Tecnologia

Larry Ellison volta ao jogo

Mesmo afastado do cargo de CEO, o bilionário e excêntrico dono da Oracle ainda dá as cartas na empresa e prepara a gigante do software corporativo para a era da computação em nuvem

Larry Ellison volta ao jogo

Livre, leve e solto: Fora do dia-a-dia da operação, o fundador da Oracle terá mais tempo  para    gastar com os hobbies  extravagantes   que fizeram parte de sua fama na indústria (foto: Divulgação)

Um dos ícones da velha guarda do Vale do Silício, Larry Ellison, 71 anos, está em ótima forma. Há duas semanas, o carismático e sempre polêmico fundador da Oracle voltou a exercitar sua língua afiada. Na abertura do principal evento anual da companhia americana de software, ele destilou seu veneno contra a conterrânea IBM e a alemã SAP. “Elas são a maior companhia na história da tecnologia e a maior empresa de aplicações do mundo”, afirmou. “Mas não prestamos mais atenção neles. Nós nunca os vimos na nuvem.”

No palco do Moscone Center, em São Francisco, Ellison deu aos presentes um aperitivo do estilo inconfundível e impetuoso que conduziu a Oracle ao posto de uma das principais empresas de software do mundo, com valor de mercado de US$ 172 bilhões. A Oracle é a maior companhia de software que você jamais ouvir falar. Se você faz transações com governo, realiza negócios pela internet, gasta com cartão de crédito e tem um smartphone, provavelmente já usou um software da empresa, embora nem saiba disso.

Desde sua fundação, em 1977, ela fez fama e fortuna com software para banco de dados e aplicativos voltados para empresas. Mas agora, Ellisson está em uma cruzada para reforçar a posição da Oracle rumo à computação em nuvem. Por muitos anos, o tema foi alvo de declarações controversas do empresário. Mais recentemente, no entanto, a companhia não vem medindo esforços para competir com empresas que nasceram nesse mundo, como Amazon, Salesforce.com e Workday. Mas em meio a essa reinvenção, uma questão ganha fôlego: Ellison estará à frente dessa nova jornada?

Há cerca de um ano, Ellison deixou o cargo de CEO da Oracle para ser presidente do conselho e diretor de tecnologia da companhia. O bastão foi passado para os co-CEOs Mark Hurd e Safra Catz. Fora do dia-a-dia da operação, o empresário passou a se dedicar aos hobbies extravagantes e excêntricos que alimentaram sua fama de “bon vivant” em quase quatro décadas na indústria. Dono de uma conta bancária estimada em US$ 48 bilhões, o empresário destoa do perfil tradicional de bilionários e nunca fez questão de esconder suas conquistas.

Ao contrário. Ele sempre soube usufruir de um patrimônio que inclui mansões, jatos, iates, carros esportivos e até uma ilha no Havaí, avaliada em US$ 600 milhões. Além dos ternos Armani, a paixão pelos esportes é outra marca de Ellison. Fã de tênis, ele comprou, em 2010, o BNP Paribas Open, um dos principais torneios do circuito profissional.  Amante do iatismo, Ellison também não hesitou em financiar a equipe BMW Oracle, que compete na America’s Cup, o campeonato mais famoso da categoria. O hobby é levado tão a sério que, há dois anos, ele deixou para trás sua apresentação no evento anual da Oracle para acompanhar a regata final da competição na Baía de São Francisco, na qual o time saiu vencedor.

“Eu sou viciado em vencer”, disse ele, em uma entrevista. Por isso, está de volta ao jogo. O papel do empresário no futuro da Oracle divide opiniões.“Ellison segue sendo o rosto e a voz da Oracle”, diz Rob Enderle, analista da consultoria americana de tecnologia Enderle. “Mas a empresa existe para financiar seus hobbies. E ele tem muitos passatempos caros.” Para Chris Wilder, analista da consultoria americana de tecnologia Moor Insights & Strategy, Ellison permanecerá como o “rei” da companhia. “Ele faz parte de um pequeno grupo de visionários que mudaram essa indústria”, afirma Wilder. “E deixará suas impressões digitais no futuro da Oracle.”

Se o envolvimento de Ellison ainda é incerto, o fato é que ele desenhou a rota da Oracle para a nuvem. Há sete anos, o empresário entendeu que era preciso preparar todos os sistemas da empresa para o modelo, que ainda engatinhava. Nesse intervalo, a companhia reescreveu 70 milhões de linhas de códigos. As aquisições foram outra vertente. Desde 2012, a empresa comprou 15 desenvolvedores de serviços de nuvem. A Oracle também investiu na contratação de especialistas nessa corrente. Com passagem pela SAP, Shawn Price foi o escolhido para comandar as estratégias de nuvem da Oracle.

O executivo também cultiva um hobby diferente. É piloto de automobilismo e já conquistou prêmios como as 24 Horas de Daytona. “Larry ainda é uma grande força na Oracle”, disse ele à DINHEIRO. Price mostra estar alinhado com o discurso do patrão. “Temos rivais em nichos, mas não há nenhum competidor quando se trata de uma solução integrada de aplicativos, plataformas e infraestrutura na nuvem.” O Brasil é um dos focos na nova fase. Desde agosto, o País sedia um dos 19 data centers que apoiam a nuvem da Oracle. O CEO da companhia no Brasil, Cyro Diehl destaca o papel de Ellison. “Costumo dizer que Larry é o Steve Jobs do mercado corporativo”, diz. “Os dois sempre foram geniais, polêmicos e visionários.”

Além da amizade, Ellison guarda outros pontos em comum com Jobs, como o fato de ter sido criado pelos pais adotivos. Segundo Diehl, Ellison permanece com voz ativa na Oracle. Toda terça-feira, por exemplo, ele conduz a conferência com os executivos da empresa na América Latina. “Ele faz muitas perguntas sobre os negócios no País”, diz. Apesar do interesse, Ellison nunca esteve no Brasil. Há alguns anos, Diehl chegou a convidá-lo para uma visita. A primeira reação do então CEO foi perguntar sobre a possibilidade de velejar até o País. A viagem não vingou. Quem sabe agora, com mais tempo livre, Ellison não decide, enfim, conhecer a costa brasileira.