Negócios

Governo de novo na vale

O expressivo desempenho financeiro da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) ? que lucrou R$ 638,6 milhões no último trimestre e outros R$ 1,25 bilhão em 1999 ? não foi suficiente para deter o avanço da corrente que prega a interferência do governo nos destinos da empresa. A mudança de postura começará, na prática, na próxima reunião do Conselho de Administração, marcada para o próximo dia 24. Na ocasião, pela primeira vez desde a privatização da maior mineradora do País, há exatos três anos, dois representantes do Estado ? o secretário do Tesouro Nacional, Fábio Barbosa, e o diretor do BNDES, Eleazar de Carvalho ? vão tomar assento no Conselho. A decisão também representa a vitória dos que partilham do diagnóstico de que a Vale perdeu a capacidade de planejar estrategicamente seu futuro. Deste bolo fazem parte analistas de mercado, políticos e até mesmo o presidente do BNDES, Francisco Gros. Juntos, o banco e o Tesouro detêm 32% do capital ordinário da companhia. Outra parcela expressiva (14,5%) está nas mãos da Previ, o poderoso fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil.

Seria uma intervenção branca na empresa? ?Eu acho isto uma extraordinária bobagem. É quase ridículo dizer que o governo está intervindo?, dispara o presidente da Vale, Jório Dauster. O executivo recorre aos números para demonstrar que a CVRD continua sendo um player importante no cenário mundial, além de representar um ótimo investimento para os acionistas. ?No ano passado repassamos R$ 190 milhões em dividendos ao Tesouro, montante quase quatro vezes acima do maior valor já pago ao governo pela empresa?, cita. Ele discorda também da avaliação de que faltaria visão de longo prazo aos atuais gestores da companhia. ?Nunca ficamos sentados à espera de que as coisas acontecessem?, diz.

Segundo Dauster, os últimos três anos foram marcados por um forte processo de reestruturação na companhia. Além disso, a empresa teve de conviver com um cenário perverso por conta da crise asiática ? que afetou importantes mercados consumidores ? e da queda, em até 30%, na cotação das commodities. A Vale emergiu deste mar adverso, de acordo com Dauster, em melhores condições do que entrou. Áreas problemáticas como celulose e alumínio passaram a dar lucro, sem que a empresa tivesse perdido de vista segmentos estratégicos como minério de ferro e logística. Dauster, no entanto, faz coro com todos que criticam a lentidão no processo de descruzamento de participações entre a Vale e a Companhia Siderúrgica Nacional, sob o comando do empresário Benjamin Steinbruch. ?Esta é uma posição unânime. Todos gostariam que a questão fosse resolvida muito mais rápido. Ela envolve interesses muito complexos e cabe aos sócios tocar o processo?, avalia.