Negócios

O Homem de Jari

Ao desembarcar na Rodoviária de São Paulo, sem nenhum tostão no bolso, o estudante de Birigüi (SP) deparou-se, em 1973, com um dos maiores desafios de sua vida: aos 18 anos, estava em uma cidade grande, sem emprego ou amigos, e 500 quilômetros distante da família. Seis meses depois chegou a pensar em voltar para casa. Mas o paulista Sérgio Antônio Garcia Amoroso persistiu e foi em frente. Fez fortuna com caixas de papelão e fundou, na década de 80, o Grupo Orsa, do setor de papel e celulose, cujo faturamento previsto para este ano é de R$ 350 milhões. Orgulhoso empresário da velha economia, hoje aos 45 anos ele se embrenha em novo desafio. Desta vez, às margens do rio Jari, em meio a florestas, máquinas obsoletas, dívidas em dólar e um lugarejo de 70 mil habitantes. Amoroso assume esta semana a presidência do Conselho de Administração do Jari, companhia que adquiriu em fevereiro por apenas 1 real. A fabricação de celulose (produto usado na confecção do papel) na Amazônia foi vislumbrada nos anos 60 pelo milionário americano David Ludwig. Ele comprou 1,6 milhão de hectares de floresta e trouxe do Japão a fábrica completa. Mas seus planos atolaram nas dificuldades.

Hoje, o Jari flutua em dívida de US$ 400 milhões e suas máquinas são movidas por energia de velhas caldeiras. Com ímpeto de desbravador, o contador de Birigui quer refazer o Jari, aumentar a produção de celulose em 20 mil toneladas anuais (o que elevaria o total para 300 mil toneladas/ano) e torná-lo ?viável? em uma década. Ele não fala em lucro. Isso, admite Amoroso, os acionistas não vão ver tão cedo. ?Vamos trabalhar duro porque os custos sobem a toda hora.? Vencer obstáculos faz parte do cotidiano de Amoroso desde o seu início em São Paulo. Depois de quase desistir, ele trabalhou em uma indústria de caixas, como assessor do dono. Filho de um arrendatário de terras, estudara em bons colégios e logo passou a transformar papelão em moeda ao tornar-se fornecedor da Nestlê e Sadia. ?Crescemos na década de 80, a que dizem ter sido a década perdida?, avalia.

Na nova aventura, Amoroso conta com novidades que Ludwig não dispunha. A comunicação dos gerentes no Pará, por exemplo, se dá via satélite. ?Sei qual a produção diária de celulose?, revela. Olhando para trás, ele faz ressalvas à iniciativa do americano. ?O conceito do projeto estava certo, mas Ludwig fez coisas sem pensar.? Amoroso diz que ao instalar a fábrica na Amazônia, o americano teve dois trabalhos: um de retirar a floresta e outro de plantar as árvores para a produção da celulose. ?Melhor seria se fosse na Bahia?, opina.

Sua mulher, Bernadete de Lourdes, está ao seu lado na expedição amazônica. Ela é presidente da Fundação Orsa, que tem papel relevante no contrato assinado em fevereiro. A entidade vai ficar com 1% do faturamento, que este ano deve ser de US$ 200 milhões, e tem a obrigação de investir o dinheiro na miserável Monte Dourado, onde está a fábrica. Esta proposta agradou a credores como o BNDES e o Banco do Brasil. Todos eles, incluídos os irmãos Guilherme e Mário Frering, os ex-donos, vão repartir 80% da geração de caixa nos próximos 10 anos e têm a garantia de receber US$ 112 milhões do Orsa se nada der certo. O empresário vislumbra, em plena era digital, um aumento no consumo de papel. ?Ao contrário do que todos pensavam, os estudos mostram que a demanda vai crescer?, diz. O preço da tonelada de celulose saltou de US$ 490 para US$ 640 nos últimos doze meses e 85% da produção do Jari já é exportada. O tempo é que vai dizer se o pesadelo de Ludwig tornou-se o sonho do paulista de Birigüi.