Tecnologia

Depósito de confiança

Saiba como a japonesa Oki está resgatando as raízes da Itautec, três anos depois de assumir o controle da empresa brasileira, um dos ícones do mercado local de tecnologia

Depósito de confiança

Sotaque local: o brasileiro Wilton Ruas assumiu como CEO da Oki no País em abril deste ano (foto: Claudio Gatti e prensa tres)

Em maio de 2013, o mercado foi pego de surpresa com o anúncio da joint venture entre a Itautec e o grupo japonês Oki Electric. O acordo pôs um ponto final na trajetória da última sobrevivente entre as empresas nacionais de tecnologia que construíram seu nome na década de 1980, quando vigorou no País a lei da reserva de mercado de informática. Na esteira da transação, a fabricante brasileira deixou de produzir computadores, braço que representava 45,3% da sua receita de R$ 1,54 bilhão, mas que vinha sofrendo diante da concorrência com as multinacionais. Com 70% de participação, a companhia da terra do sol nascente assumiu o controle e concentrou a atuação nos segmentos responsáveis pelo restante do  faturamento da Itautec, que incluíam a fabricação de caixas eletrônicos, além de softwares e serviços de automação bancária e comercial.

O acordo foi concluído em janeiro de 2014, com a nomeação de Yoshiyuki Nakano como CEO da nova empresa, rebatizada de Oki Brasil. Porém, passados pouco mais de dois anos, não é exagero afirmar que a matriz japonesa está depositando um voto de confiança numa espécie de volta às raízes da Itautec. E esse crédito está personificado na figura de Wilton Ruas, que assumiu o comando da operação em abril deste ano. Até então, ele ocupava o cargo de diretor-geral da companhia. O executivo de 52 anos iniciou sua carreira como estagiário na Itautec, em 1986, quando cursava engenharia eletrônica no Instituto Tecnológico de Aeronáutica. Em três décadas, teve passagens por todas as áreas da fabricante. “Fui preparado para assumir essa posição”, diz.

Esse roteiro foi cumprido quando a Oki Electric entendeu que era preciso alguém com um conhecimento profundo do mercado local para tocar os negócios no Brasil. “O que muda agora é a tradução desse cenário para a matriz, sem intermediários”, afirma Ruas, que está dividindo as novas atribuições com duas aulas semanais de japonês. “A mudança no comando é extremamente positiva. O Wilton entende muito desse mercado, especialmente de automação bancária, que sempre foi a área lucrativa da Itautec”, diz Ivair Rodrigues, sócio da consultoria IT Data. Para outro especialista, mais que benéfica, a troca era realmente necessária. “Os executivos japoneses tiveram dificuldade para compreender a complexidade do mercado brasileiro.” Ruas nega qualquer problema e observa que a transição já era prevista. “O único fator que atrapalhou os nossos planos foi a crise”, diz. A Oki Brasil fechou 2015 com uma receita de R$ 507 milhões, 20% abaixo da meta traçada.  Em 2012, no último balanço da Itautec antes da joint venture, as três áreas incluídas no acordo tiveram um faturamento de R$ 842 milhões. Um dos reflexos foi a redução dos quatro mil funcionários, do início de 2014, para os atuais três mil.

Outra medida recente remete ao modelo adotado anteriormente pela Itautec. Para dar mais foco à operação, em abril, a Oki Brasil anunciou uma divisão em três unidades de negócios: automação bancária, automação comercial e serviços. Todas elas passaram a ter sua própria estrutura em frentes como pesquisa e desenvolvimento, produto e vendas. Atualmente, cada uma das três frentes responde por um terço da receita da empresa.

A partir dessa reestruturação, a ideia é ganhar escala em inovações nas quais a Oki é uma das pioneiras no mercado global. A principal delas é o ATM reciclador, que permite reaproveitar as cédulas depositadas para novos saques. O equipamento traz uma redução de custos para os bancos, especialmente no transporte de valores, de cerca de 40%, além de comportar outras funções, como a identificação de notas falsas. Segundo Ruas, a categoria possui pouco mais de mil unidades em uso no Brasil, o que inclui máquinas de rivais como a americana Diebold. Mas ele enxerga um grande potencial na substituição gradual dos 178 mil caixas eletrônicos do País. “Já estamos passando da fase das provas de conceito”, diz. No fim de 2015, por exemplo, a empresa venceu uma licitação do Banco do Brasil para a entrega de 300 equipamentos.

O executivo aponta outros benefícios do acordo com a Oki. O ex-CEO Nakano comandou uma série de investimentos para modernizar a fábrica instalada em Jundiaí e adaptá-la ao padrão de eficiência japonês. Um dos focos foi o aporte de R$ 5 milhões para internalizar parte da produção de componentes que possuem poucos ou nenhum fornecedor no País. “Tivemos um ganho de produtividade de 20%”, afirma Ruas. Ele destaca ainda o fato de a matriz ter apostado em uma transição sem grandes rupturas e na valorização de diversos executivos que fizeram carreira na Itautec. “Para toda equipe da antiga operação, essa é uma grande referência”, diz. “Hoje, somos uma empresa única, com um só pensamento e que fala a mesma língua.”