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No embalo da corredeira

A americana Kayak passou um ano observando o País e fechando parcerias. Agora, quer conquistar o mercado de turismo brasileiro

No embalo da corredeira

Canoeiro experiente: Scafuro exibe passagens por empresas como Netflix e Yahoo! em seu currículo (foto: Fotomontagem)

O rafting, esporte radical que consiste em descer uma corredeira tortuosa em um caiaque, é uma das atrações turísticas de Brotas, no interior de São Paulo. Mas, antes de se aventurar no rio Jacaré Pepira, o interessado precisa passar por um minicurso para saber o que fazer e o que não fazer em certas situações. Há um ano no Brasil, a Kayak, empresa americana que exibe o barco usado no esporte em seu logo, estava nessa fase. Ela chegou ao Brasil no início de 2013, mas só agora as operações locais começam para valer. “Temos uma dinâmica: passamos um tempo em um novo mercado em ‘operação beta’, conhecendo o cliente e fazendo parcerias”, diz Nicolas Scafuro, presidente da Kayak no Brasil.

“Agora vamos lançar o serviço oficialmente.” Scafuro, que é dono de um canudo de MBA pelo MIT, nos Estados Unidos, e exibe em seu currículo passagem por gigantes de tecnologia como Yahoo! e Netflix, foi o escolhido para chefiar a operação do metabuscador que domina o mercado americano. O Kayak reúne o conteúdo de uma série de empresas parceiras e, com essas informações, monta pacotes para seus usuários. Constam de seu portfólio 500 mil hotéis e 550 companhias aéreas espalhadas pelos quatro cantos do mundo. No Brasil, já firmou parcerias com o Submarino Viagens e a Viaja.Net.

Segundo Scafuro, a plataforma ganha dinheiro para incluir as companhias nas pesquisas e com propaganda em seu portal. “A Kayak praticamente criou esse segmento, conhecido como metasearch”, diz. “Em nosso site, o usuário consegue fechar toda a sua viagem.” O pioneirismo garantiu uma posição privilegiada no mercado americano à Kayak, que detém uma audiência maior que a de seus concorrentes somados. Quando ainda era uma empresa fechada, em 2011, começou sua internacionalização pela Europa. Lá ganhou mercado adquirindo empresas como a alemã Swoodoo e a austríaca Checkfelix.

Em novembro de 2012, fez seu IPO, levantando US$ 50 milhões, mas meses depois foi adquirida pela americana Priceline, por US$ 1,8 bilhão. Sob a direção da gigante com valor de mercado de US$ 60 bilhões, a meta de internacionalização foi intensificada. Os novos focos: países emergentes, especialmente Brasil e Rússia. “A parcela de nosso resultado que vem de fora dos EUA está crescendo. Em alguns anos representará uma parte significativa do nosso faturamento”, afirmou Scafuro. Não por acaso, o Brasil é considerado um mercado-chave para os negócios da Kayak. A empresa espera que já nos primeiros anos de operação o Brasil entre no top 5 de faturamento, entre os 31 países em que está presente.

“Temos pesquisas mostrando que 27% dos brasileiros querem viajar nos próximos seis meses”, diz o executivo. “E os brasileiros gastam bastante quando viajam. Eles são os que mais deixam dólares nos Estados Unidos, por exemplo.” Segundo Scafuro, a Kayak vai tentar educar o viajante brasileiro a fechar pacotes pela internet. “Já existe esse movimento, mas a maioria continua comprando em lojas físicas”, afirma. “Apenas 10% confiam na internet na hora dessa compra.” Mesmo com alguns competidores já consolidados no mercado brasileiro, como CVC, Hotel Urbano e Decolar, Scafuro diz que a Kayak chega para ser líder.

O plano inicial é ganhar essa posição baseando-se apenas no crescimento orgânico. A Kayak deve lançar uma campanha online de publicidade e, em um segundo momento, partir para outros meios de comunicação. No entanto, caso o esforço não seja suficiente, a empresa não descarta a possibilidade de reproduzir a tática usada na Alemanha e na Áustria e investir na aquisição de uma empresa nacional. “A Priceline tem uma postura muito inclinada para a aquisição e gosta de ganhar mercado de forma rápida”, afirma Scafuro. “Vamos ver como as coisas acontecem, mas não descartamos nenhuma possibilidade.”