Mercado Digital

Meg divide a HP para reinar

Após um ano de preparação, um ícone de setor de tecnologia separa suas operações. Entenda por que essa estratégia é uma tendência

Meg divide a HP para reinar

Vim, vi e venci: Meg Whitman, CEO da HP, propôs a divisão e vai comandar a empresa de serviços, considerada a mais lucrativa (foto: Divulgação)

De todas as empresas do Vale do Silício, berço das inovações tecnológicas e de companhias como Apple, Google e Facebook, nenhuma traduz mais o espírito empreendedor do que a HP. Criada em 1939 pelos engenheiros William Hewlett e David Packard em uma garagem de Palo Alto, na Califórnia, a empresa ganhou o mundo nas décadas seguintes e tornou-se um dos principais ícones do setor de tecnologia. Mas, a partir de 1º de novembro, essa história ganha novos capítulos. Após um ano de preparação, a companhia, sob a batuta da executiva Meg Whitman, será dividida em duas empresas listadas em bolsa.

A HP Enterprise vai oferecer equipamentos, softwares e serviços para empresas. A HP Inc., computadores pessoais e impressoras (confira quadro abaixo). “A HP tem a oportunidade de ser mais bem-sucedida como duas empresas do que como uma única companhia”, disse Meg Whitman, CEO da HP, que comandará a Enterprise. “Com mais foco, vamos ler os ventos da mudança e corrigir o curso rapidamente.” Longe de ser um exemplo isolado, a HP engrossa a lista de empresas de tecnologia que estão seguindo o caminho da separação.

Entre 2012 e 2014, houve um salto de 71,4% no número desses processos no mercado americano de tecnologia, segundo a consultoria britânica Delloite. No ano passado, ocorreram 60 divisões de empresas nos Estados Unidos, número inferior apenas a 1999 e 2000, auge da era das pontocoms, segunda a consultoria americana Spin-off Research. O Bloomberg Spin-off Index, que mede o desempenho em bolsa de companhias que fizeram a cisão dos negócios, mostra ampla valorização dos papéis de quem seguiu essa estratégia: alta de 532%, desde dezembro de 2002.

Para efeito de comparação, trata-se de um ganho de 116% sobre o índice S&P 500, com as 500 maiores empresas americanas. “Operações menores e independentes oferecem a liberdade para que as companhias voltem a assumir grandes riscos. Veremos cada vez mais a adoção desse modelo”, diz Vivek Wadhwa, membro eminente da Singularity University e da Stanford University. “Se a Microsoft, por exemplo, tivesse tomado essa decisão há uma década, não teria perdido seu domínio.” Esse é um motivo que fez os fundadores do Google, Larry Page e Sergey Brin, criarem a holding Alphabet, que será dona do próprio Google e de uma série de outros negócios da dupla.

“Na indústria de tecnologia, em que as ideias revolucionárias impulsionam as próximas áreas de grande conhecimento, você precisa se sentir um pouco desconfortável para permanecer relevante”, afirmou Page, na ocasião da criação da holding, em agosto (leia abaixo “A soma das partes”). Outro exemplo é o meio de pagamento online PayPal. Treze anos após ser comprada pelo eBay, a companhia voltou a operar como empresa independente e abriu capital na Nasdaq, em julho. Hoje, seu valor de mercado de US$ 42 bilhões supera em quase US$ 10 bilhões o de sua antiga dona.

Entre planos oficiais e rumores, a relação de empresas que vão se dividir cresce a cada dia. Sob a pressão de acionistas, ela inclui nomes como Symantec, Amazon, Qualcomm, Sony e Microsoft. Para Horace Dediu, analista da consultoria finlandesa de tecnologia Asymco, os movimentos recentes indicam uma crise de disrupção e inovação nas empresas mais tradicionais do setor. “A divisão dos negócios é o último instrumento disponível para adiar uma mudança inevitável”, diz Dediu. No caso da HP, a decisão tem raízes na dificuldade da empresa em consolidar novos mercados ante a perda de protagonismo dos computadores pessoais.

A troca constante no comando foi um dos reflexos. Meg é a quarta CEO da companhia em uma década. Antes dela, Carly Fiorina, Mark Hurd e Leo Apotheker foram demitidos. Para os analistas consultados pela DINHEIRO, a separação permitirá que cada uma das “HPs” tenha menos distrações além dos seus negócios principais. “A HP sempre quis seguir os passos da IBM e se posicionar no mercado de serviços corporativos, em que a margem é maior”, diz Michael Jude, analista da consultoria americana Frost & Sullivan. “Agora, isso será possível.”

—-

A soma das partes

Conheça as histórias de Paypal e Google:

PayPal

O PayPal voltou a operar como empresa independente e abriu capital na Nasdaq em julho, treze anos após ser comprado pelo eBay. Seu valor de mercado atingiu US$ 52 bilhões em seu IPO e encerrou o primeiro dia no pregão com as ações cotadas a US$ 40,47, alta de 5,42%. Atualmente, o valor do PayPal está na casa de US$ 42,4 bilhões. Antes do processo, o eBay estava avaliado em US$ 65 bilhões. Hoje, essa cifra está em US$ 33,5 bilhões.

Google

Em agosto, os fundadores do Google, Larry Page e Sergey Brin, criaram a holding Alphabet. A marca Google ganhou status de subsidiária e reuniu o serviço de buscas, sua galinha dos ovos de ouro, além de outros negócios tradicionais. Os projetos mais recentes e não lucrativos da empresa, por sua vez, passaram a ter estruturas próprias de gestão. A relação inclui nomes como a Nest, de casas conectadas, e o X Lab, responsável por projetos como o Google Glass.

—–

Como ficam as “duas HPs” no Brasil?

As duas novas “HPs” já emitem notas fiscais separadas desde o início de agosto no Brasil. A transição começou a ser desenhada logo após o anúncio global da cisão, em outubro de 2014. Na época, a subsidiária montou um grupo para conduzir o processo. Segundo pessoas próximas à empresa, a mudança mais complexa foi a montagem da área administrativa, contábil e financeira da HP Inc.. A HP Enterprise herdou o CNPJ e todas essas operações da antiga subsidiária, que tem 7,5 mil profissionais no Brasil.

A HP Enterprise será liderada pelo CEO Luciano Corsini, atual presidente da subsidiária, conforme antecipado pelo blog “Bastidores das Empresas”, do portal da DINHEIRO. A sede ficará em Barueri (SP), no mesmo endereço onde a HP iniciou suas operações no País, em 1967. A empresa conta ainda com outro prédio no município, além de um centro de serviços e de um data center em São Paulo. Já o escritório atual da HP na capital paulista abrigará a equipe de vendas. A HP Inc. terá como CEO Claudio Raupp, atual vice-presidente do grupo de impressão e sistemas pessoais. Seu quartel general ficará em um prédio de quatro andares, também em Barueri.

A mudança está prevista para a primeira quinzena de novembro. Instalada no Tecnopuc, em Porto Alegre, a área de pesquisa e desenvolvimento será dividida em unidades independentes, no mesmo local, que tem hoje um time de 1,1 mil pesquisadores. Na área de fabricação, o portfólio da HP Enterprise, como servidores e armazenamento , seguirá sendo produzido na fábrica da própria HP, em Campinas. A produção de PCs e impressoras da HP Inc. permanece sob responsabilidade da parceira Flextronics, em Sorocaba. Procurada, a HP não quis dar entrevistas.