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O brasileiro que seduziu a Apple

Saiba quem é Carlos Guestrin, fundador da startup americana Turi, comprada pela empresa da maçã por US$ 200 milhões

O brasileiro que seduziu a Apple

Uma mente brilhante: o brasileiro, formado na USP, já foi escolhido um dos 10 principais pesquisadores dos EUA (foto: Montagem)

A Apple comprou a startup americana Turi por US$ 200 milhões no começo de agosto. Esse seria mais um negócio cotidiano do pulsante Vale do Silício, região dos Estados Unidos que concentra as principais companhias de tecnologia e internet, não fosse por um detalhe, ao menos para o Brasil. Um dos fundadores da Turi, cuja sede fica em Seattle, é o brasileiro Carlos Guestrin, de 41 anos. Formado pela Universidade de São Paulo (USP) em engenharia e robótica, em 1998, ele fez uma brilhante carreira como professor e empresário nos Estados Unidos. O apetite da companhia de Tim Cook pela empresa de Guestrin pode ser explicado por sua especialidade: software de “aprendizado de máquina”, um dos principais propulsores do crescimento da Inteligência Artificial, por meio do qual as máquinas aprendem sozinhas em sua interação com homens. Esses sistemas já são comuns na atualidade, desde aplicações corriqueiras como o calendário do Google e rotas de trânsito traçadas pelo aplicativo Waze. No futuro, vão determinar nossa relação não apenas com assistentes pessoais como a Siri, da Apple, mas também com carros autônomos. “A Apple está desesperada para tirar o seu atraso na área de inteligência artificial”, diz Vivek Wadhwa, consultor e professor de engenharia da Carnegie Mellon University, sobre a defasagem da empresa em relação à Microsoft, Google e Amazon.

Essa é uma área na qual Guestrin é mestre. Após se formar na USP, ele foi para Stanford realizar pós-graduação em Filosofia e Ciência da Computação, especializando-se em inteligência artificial. “É possível incorporar o aprendizado da máquina da forma que nunca imaginamos”, disse Guestrin, em entrevista ao site americano Inc., em dezembro de 2015. “Meu interesse é encontrar formas para melhorar nosso processo político”, afirmou, citando casos em que algoritmos podem checar o que há de errado nos discursos de políticos, por exemplo. “O potencial para personalizar o atendimento médico também é incrível.” Em 2004, Guestrin já era professor da Carnegie Mellon University, onde desenvolveu um sistema que realizava pesquisas em blogs políticos para apresentar qual possuía o melhor conteúdo, num projeto em parceria com alunos.

Em 2008, Guestrin trabalhou em um algoritmo para medir o nível de umidade em uma floresta no norte da Califórnia, período no qual foi listado entre os 10 mais brilhantes pesquisadores dos Estados Unidos. Esse software foi capaz de reduzir drasticamente o número de sensores necessários para que fosse possível obter dados científicos válidos para pesquisa, traduzindo em custos menores para realizar o projeto. No ano seguinte, Guestrin se associou ao também professor Seth Goldstein para se lançar no mundo das startups. A sua primeira empresa foi a Dubbed GGIdeaLab, que se tornaria o Flashgroup.com, que chegou a captar US$ 1 milhão, conectando internautas a conteúdos. A Turi foi a sua empresa de maior sucesso, tendo obtido um total de US$ 25 milhões em financiamento, realizando, inclusive, vários eventos para se discutir os caminhos do aprendizado de máquina. A companhia mudou de nome duas vezes. Foi lançada em 2013 batizada com o nome GraphLab, hoje o nome do seu principal produto. Pouco tempo depois, mudou para Dato até se chamar definitivamente, em julho deste ano, Turi, uma homenagem a Alan Turing, matemático britânico considerado um dos pais da computação.

As soluções da Turi são usadas nas mais diversas áreas e poderão ajudar a Apple a aprimorar a Siri, uma assistente pessoal com recursos de inteligência artificial que ainda tem diversas limitações. Para Norberto Tomasini, líder de tecnologias emergentes da consultoria PricewaterhouseCoopers (PwC), a Apple quer ir além do Siri. “No futuro, vai existir tanta tecnologia embarcada que as máquinas vão tomar decisões por você”, afirma Tomasini. “E os serviços vão mudar.” O consultor americano Rob Enderle, do Enderle Group, afirma que a aquisição da Turi ajudará a Apple a entrar definitivamente no segmento de carros autônomos. “Aprendizado de máquina é o que define as iniciativas de carros sem motorista”, diz Enderle. “E a Apple busca diversificação na área automotiva, porque o mercado de eletrônicos está ficando muito saturado e eles querem reduzir a dependência do iPhone.”