estar nos planos da Coteminas, a partir do ano que vem a companhia têxtil vai entrar em um novo mercado. É quando começa a funcionar na região mineira do Vale do Aço uma usina hidrelétrica de R$ 100 milhões, construída em associação com a Cemig e a Vale do Rio Doce. A produção será usada nas fábricas da Coteminas, barateando o custo da energia elétrica.

São investimentos bem expressivos, mas ainda prevalece nos negócios a filosofia do fundador. ?Sou muito competitivo, mas também sou conservador, como todo mineiro. Do contrário, talvez tivesse crescido mais. Como já disse o escritor Fernando Sabino, o mineiro não anda no escuro, não pisa no molhado, não estica conversa com estranho e só arrisca quando tem certeza?, ensina José Alencar.