Negócios

Staub e as contas da Gradiente

A Gradiente bem que tentou mostrar números mais atraentes para o mercado e fugir da maré vermelha que se espalhou pelos balanços das indústrias de eletroeletrônicos nos últimos anos. Mas usou um artifício que não foi aceito nem pelos auditores, nem pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Resultado: além de ser obrigada a refazer o balanço de 1999, a empresa teve prejuízos para sua imagem junto aos investidores.

A companhia lançou no balanço um ganho de R$ 275 milhões, referente à área de telecomunicações, avaliada por uma empresa independente em R$ 406 milhões. O valor deste negócio foi revisto no ano passado, em uma reestruturação que dividiu a empresa em três áreas independentes: telecomunicação, áudio e vídeo e entretenimento. A Gradiente usou o critério de valor econômico ? ou de mercado ? em vez de utilizar o valor patrimonial. O recurso, bastante utilizado pelas empresas de Internet, não tem respaldo contábil. Isto é, o ganho de capital só pode ser lançado na demonstração de resultados quando acontece a venda de uma empresa, e não para reavaliação de uma nova unidade de negócios.

A questão foi notificada pela Arthur Andersen, responsável por auditar o balanço. Mas a Gradiente decidiu entregá-lo à CVM como estava. ?Nós não publicamos o balanço?, diz Eugênio Staub, presidente da Gradiente. ?Nosso objetivo é ter um balanço que reflita o máximo possível a realidade da empresa e o valor que possa guiar o investidor.? (leia entrevista).

?A área técnica não concordou com os números e pediu para a empresa corrigi-los?, afirma Milton Ferreira D’Araújo, superintendente de relações com empresas do órgão. A partir da notificação da CVM, a companhia acatou a decisão e divulgou os resultados revistos na sexta-feira, 28.

Mas qual o interesse da Gradiente em publicar aquele balanço? Uma das razões seria que, não fazendo isso, a holding apresentaria um patrimônio líquido negativo de R$ 32,5 milhões. ?Neste caso, ela estaria tecnicamente quebrada e teria dificuldades para conseguir crédito e ter a confiança dos fornecedores?, diz Persio Nogueira, analista da Austin Asis. Isso não ocorrerá, segundo ele, porque a empresa tem condições de se reerguer, principalmente na área de telecomunicações. Para não aparecer com números negativos, a Gradiente aproveitou um recurso legal: contabilizou como lucro parte dos créditos fiscais que teria direito pelos três anos em que ficou no vermelho (1997 a 1999). Ou seja, no lugar de um prejuízo consolidado de R$ 50 milhões, a Gradiente apareceu com um lucro de R$ 24,7 milhões. Segundo Nogueira, a dívida líquida de R$ 162 milhões precisará ser alongada para que a empresa possa respirar tranqüila este ano e se dedicar à expansão dos negócios.

Perspectivas de crescimento existem, diz Nogueira, especialmente para a venda de celulares e acessórios, ramo que tende a se movimentar ainda mais com a Banda C. Já no caso das áreas de áudio e vídeo, a retomada pode demorar de dois a três anos e, para o segmento de televisores, até cinco, segundo o analista. Neste caso, as dificuldades não são exclusividade da Gradiente. A maior parte das indústrias do setor apresentou balanços tingidos de vermelho e perspectivas nada animadoras. Outras nem publicaram seus números referentes ao ano passado, como foi o caso da Sharp, que pediu concordata no dia 24 de março, arrastada por uma dívida de R$ 645 milhões. Semp-Toshiba e Itautec-Philco tiveram operações lucrativas em 1999.

Uma solução para o setor seria a união entre concorrentes como Gradiente, Sharp e CCE. O assunto surgiu no ano passado mas, até agora, não passou de conversas entre os interessados, recheadas por boatos do mercado. Staub continua sendo o maior entusiasta da idéia.