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O Vale do Silício invade Hollywood

Depois de Netflix e Amazon, é a vez da Apple produzir séries e filmes. Entenda a estratégia

O Vale do Silício invade Hollywood

Tim Cook, CEO da Apple, mostra as garras: empresa tem 20 milhões de assinantes em seu serviço de música. Agora, quer avançar em séries e filmes (foto: Montagem sobre foto)

A distância entre São Francisco, centro nervoso do Vale do Silício, e Los Angeles, onde fica Hollywood, a capital cinematográfica dos Estados Unidos, é de 617 quilômetros. Mas nunca antes essas duas cidades californianas estiveram tão próximas. Em meados de janeiro, a Apple anunciou que produzirá séries próprias e filmes, a exemplo do que já tem feito a Netflix e a Amazon. A fusão entre tecnologia e conteúdo não é recente. Há pelo menos 20 anos, jogos de videogame se transformaram em películas.

Agora, a relação será ainda mais visceral, uma vez que o conteúdo próprio pode tornar os consumidores ainda mais leais a uma marca e a seus produtos. “O negócio das empresas de tecnologia se transformará para incluir plataformas de conteúdo”, afirma Brian Blau, vice-presidente de pesquisas da consultoria americana Gartner, que acredita no surgimento de uma “Hollywood do Silício”. Não é difícil de entender por que a Apple agora está trilhando este caminho, em um momento em que as vendas do iPhone, seu principal produto, desaceleram.

A companhia da maçã quer seguir o exemplo da Netflix. Até 2013, ela era apenas uma distribuidora de filmes online. Em três anos, a companhia conseguiu se transformar na principal produtora de séries dos Estados Unidos, com 43 títulos em 2016. O número foi superior ao das emissoras de televisão, como CBS, ABC, Fox, NBC e HBO. Essa estratégia impulsionou seus resultados. No ano passado, a companhia comandada por Reed Hastings, com sede em Los Gatos, na Califórnia, conseguiu um acréscimo de 19 milhões de assinantes ao seu serviço, somando um total de 93,8 milhões de clientes. 

No período, a Netflix faturou US$ 8,8 bilhões, uma alta de 30% em relação ao ano anterior. “É a fundação da tevê do futuro”, disse Tim Cook, CEO da Apple, em outubro de 2015, quando apresentou ao mercado a Apple TV. A turma do Vale do Silício que aposta em séries conta também com a Amazon, de Jeff Bezos. Seu serviço de streaming estreou em 2007, mas há mais de três anos começou a produzir conteúdo próprio. No ano passado, foram 14 séries, como “The Grand Tour”. Em dezembro do ano passado, a Amazon o levou para mais de 200 países, inclusive o Brasil, numa clara ofensiva para encarar globalmente a Netflix, que está em 190 países.

“Essas plataformas se movem para criar, ao redor do consumidor, toda uma cadeia de serviços”, diz Marcelo Coutinho, professor da Escola de Administração de Empresas da FGV-SP. “Empresas que produzem ‘coisas’, como a Apple, caminham na direção do conteúdo.” A Apple já distribui filmes por meio do iTunes. Mas ela almeja mais. Desde 2015, a companhia produz conteúdo próprio relacionado a eventos musicais específicos, distribuídos pela Apple Music.

O serviço, que tem 20 milhões de assinantes, deverá distribuir o conteúdo que será produzido de forma independente ou em contato com estúdios de Hollywood. “A aposta da Apple é de que o futuro da tevê são os aplicativos”, diz Igor Kupstas, diretor da O2 Play, distribuidora da produtora O2 Filmes, que trabalha com streaming com parceiros como Netflix e Apple. “Os canais que não tiverem uma marca forte, conteúdo original, direitos exclusivos e uma base de tecnologia forte vão sofrer.” As cenas dos próximos capítulos dessa disputa devem ser empolgantes.