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Uma nova safra de startups está levando inovação ao campo e reinventando o agronegócio brasileiro

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Campo virtual: (da esq. para dir., sentados na porteira) Claudio Notini, da 4Milk; Marcos Fernando dos Santos, da Webgados; Roberto Kono, da Promip; e (da esq. para dir., em pé) Antonio Morelli, da Agronow; Paulo Vianna, da Strider; e Raphael Pizzi, da Agrosmart (foto: Divulgação)

Bater o bico da bota no chão para saber se é preciso irrigar o campo e outras práticas ancestrais, passadas de pai para filho, estão com os dias contados no meio rural brasileiro. O País está vivendo um florescimento de startups agrícolas, conhecidas como agtechs, que usam tecnologias avançadas para elevar a produtividade e para reduzir custos com insumos. São empresas como Agrosmart, que utiliza sensores e imagens de satélite para monitorar irrigação e crescimento das plantas, a Wegbados, um classificado online de compra e venda de animais, e a 4hoofs, que criou o aplicativo 4milk para fazer gerenciamento de fazendas de leite.

Neste rol, há também aquelas que alcançaram reconhecimento internacional, como a Bug Agentes Biológicos e Enalta, ambas incluídas no ranking das 50 empresas mais inovadoras do mundo da publicação americana Fast Company. “Existe um potencial imenso para desenvolver startups de agronegócios”, diz o professor Ângelo Costa Gurgel, coordenador do mestrado profissional em agronegócio da Fundação Getúlio Vargas, de São Paulo. A safra de agtechs está também chamando a atenção de grandes companhias, como Basf, Bayer, Monsanto e Microsoft.

Essas gigantes do mundo corporativo estão investindo em fundos de investimento ou aceleradoras de empresas com o objetivo de fomentar novas companhias de tecnologia ao redor do globo, incluindo o Brasil. “Observamos um potencial muito grande pela força da agricultura brasileira”, diz Renato Luzzardi, gerente de alianças da Bayer para a América Latina. De fato. Em 2015, o PIB recuou 3,8%, mas o agronegócio cresceu 1,8%. “É um mercado no qual o Brasil tem potencial de ser líder global”, afirma Luiz Fernando Sá, sócio e diretor editorial da StartAgro, uma plataforma de informação para integrar vários atores do empreendedorismo na área de agtechs.

“Temos potencial de negócios e de mão de obra. Só precisamos de uma organização desse ecossistema.” São Paulo é o principal polo das startups agrícolas, pela existência de grandes centros de pesquisa e desenvolvimento em Piracicaba, Pirassununga, Sorocaba, São José dos Campos, São Carlos, Botucatu, Campinas, Ribeirão Preto e Jaboticabal. “Não há dúvida: o Estado de São Paulo é o Vale do Silício caipira”, afirma Francisco Jardim, fundador do fundo SP Ventures, que se especializou no investimento em agtechs. Dos R$ 105 milhões do fundo, aberto em 2013, 60% foi direcionado às startup rurais. Em cinco anos, serão 100%.

Os investimentos, no entanto, não estão restritos às empresas paulistas. “A região do Centro-Oeste, mais o Estado de Tocantins e Minas Gerais, cresce mais que o restante do Brasil”, afirma Renato Ramalho, sócio responsável pelos fundos de tecnologia da A5 Capital Partners, que também estuda trazer agetchs dos Estados Unidos, Israel e Espanha para o Brasil. Não há dados sobre o quanto já foi aportado por fundos de capital de risco nessas startups agrícolas. A Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital, no entanto, estima que dos R$ 76,1 bilhões investidos nos últimos cinco anos no País, R$ 2,1 bilhões tiveram como destino empresas de agronegócios.

Grande parte dos empreendedores das agtechs nasceu em famílias de produtores rurais. O pai de Mariana Vasconcelos, CEO da Agrosmart, é um pequeno produtor de milho em Pedralva (MG). “Vimos a oportunidade de usar a tecnologia para resolver um problema dentro de casa”, diz Mariana, que fundou a empresa ao lado de Raphael Pizzi. Até 2017, os serviços de monitoramento de produção prestados pela Agrosmart, com sede em Campinas, devem chegar a 400 mil hectares. Murilo Betarello, CEO do IZagro, um aplicativo que reúne informações de todos os produtos agroquímicos usados para controlar as principais pragas das lavouras, também é produtor rural desde os 13 anos.

Em Franca, sua família começou com pecuária e acrescentou aos negócios a cana-de-açúcar. O aplicativo da IZagro conta com 11 mil downloads, é gratuito e busca parcerias com empresas de biotecnologia para ganhar dinheiro. Outros empreendedores são herdeiros de grandes empresas do agronegócio brasileiro. É o caso de Marcos Fernando Marçal dos Santos, CEO do Webgados, filho de Marcos Molina, controlador do frigorífico Marfrig. “Cheguei a comandar uma fazenda da família”, diz Santos. “Encontrava alguns problemas na hora de negociar e vi esse mercado de aplicativos crescendo muito.”

Foi daí que surgiu a ideia de criar um classificado online para a venda e compra de animais da pecuária. O número de downloads do aplicativo, que é gratuito, chegou a 7,5 mil, com ofertas em 17 Estados. A trajetória de muitas das agtechs começou dentro de uma instituição de ensino. A Hidrointel, de Leonardo Quaini, nasceu na Universidade Federal de Santa Catarina, por meio de um programa da Fapesc. A empresa receberá R$ 60 mil para desenvolver o protótipo de um hardware e um software para fazer uma irrigação de forma inteligente. “No primeiro ano teremos uma versão comercial do produto”, diz Quaini.

Quem se destaca nesse universo, no entanto, é a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo, em Piracicaba. Lá surgiram a Promip e a Bug, que produzem agentes biológicos, como microvespas, que combatem pragas na lavoura. No caso da Promip, a startup nasceu de um mestrado de um de seus fundadores, Marcelo Poletti. “O controle químico como única ferramenta tem sido, em alguns casos, ineficiente”, afirma Poletti, CEO da Promip, criada em conjunto com Roberto Konno.

A Bug, por sua vez, surgiu da união de Diogo Rodrigues Carvalho, que fazia mestrado, com Heraldo Negri, funcionário da Esalq. “Desenvolvemos um sistema de criação de agentes biológicos em grande volume a um custo compatível ao que o produtor gastava com o inseticida”, diz Carvalho, CEO da Bug. “Reduzimos entre 50% e 70% o uso de agrotóxico em culturas como soja, melão e abacate, e em 100% em cana-de-açúcar.” A Esalq serviu também como inspiração para Antonio Morelli criar a Agronow.

“Fiz um algoritmo matemático que consegue fazer previsão de safra com taxa de acerto superior a 90%”, diz o empreendedor, que usa imagens de satélite para realizar o seu trabalho. “Sem a pessoa ir a campo, posso fazer estudos de produtividade agrícola independente de onde estiver a plantação.” Entre as startups agrícolas há aquelas que já decolaram e exportam seus serviços. A mineira Strider, que monitora lavouras com uso de GPS para identificar pragas e reduzir em até 20% o consumo de defensivos, conta com 5% de seu faturamento de operações em plantações de algodão no Texas (EUA) e na lavoura de frutas e legumes na Austrália.

A Enalta, de São Carlos, é responsável por sistemas de telemetria de máquinas no campo na Colômbia, na Costa Rica e na Guatemala. E com perspectivas de entrar no México. Com seus produtos, o fazendeiro pode reduzir em até 15% o gasto com gasolina e monitorar a realização de manutenções. “O que foi inovador na nossa companhia foi combinar tecnologia já existente para resolver um problema de um setor gigante no Brasil e no mundo, que ninguém tinha dado muita atenção”, diz Gilberto Girardi, CEO da Enalta.

A AgroTools também exporta sua tecnologia de big data e geoprocessamento para os Estados Unidos e América do Sul. Cobrindo hoje no Brasil 200 milhões de hectares, a empresa, criada em 2007, já atende 15 das maiores marcas do agronegócio, como Cargill, BRF, JBS, Walmart e Carrefour. “Estamos, pela primeira vez, em busca de investimentos”, diz Fernando Martins, diretor da companhia, que em 2014 deixou a presidência da Intel no Brasil para investir nesse mercado. “É um momento correto de alavancar e crescer.”

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Bits e bois

Conheça algumas das startups brasileiras do agronegócio:

4milk
Aplicativo faz gerenciamento de fazendas de leite com controle de custos e acompanhamento genético do rebanho.

Agronow 
Utiliza sistema de mapas e índice de safras atuais e passadas, gerando uma previsão de produtividade para a colheita.

Agrosmart 
Usa imagens de satélite para monitorar mais de dez variáveis ambientais que auxiliam o produtor a tomar decisão de gestão do agronegócio.

AgroTools 
Criada em 2007 em São Paulo, passou de startup para grande empresa de geoprocessamento e big data de lavouras e pecuária.

Bovcontrol 
Aplicativo ajuda produtor de gado de corte e leite a gerenciar o manejo nutricional do rebanho, monitora acasalamento e orienta a venda.

Bug Agentes Biológicos 
Criada em 2001, produz vespas e agentes biológicos que combatem pragas na lavoura.

Enalta 
Especializada em telemetria agrícola, que monitora a operação da máquina diretamente no campo.

Hidrointel 
Startup tem o objetivo de desenvolver um sistema de automação de irrigação de forma inteligente.

IZagro
Aplicativo oferece informações de todos os produtos agroquímicos usados para controlar as principais pragas das lavouras.

Promip 
Produz vespas que são pulverizadas por máquinas e drones, para combater praga em plantações.

Webgados 
Anúncio online de compra e venda de gado de corte e leite com uso gratuito. No futuro, terá serviços pagos.

Strider 
Startup que desenvolveu um sistema que usa GPS e tablets que auxiliam na identificação de pragas e gerencia a aplicação de defensivos agrícolas.