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Agora é Angra II

Quarta-feira, 3 de maio, 9 horas de manhã. O sinal sonoro tocou e uma tecla opaca branca tornou-se imediatamente amarela brilhante no painel de comando ? uma parede recheada de botões coloridos instalada na sala de controle da Usina Nuclear de Angra II. Ali está o cérebro de toda a unidade. Parece uma nave espacial. Além das paredes, os botões e luzes de cores diversas estão sobre mesas retangulares, que abrigam também dezenas de monitores de vídeo. Essa parafernália sabe tudo sobre a usina e diz aos técnicos, numa linguagem impenetrável aos mortais comuns, o que fazer para manter a engrenagem em perfeitas condições. O aviso luminoso e o alarme do painel significavam que algo não ia bem no sistema elétrico. Uma falha, provavelmente. Vinícius Damas Baptista, supervisor do turno, ordenou aos operadores que verificassem imediatamente o que acontecia. Checagem feita, o sistema voltou ao normal. Tratava-se de mais um entre centenas de testes que os funcionários da usina estão promovendo até o início da sua operação comercial, prevista para o final deste mês.

Angra II será capaz de produzir, a plena potência, 10 milhões de megawattshora por ano. Uma montanha de energia equivalente a 35% de todo o consumo atual do Estado do Rio. Angra II tem potencial para engordar o caixa da Eletronuclear, sua empresa controladora, em R$ 470 milhões anuais. Pode ser pouco diante do que custou a obra ? US$ 10 bilhões ?, mas não foi o dinheiro a razão que levou o governo a insistir em dar vida a esse verdadeiro elefante branco. O paquiderme radioativo, 24 anos depois do início de sua construção, ganhou uma função estratégica: a energia gerada ali ajudará a evitar um colapso anunciado na região. ?Angra II vai desafogar o risco de blecautes no Rio de Janeiro?, afirma Ronaldo Fabrício, presidente da Eletronuclear. ?O Estado está na ponta das linhas de transmissão, o que o torna bastante vulnerável a qualquer falha do sistema?. Contratada durante o governo Ernesto Geisel, Angra II faz parte do pacote do acordo nuclear firmado entre o Brasil e a Alemanha, que previa a construção de oito usinas. O plano inicial não vingou e deve terminar com Angra III, com operação prevista para 2004.

A rotina em Angra II nestes últimos dias tem sido mais intensa do que o normal. ?Estamos na reta final?, diz Kleber Consenza, superintendente de Operações. O reator da usina, que já havia sido ligado em fevereiro, foi desligado há uma semana, por conta de um reparo necessário em duas bombas de refrigeração. Enquanto a turma da manutenção trabalha, o grupo liderado por Vinícius Baptista, no batente desde às 7 horas da manhã, se debruça sobre o manual de procedimento ? a bíblia de Angra II ? para, por oito horas, realizar testes e mais testes. Às 15 horas, Baptista passa a bola para a segunda equipe do dia. Esta passagem de bastão é feita numa reunião que dura trinta minutos.

Os testes continuam até a próxima troca de turno, às 23 horas. Do grupo que atua na operação, mais da metade trabalha em outras áreas da usina que não a sala de controle ? reator, bombas, sistema elétrico, turbinas. Apenas quatro ou cinco ficam efetivamente na sala de controle, observando com uma dedicação canina alarmes, computadores, monitores e fileiras de teclas dignas de uma fita de ficção científica.

?É na sala de controle que tudo começa e tudo termina?, observa Consenza. Foi lá que foi detectado, durante o fim de semana passado, que havia uma falha nas bombas, um contratempo que pode atrasar em alguns dias o início da produção de energia de Angra II. Em fevereiro, o reator foi ligado e operava com parte de sua capacidade. A previsão era ir aumentando a força até atingir 100% em abril. Mas o mau funcionamento das bombas tornou necessário o desligamento do reator. Segundo os técnicos, o conserto deve estar concluído no início da próxima semana. ?O problema nas bombas pode adiar alguns testes, por isso não posso marcar uma data exata para o início das operações efetivas?, diz Consenza. ?Só vamos começar a operar comercialmente depois de concluídos todos os testes.?