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A nova tormenta da Gradiente

Tentativa do empresário Eugênio Staub de reerguer a marca gera novas perdas, provoca prejuízos a fundos de pensão e leva antigos credores à Justiça. Sem estoque, empresa busca nova saída para gerar receitas

A nova tormenta da Gradiente

Eugênio Staub, fundador da Gradiente: o novo portfólio de produtos foi mal escolhido, resultando num fracasso de vendas (foto: Carlos Barretta/Folhapress)

Consumidores que tentarem comprar produtos da Gradiente no site da companhia não encontrarão a opção de vendas que estava disponível há poucos meses. Quem buscar o canal de atendimento telefônico, vai se deparar com uma secretária eletrônica ou se surpreender com a explicação dos atendentes para a falta de estoque: “No momento, por conta do sucesso de vendas da Gradiente, vendemos todos os aparelhos”. Seria uma história razoável para os tempos áureos de uma empresa que já figurou entre as maiores do País e chegou a faturar R$ 1,4 bilhão em 2006. Atualmente, porém, revela um quadro mais sombrio.

Aos 74 anos, Eugênio Emilio Staub, dono do negócio, dedica a maior parte do seu tempo a uma batalha para garantir que a trajetória da marca se sustente também no presente e não se atenha apenas às antigas cartadas que colocaram a companhia no rol dos principais nomes da indústria. Nos próximos meses, Staub precisará de um fôlego extra para tocar uma nova virada no negócio, em busca de receitas que ajudem a reverter prejuízos acumulados na tentativa de reinserir os produtos Gradiente no mercado brasileiro.

O desafio está longe de ser uma novidade para Staub. Depois de quase ir à bancarrota, em 2007, o empresário conseguiu renegociar novos termos com os credores, criar uma nova empresa para retornar à ativa e levantar recursos no mercado. Em 2012, a marca foi relançada com a ajuda dos maiores fundos de pensão, em uma nova operação, a Companhia Brasileira de Tecnologia Digital (CBTD), mas as vendas de tablets e DVDs deixaram a desejar e o risco de falência agora volta a rondar o grupo.

Na época, a solução para a retomada foi criar uma empresa independente, que estivesse livre do passivo antigo e com espaço para se capitalizar. A CBTD recebeu um aporte de R$ 68,5 milhões de quatro investidores: os fundos de pensão da Petrobras (Petros), da Caixa (Funcef), a Agência de Fomento do Amazonas (Afeam) e a fabricante de componentes Jabil, fornecedora e credora da antiga empresa. Cada um contribuiu com pouco mais de R$ 17 milhões, através do Fundo de Investimento em Participações (FIP) Enseada.

A aposta focava produtos como tablets, smartphones, monitores, acessórios de áudio (fones de ouvido e amplificadores) e aparelhos de DVDs. A nova empresa relançou a linha “Meu primeiro Gradiente”, voltada para crianças, com uma réplica do gravador antigo, câmera digital e tablets coloridos. A maior parte dos dispositivos passou a ser importada. Mas havia a intenção de reativar a produção em Manaus. Num pedido de incentivos fiscais feito à Zona Franca, em 2011, a CBTD chegou a apresentar um projeto para montar, na antiga fábrica da Gradiente, amplificadores de áudio e monitores de computador, com componentes importados.

A previsão era vender, em três anos, 830 mil unidades e faturar R$ 537,3 milhões. Nas propostas apresentadas aos investidores, as estimativas, segundo apurou DINHEIRO, seria alcançar uma receita de pouco mais de R$ 600 milhões nos últimos anos de investimento. As ideias tomaram corpo, de fato, em 2012, quando o executivo Fabio Vianna, contratado como presidente da nova empresa, anunciou oficialmente o retorno da Gradiente. A distribuição passou a ser feita por canais digitais (e-commerces e no próprio site da marca).

A CBTD contava principalmente com o peso da antiga marca no imaginário dos brasileiros, um nome que chegou a ser avaliado em US$ 223 milhões por consultorias de imagem. A renovação de portfólio trouxe uma frente adicional de esperança para a reestruturação. Com o lançamento do modelo iPhone, a Gradiente iniciou uma batalha judicial com a Apple pelos direitos do nome no Brasil. A fabricante nacional protocolara no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi), no início dos anos 2000, o registro da sigla usada para abreviar o modelo Internet Phone e teve a propriedade reconhecida em 2008.

A batalha poderia render uma indenização ou um acordo milionário de cessão de direitos, semelhante aos fechados pela Apple ao redor do mundo. Até agora, porém, a marca brasileira acumula duas derrotas na justiça. A próxima tentativa é um recurso ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). O retorno foi marcado por entusiasmo, com ampla cobertura de mídia e campanhas publicitárias que tentavam explorar a força da marca. Mas, desde o início, consultores levantavam dúvidas sobre a aposta, porque sabiam que o ambiente era bem diferente do qual a empresa havia prosperado no passado.

“Para brigar com coreanos e chineses tem de ter muito dinheiro envolvido e propaganda em massa”, afirma um consultor, que prefere não se identificar. “O Eugênio Staub é um executivo do passado, acreditava em coisas que não existem mais.” Entre os principais erros, consultores citam a escolha por categorias dominadas por gigantes de prestígio, em decadência, produtos com baixa tecnologia e uma confiança demasiada no poder do nome. As dificuldades não demoraram a aparecer: baixo volume de vendas, prejuízos e novas dívidas.

O desempenho passou a ser questionado pelos fundos de pensão. “De maneira divergente ao plano de negócios originalmente estruturado, a companhia começou a registrar resultados abaixo do esperado”, afirma a Petros, em nota. Todo plano foi calcado no sucesso da CBTD e na expectativa de recuperação de créditos fiscais acumulados contra a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), estimados em pouco mais de R$ 300 milhões. O êxito do plano era crucial para resolver os problemas acumulados pela antiga Gradiente, que passou por uma situação de aperto aguda em meados dos anos 2000, com as derrapadas em apostas em novas categorias.

A compra da fabricante de TVs Philco, em 2005, marcou o ápice da derrocada e levou a empresa, que chegou a faturar mais de R$ 1 bilhão, a um prejuízo de R$ 224 milhões em 2007. A solução para resolver as dívidas de R$ 400 milhões foi uma recuperação extrajudicial, em 2010, que deu origem à CBTD. Na ausência de resultados com a nova operação, faltaram recursos para honrar as parcelas do acordo. Em 2013, a antiga Gradiente requisitou aos credores uma carência de um ano para quitar as primeiras parcelas.

O pedido, porém, não foi aceito e o juiz considerou extinto o plano de recuperação. Nos meses seguintes, alertas das dificuldades começaram a aparecer nos documentos de resultados ligados ao negócio. Em relatório apresentado ao FIP no terceiro trimestre de 2014, os auditores independentes destacaram prejuízos recorrentes na CBTD, chamaram a atenção para o patrimônio líquido negativo, o fluxo de caixa operacional negativo e indicaram a “existência de incerteza significativa que pode levantar dúvidas quanto à capacidade de continuidade operacional da companhia.”

Nas notas explicativas de 2014, a antiga Gradiente admitiu não ter conseguido “alavancar as operações da CBTD conforme o planejado” e afirmou que a companhia não estava auferindo receitas. Sem perspectivas e com o temor de contágios dos antigos passivos, os fundos de pensão decidiram, então, deixar o negócio mesmo com prejuízo. A cota da Funcef, por exemplo, que foi repassada pelo valor simbólico de R$ 1. Em resposta a um questionamento formal de entidades de trabalhadores da Caixa, a Funcef atribuiu a saída do investimento a problemas de governança, dificuldades em obter informações e a demissão do diretor-presidente sem conhecimento e sem consentimento do fundo.

Procurado, Vianna não quis comentar. Segundo a entidade, o ritmo lento de vendas tornou o estoque obsoleto e obrigou a companhia a vender os produtos abaixo do custo de produção.  “O risco de contágio patrimonial, bem como a falta de perspectivas de recuperação da CBTD, podendo inclusive representar a necessidade de aportes adicionais, em 21.10.2014, foi aprovado o desinvestimento do FIP Enseada, por R$ 1, sendo esta a opção mais prudente e viável.” DINHEIRO apurou que o rombo na nova empresa pode chegar a R$ 200 milhões.
 
INVESTIGAÇÃO Pelos prejuízos gerados à Petros e à Funcef, a Gradiente passou a ser alvo recorrente da CPI dos Fundos de Pensão, criada em agosto de 2015 para investigar fraudes nos investimentos e eventuais relações com partidos políticos. Os fundos das duas estatais registram perdas bilionárias desde 2013. Em depoimento na comissão, o atual presidente da Funcef, Carlos Alberto Caser, afirmou que o investimento na Gradiente ficou mais de um ano em análise e passou pelo crivo de mais de três pareceres.

Descartou ainda ter havido “má-fé, corrupção e vontade de desviar dinheiro para quem quer que seja”. Em resposta aos questionamentos dos deputados, o ex-presidente do fundo, Guilherme Narciso de Lacerda, considerou o investimento como de médio risco e disse ter discutido o caso com o BNDES, que também buscava uma solução para a companhia. “Naquela época, tinha uma marca de recall, uma marca muito forte, todos vocês conhecem a Gradiente”, afirmou no depoimento à CPI.

Procurada, a Funcef informou, por meio da assessoria de imprensa, que a aplicação dos recursos segue diretrizes regulamentares e são feitas a partir de análises técnicas que indicam quando são adequadas, na perspectiva de obtenção de retornos esperados. A investigação é só mais uma das dores de cabeça enfrentadas por Staub nos anos recentes. A companhia também se desdobra para conseguir cobrar com mais celeridade os créditos tributários da Suframa. Até agora, foram reconhecidos como certos pela justiça R$ 132,7 milhões do total dos direitos estimados.

Ainda assim, como alertam os auditores, não é possível saber quando e como será possível liquidar os precatórios, um processo que pode levar anos. Mesmo contando com esse valor nos ativos, a companhia ainda tem um passivo de R$ 683,6 milhões. Na esfera judicial, um recurso da Gradiente tenta reverter a decisão que extinguiu o plano de recuperação. Mas o impasse abriu uma janela para os credores tentarem executar os débitos antigos. A lista dos processos é liderada pelo Bradesco, com um saldo em aberto de R$ 228 milhões, seguida por Banco do Brasil (R$ 58,2 milhões).

No parecer do terceiro trimestre de 2015, os auditores independentes afirmam que a continuidade das operações depende dos acordos que a companhia alega estar celebrando com os credores. No documento, também há uma mensagem que atesta a situação do grupo: “em virtude da não alavancagem das operações da CBTD, a companhia está buscando outras formas de aproveitar o seu mais importante ativo, que é marca Gradiente.” A antiga Gradiente ainda tem capital aberto na bolsa e conta com pouco mais de 2.000 acionistas.

Uma assembleia marcada para terça-feira 2 vai tratar de temas como a evolução da CBTD, além dos planos para a marca. Para ter chance de sucesso, analistas sugerem uma mudança de conceito. “Empresas que se relançaram e tiveram êxito entregaram uma proposta de valor do momento atual”, diz Eduardo Tomiya, diretor da KantarVermeer, de avaliação de marcas. “O saudosismo não é ruim, mas não pode ser a base do projeto. Tem de criar uma proposta de valor inovadora e ter produtos e serviços alinhados a esse valor.”

Currículo não falta a Staub. Formado em uma das primeiras turmas de administração da FGV, o executivo começou a trabalhar aos 14 anos na importadora de componentes eletrônicos do pai Émile Staub. Ajudou a comprar a Gradiente no início da década de 1970 e a alçar a empresa ao posto de referência em áudio no País. Nas décadas de 1980 e 1990, os produtos da marca, como o toca-discos e o gravador de fita K7, eram considerados de primeira linha e alcançavam grande parte dos lares. O avanço da companhia incluiu parcerias com grandes marcas internacionais, como a Nintendo e a Nokia.

Esta última proporcionou um dos principais trunfos da carreira de Staub, ao comprar a participação na joint-venture que fabricava celulares em Manaus, por US$ 415 milhões, em 2000. O industrial teve papéis de destaque como articulador político. Ajudou a fundar e presidiu o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) e integrou, por quatro anos, o Conselhão, criado pelo presidente Lula em 2004, E retomado pela presidente Dilma Rousseff na quinta-feira 28 (leia reportagem aqui).

Procurado, Staub não aceitou dar entrevista. “No momento em que o País está estagnado, pela crise que o assola, a Gradiente não poderia estar em posição diferente”, respondeu, por e-mail. O empresário, aliás, foi um dos primeiros a apoiar Lula na campanha vitoriosa para Presidência de 2002. Em seu segundo mandato, o petista retribuiu o suporte prometendo fazer o que estivesse ao seu alcance para salvar a Gradiente e convocando o BNDES para tentar ajudar. Os empréstimos do banco estatal, porém, nunca saíram do papel.