Negócios

O Triunfo da L’Oréal

Lindsay Owen-Jones, presidente do grupo francês L?Oréal, prefere não comprar aquilo que ?todos? (no caso, os endinheirados) podem ter em sua coleção sem muito esforço. Amante das artes, ele passa batido por um quadro de Renoir. ?Existem centenas à venda no mundo. Só é necessário ter uma boa conta bancária para comprar. É mais divertido adquirir uma boa tela de um artista médio que ninguém conhece?, afirma ele, que gasta seu dinheiro com os pintores escoceses pós-impressionistas. OJ, como o patrão de L?Oréal é conhecido, se desfez de sua coleção de automóveis antigos pelo mesmo motivo: agora ele só compra os antigos breaks (tipo peruas) e somente os que tiveram proprietários ilustres, como Giovanni Agnelli. No mundo dos negócios, esse inglês de 53 anos, fluente em francês, italiano e alemão e que começou vendendo xampus na Normandia (norte da França), também gosta de ?colecionar? empresas. Mas ele prefere dar um caráter bem menos excêntrico ao acervo do grupo que comanda há 12 anos e que é o número 1 mundial do setor de cosméticos, com um faturamento de US$ 10,4 bilhões. Cada uma das recentes (e inúmeras) aquisições tem como alvo um segmento de mercado bem definido. Neste ano, a L?Oréal já adquiriu a empresa argentina Miss Ylang, uma das maiores do país em artigos populares de maquiagem, e assinou, há dois meses, um acordo para adquirir a americana Carson, líder mundial em produtos étnicos. Os franceses já haviam comprado, em 1998, a americana Soft Sheen Products (especializada nesse setor de artigos étnicos), visando o mercado africano. Sem falar na compra da também americana Maybelline e da alemã Jade, em 1996, que tornaram a L?Oréal líder mundial em cosméticos populares. No ano passado, surgiram rumores que Owen-Jones, que adora praticar esportes, daria seu grande salto: a aquisição da marca alemã Nívea, do grupo Beiersdorf. A notícia foi rapidamente desmentida pelas duas companhias. ?Nunca houve um dossiê Nívea. Isso não quer dizer que exista um interesse ou uma falta de interesse por esta marca?, garante o presidente da L?Oréal à DINHEIRO. Mas funcionários do grupo francês no Brasil afirmam que reuniões com o pessoal da Nívea chegaram a ser realizadas. O negócio não teria dado certo porque os alemães queriam vender até mesmo as fábricas, enquanto os franceses só estavam interessados nos produtos da marca.

A estratégia de desenvolver as atividades do grupo internacionalmente e de ampliar o conceito de marcas mundiais, realizada por Owen-Jones, é considerada como o principal motivo da forte expansão das vendas da L?Oréal: pelo 15.º ano consecutivo, o grupo vem crescendo na casa dos dois dígitos. Uma performance invejável, já que nem mesmo as várias crises financeiras mundiais dos últimos anos tingiram de vermelho os números das vendas. ?A única maneira de se preservar contra a instabilidade nos países emergentes é não eleger tal ou tal país e sim atacar todos ao mesmo tempo, para que os riscos compensem?, afirma. No Brasil, onde a empresa não revela seus números ?por questões estratégicas?, o ataque vem, ao que tudo indica, dando bem certo. Um novo flanco foi aberto na quarta-feira, 26, no mundo virtual. A L’Oréal deu início a um serviço na Web, em parceria com a Starmedia, para fornecer informações aos clientes e vender seus produtos on line. O esforço deve compensar: o Brasil é o segundo maior mercado mundial para a venda de xampus e a L’Oréal confirma ter uma posição dominante em meio a toda essa espuma. O grupo também é líder absoluto na venda de produtos profissionais para cabelo, tais como gels, fixadores e colorações. A empresa, diz Lorrain Kressmann, diretor da L’Oréal, tem também 40% do mercado de cosméticos de luxo no Brasil.

A mesma Nívea que Owen-Jones ?gostaria? de ter comprado vem desafiando os gauleses em suas terras. Há dois anos, a companhia alemã lançou sua linha de maquiagem Nívea Beauté. ?Queríamos entrar nessa área de atuação da L?Oréal. Não temos o objetivo de liderança, mas já conseguimos 10% de participação no mercado francês?, revela à DINHEIRO René Van Duignhoven, diretor de comunicação da Nívea na França.

A forte competição em casa deve, provavelmente, servir a Owen-Jones como inspiração para disputar novos ? e pra lá de fortes ? mercados. Nos Estados Unidos, onde as vendas aumentaram 12,5% em 1999, o grupo se tornou líder em produtos de maquiagem e de coloração de cabelos. Outro indicador ilustra a presença da companhia: a cada segundo, 85 produtos da marca L?Oréal, seja Lancôme, perfumes Armani ou Ralph Loren, ou Helena Rubinstein, entre outros, são vendidos no mundo. E, como costuma dizer Owen-Jones, beleza é um tema que não acaba. E tudo indica que ele está certo.