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A máquina vence o homem (de novo)

Um computador desenvolvido pelo Google ganhou do campeão mundial de Go, um jogo mais complexo que o xadrez, e mostra os avanços da inteligência artificial, que deve invadir o mundo dos negócios

A máquina vence o homem (de novo)

Duelo de 3 mil anos:Lee Sedol (sentado à dir.), campeão mundial de Go, milenar  jogo chinês, perde em disputa com um o sistema criado pelo Google (foto: Fotos: JUNG YEON-JE / AFP)

Um supercomputador desenvolvido pelo Google fez história na quarta-feira 9, em Seul, capital da Coreia do Sul. O AlphaGo venceu a primeira de cinco partidas contra o sul-coreano Lee Sedol, campeão mundial de Go, um jogo milenar chinês considerado mais complexo do que o xadrez. No dia seguinte, o homem perdeu mais uma vez para a máquina, deixando especialistas atônitos. “Essa vitória é interessante porque a inteligência artificial não ia bem nesse jogo, que tem elementos de estratégia que levam em consideração aspectos psicológicos, que os computadores tinham dificuldade em trabalhar”, diz Ricardo Ribeiro Gudwin, professor do Departamento de Engenharia de Computação e Automação Industrial da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC), da Unicamp. “Ocorreu agora uma inversão.”

A façanha de AlphaGo leva a inteligência artificial para outro nível. Desde que o campeão mundial de xadrez, o russo Garry Kasparavov, enfrentou o computador Deep Blue, da IBM, em 1996 e 1997, o imaginário popular espera o dia em que as máquinas serão mais inteligentes do que o homem (confira no quadro abaixo cinco disputas entre o homem versus a máquina). Com os avanços tecnológicos das últimas duas décadas, os computadores estão ficando cada vez mais sofisticados, aproximando-se da complexidade do cérebro humano. Mais do que um lance de marketing, essas disputas são uma estratégia para colocar em evidência as aplicações comerciais da inteligência artificial, que vão desde a área de saúde e financeira, passando até mesmo pela culinária e música. “A ideia é que esses sistemas, a partir de profunda interpretação de dados não estruturados, consigam ampliar nossa capacidade cognitiva, ajudando a construir melhores cidades e aperfeiçoando médicos, cientistas, professores e profissionais em geral”, diz Fabio Scopeta, líder da área de computação cognitiva da IBM no Brasil.

A inteligência artificial já movimenta muito dinheiro. Pesquisa da consultoria americana Research and Market avalia que, mundialmente, o setor saltará de US$ 420 milhões, registrados em 2014, para US$ 5 bilhões em 2020, com um crescimento anual de 54%. Hoje, cerca de 900 companhias atuam nesta área no mundo, segundo a Venture Scanner. As empresas de tecnologia estão também dedicando cada vez mais investimentos ao segmento. De acordo com estimativas da CB Insights, os aportes em startups desse setor cresceram 588% em cinco anos, atingindo US$ 310 milhões em 2015. Metade dos aplicativos desenvolvidos até 2018 terão conceitos de inteligência artificial, na visão da consultoria americana IDC. 

A IBM lidera essa área no Brasil e no mundo. O seu supercomputador Watson, por exemplo, já é usado pelo Bradesco, no atendimento ao cliente na área de call center. A big blue, como ela é também conhecida, conta com outros clientes no País, mas não pode revelar seus nomes. A saúde é a área em que o Watson ficou mais conhecido por conta do Watson Oncology, sistema que auxilia médicos na escolha do tipo de tratamento de câncer de acordo com o perfil do paciente e seguindo o protocolo do Memorial Sloan Kettering Center Cancer, dos EUA. “A IBM atua firme nesses sistemas, tentando divulgar o Watson como uma panaceia”, diz Gudwin, da Unicamp.

Além do campo da saúde e do setor bancário, o mercado de capitais brasileiro se prepara para lidar com a inteligência artificial. O superintendente geral da Associação Brasileira das Entidades do Mercado Financeiro e de Capitais (Anbima), José Carlos Doherty, explica que já está na casa dos bilhões de dólares o volume negociado em fundos de investimento nos Estados Unidos cujos gestores não são pessoas, mas algoritmos, os “robot advisers”. Corretoras nos EUA já utilizam também o chamado High-Frequency Trading (HFT), um sistema que compra e vende ações em um milionésimo de segundo. O Brasil, avalia Doherty, está no jardim da infância, com corretoras oferecendo a seus clientes plataformas inteligentes de aplicação em papéis, coisas que avalia serem simples. Mas está próximo o dia em que o gestor de um fundo vai perder o emprego para uma máquina.