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O bitcoin cai na real

Depois de um 2014 turbulento, a moeda virtual passa por uma nova fase. E os investidores brasileiros estão apostando nela

O bitcoin cai na real

Aquisição na baixa: o Mercado Bitcoin, de Rodrigo Batista, faz dez mil transações por mês de, em média, R$ 500 (foto: Rafael Hupsel)

Quando surgiu, em 2009, a moeda virtual bitcoin foi cercada de ceticismo. Afinal, por não ser lastreada por nenhum banco ou país, poderia ser o abrigo para esconder transações ilícitas do crime organizado ou de fraudadores do fisco. Nada disso, no entanto, impediu a rápida ascensão do dinheiro digital. No seu auge, um bitcoin chegou a valer inacreditáveis US$ 1.124. Mas uma série de problemas, como a quebra da maior casa de câmbio da moeda, a japonesa Mt.Gox, em fevereiro de 2014, minou a credibilidade do bitcoin.

Um ano depois, a moeda virtual cuja criação é atribuída a um misterioso hacker conhecido como Satoshi Nakamoto (uma espécie de João da Silva nipônico) está de volta aos holofotes, mas sem a exuberância irracional que marcou seus primeiros cinco anos. Um exemplo dessa nova realidade aconteceu no mês passado. A administradora americana de carteiras de bitcoin Coinbase lançou a primeira casa de câmbio regulada por autoridades do mercado financeiro dos Estados Unidos. Trata-se de um marco importante, dado o caráter descentralizado da moeda.

Fundada pelo empresário Brian Armstrong, a Coinbase também anunciou ter recebido um aporte de US$ 75 milhões, de um grupo formado pela Bolsa de Valores de Nova York (NYSE), o banco USAA, os fundos Union Square Ventures e Ribbit Capital, além dos ex-CEOs do Citigroup, Vikram Pandit, e da Thomson Reuters, Tom Glocer. Foi o maior investimento feito numa companhia do segmento até hoje. Essa nova fase chegou ao mercado brasileiro. A história do Mercado Bitcoin, maior referência entre as casas de câmbio do dinheiro digital, ilustra bem esse cenário.

No primeiro semestre de 2013, após ganhar destaque na mídia, o site passou por um apagão que o deixou fora do ar por meses. O fundador da empresa, Leandro César, era um exército de um homem só, desdobrando-se para administrar tudo. Ciente das dificuldades, o então operador de mercado de capitais Rodrigo Batista resolveu usar a boa e velha tática de comprar na baixa para fazer uma oferta a César. Em maio de 2013, ele adquiriu o Mercado Bitcoin por R$ 400 mil. “Já vinha acompanhando o setor antes e percebi que seria mais vantajoso já partir com uma marca conhecida no mercado”, afirma Batista, que diz ter faturado R$ 1,3 milhão no ano passado.

Atualmente, a empresa afirma já ter atendido a 12 mil clientes, sendo que dez mil fazem ao menos uma transação mensal de, em média, R$ 500. O bitcoin também chamou a atenção de Yuri Faber, que criou o Zaznu, startup carioca clone do Uber. Ao fechar o Zaznu, Faber rumou para os EUA, onde foi convidado pelo brasileiro Rodrigo Souza para assumir o cargo de CEO da startup BlinkTrade, em Nova York. Souza ganhou notoriedade por vender um apartamento em Santos e só aceitar bitcoins como pagamento. Sua empresa conta com um código aberto para que qualquer interessado possa abrir uma casa de câmbio de bitcoin.

Além disso, ele desenvolveu uma tecnologia para que as transferências sejam feitas em tempo real – o comum é esperar cerca de dez minutos para concluir uma operação. “Queremos criar uma rede mundial de sites para facilitar e baratear as transferências financeiras internacionais”, diz Faber. Como o bitcoin não é regulamentado e dispõe de uma tecnologia que transfere valores sem encargos, o custo para esse tipo de transação ficaria restrito às taxas administrativas dos sites. Faber compara o negócio como um sistema de franquias digitais. “A gente se associa com empreendedores locais que tenham interesse em administrar a casa de câmbio”, diz Faber.

“Eles são donos da empresa e nós cobramos uma comissão mensal.” Dessa forma, a startup ingressa na arena ocupada por marcas tradicionais do ramo de transferência de dinheiro, como a centenária Western Union. Atualmente, a BlinkTrade tem parceiros na América Latina (Chile, Venezuela e Brasil) e África (Costa do Marfim, Nigéria, entre outros). O ano começou com boas notícias para a Blinktrade, que foi selecionada para ser acelerada pela Boost VC, sediada no Vale do Silício e especializada em startups relacionadas com bitcoin. A aceleradora ficou com 6% da sociedade.