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A Semp encontra uma saída

A mais antiga fabricante de tevês do Brasil associa-se à gigante chinesa TCL e pode entrar em novos segmentos, como ar condicionado e linha branca

A Semp encontra uma saída

Recomeço: com a união com a TCL de Haiping (à dir.), Freitas deve ampliar a área de eletroportáteis e estuda entrar em novos segmentos (foto: WERTHER SANTANA/ESTADÃO)

Aos 87 anos, o empresário Affonso Brandão Hennel, dono da fabricante brasileira de televisores Semp, teve disposição de encarar um voo de mais de 24 horas em direção à China em março deste ano. Na ocasião, seu destino era a cidade de Shenzhen, no sul do país e a quase quatro horas de Hong Kong, onde está localizado um dos muitos prédios da TCL, uma gigante na área de eletroeletrônicos, com fabricação de televisores, celulares, aparelhos de ar condicionado e máquinas de lavar. No fim do inverno chinês, Dr. Affonso, como ele é chamado por seus funcionários, encontrou-se com Li Dong Sheng, o fundador da TCL, para uma conversa que selou o destino da Semp.

Quatro meses depois de acabar com a joint venture com a japonesa Toshiba, que durou quase 40 anos, Dr. Affonso está embarcando em uma nova parceria. Dessa vez, com a TCL, conhecida como a Samsung chinesa. O encontro dos fundadores foi o pontapé inicial para o acordo, que foi concluído no fim de julho deste ano. Em agosto, a Semp TCL nascia formalmente com uma participação de 60% da Semp e 40% da TCL. O empresário brasileiro aportou R$ 120 milhões nessa nova empresa. Os chineses, R$ 80 milhões. “É como se estivéssemos voltando a 1977”, diz Ricardo Freitas, presidente da Semp TCL, referindo-se ao ano em que a Toshiba se associou aos brasileiros. “É um novo começo.”

O otimismo de Freitas é fácil de ser entendido. Nos últimos três anos, a Semp passou por uma dolorosa reestruturação que a fez reduzir substancialmente de tamanho. No seu auge, a companhia chegou a faturar mais de R$ 2 bilhões. No ano passado, a receita chegou a R$ 850 milhões. Dos 2,6 mil funcionários, restam hoje apenas 700. A linha STI foi descontinuada e a fábrica de computadores em Salvador, fechada. A produção está concentrada em Manaus, onde são fabricados televisores, notebooks e tablets. Para reduzir sua dependência de tevês, a empresa entrou no segmento de eletroportáteis, com uma linha importada de ferros de passar, fornos, batedeiras e aspiradores de pó.

Para piorar, a Toshiba, seu parceiro histórico, passou a enfrentar problemas. No ano passado, o presidente mundial da japonesa, Hisao Tanaka, foi demitido por um escândalo contábil de US$ 1,2 bilhão. E, por conta da queda de vendas de tevês, a Toshiba, assim como fez a holandesa Philips, começou a abandonar o mercado global de aparelhos. A parceria com a Semp acabou em março deste ano, o mês da viagem de Hennel à China. Segundo relatos, foi um divórcio amigável, tanto que a Semp licenciou a marca no Brasil e ainda vende televisores com a marca dos japoneses.

Com a nova parceria, a Semp espera voltar aos bons tempos. No mundo, existem quatro grupos capazes de ter escala no mercado de televisores. Os coreanos da Samsung e da LG são as duas maiores empresas do planeta nesse segmento. A TCL e a taiawanesa TPV, que fabrica as marcas Philips e AOC, são as outras duas companhias com projeção global nesse setor. A TCL, por exemplo, é a terceira maior fabricante de tevês do mundo e a quarta em painéis, tecnologia fundamental para a produção de televisores. “Sem a TCL, a Semp não teria chance de brigar com esses gigantes do mercado global de televisores”, diz Ivair Rodrigues, diretor-geral da consultoria IT Data.

A união com a TCL vai ajudar a expandir a linha de produtos da Semp. Globalmente, os chineses contam com uma ampla operação de produtos da linha branca, como aparelhos de ar condicionado, geladeiras e fogões. Embora não confirme, Freitas admite que estuda a possibilidade de entrar nesses segmentos. “A empresa acabou de nascer, estamos começando a planejar”, diz o executivo, que conta com o apoio do chinês Yue Haiping, ex-gerente geral da TCL no Brasil, e agora vice-presidente da Semp TCL. “Queríamos ter uma operação no Brasil”, diz Haiping. “A união com a Semp acelerou nossos planos.”

A razão para diversificar a linha de produtos é óbvia. O setor de tevês está em franco declínio. Além disso, não é fácil competir contra as coreanas Samsung e LG, donas de mais de 60% de participação do mercado brasileiro. Em 2014, ano da Copa do Mundo, foram vendidos 15 milhões de aparelhos no Brasil. Em 2015, esse número caiu para 9 milhões. A estimativa é de 8 milhões de televisores neste ano. A Semp já liderou as vendas no país, de 1997 a 2007. Neste período, se notabilizou por um slogan que marcou época: “Nossos japoneses são mais criativos do que os japoneses dos outros.” Agora, com um novo sócio oriental, será que os chineses da Semp TCL serão mais criativos que os chineses dos outros?