Tecnologia

O paraíso dos mainframes

Todos pensavam que esses grandes computadores estavam à beira da extinção. No Brasil, eles ainda têm vida longa e são extremamente rentáveis para empresas como a IBM 

Grandes caixas do tempo “jurássico” da informática, os mainframes – computadores com alta capacidade de processamento – têm 46 anos de vida e poderiam ser peças de museu. Mas esses “dinossauros” encontraram um local onde estão longe da extinção. No Brasil, eles representam 30% do mercado de servidores, que movimentou US$ 1 bilhão, em 2009. A porcentagem se mantém há dez anos. “É a maior participação no mundo”, afirma Alexandre Vargas, analista da consultoria IDC. Em países como os EUA, a China, Alemanha e o Canadá, a proporção é entre 10% e 15%. 

 

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Paulo Perini > Chefe de mainframes IBM ”Os mainframes evoluíram muito em

termos tecnológicos e se tornaram mais baratos e econômicos”

 

E cai mais a cada ano. No mundo, estima-se que dez mil máquinas estão em uso, 85% produzidos pela IBM, que é sinônimo do “Big Iron”, apelido que ganhou pelo tamanho e pela estrutura metálica. Por isso, a IBM vem sendo investigada na Europa, acusada de monopólio.

 

São números que escondem uma realidade pouco conhecida. Apesar de não serem populares como o tocador iPod, da Apple, o software para PCs Windows, da Microsoft, ou o buscador do Google, os mainframes são muito lucrativos. A IBM vende US$ 3,4 bilhões por ano, em média, desses equipamentos, de acordo com estimativas do mercado. 

 

É menos de 4% do faturamento da companhia. Uma quantia irrisória em relação à receita total de quase US$ 100 bilhões. Mas as vendas de software e serviços associados aos mainframes respondem por 20% do faturamento e 40% do lucro operacional da IBM, segundo o analista Toni Sacconaghi, da Sanford C. Bernstein Research. 

 

A margem deste produto é de 70% contra 46% da IBM. É fácil entender, portanto, o que levou a empresa a pesquisar durante três anos, recrutar cinco mil funcionários e investir US$ 1,5 bilhão no zEnterprise, seu novo mainframe.  O modelo mais simples custa a bagatela de US$ 1 milhão. “É nosso maior lançamento em duas décadas”, diz Paulo Perini, chefe de mainframes da IBM no Brasil. 

 

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Laércio Albino Cezar, vice-presidente Bradesco - “O mainframe é a opção mais adequada

para nossa necessidade de processar grandes volumes de dados”

 

O que explica a sobrevida dessas máquinas, principalmente no Brasil? A primeira resposta é mercadológica. O Brasil viveu uma reserva de mercado para informática entre 1984 e 1991. 

 

Assim, muitas empresas apostaram nessas grandes máquinas. Afinal, um microcomputador era caro e sua disponibilidade escassa. Hoje, é difícil e caro voltar atrás. 

 

“As corporações que queriam abandonar os mainframes já o fizeram”, afirma Idival Júnior, vice-presidente da CA, empresa americana de software, que faturou US$ 4,3 bilhões. Em 2009, 65% da sua receita veio de sistemas para mainframes. 

 

O outro motivo é tecnológico. As máquinas de hoje ficaram menores, consomem menos energia e estão mais baratas. Além disso, são capazes de operar sem parar 24 horas por dia. 

 

É isso que explica por que bancos, empresas de telefonia e instituições públicas estão entre os setores que usam o “Big Iron” no Brasil e no mundo. Observe o caso do Bradesco. 

 

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O coração do banco está em um imenso centro de dados equipado com 16 mainframes que processam uma média de 215 milhões de transações diárias. Se falharem, os prejuízos podem ser gigantescos. 

 

“É a opção mais adequada para nossa necessidade de processar grandes volumes de dados”, diz Laércio Albino Cezar, vice-presidente do Bradesco, responsável por um orçamento de R$ 3 bilhões em TI.

 

A alta demanda por mainframes no País tem gerado outro problema: a falta de mão de obra especializada. Hoje, o mercado tem carência de dois mil profissionais, diz diretor da Associação Brasileira de Profissionais de Cobol, Gilberto Faes Jr. 

 

Os programadores mais experientes chegam a ganhar R$ 20 mil. Mesmo assim, o Serpro, empresa de tecnologia do governo federal, tem dificuldade para encontrar profissionais, conta Celso Xavier Filho, gerente da instituição. Aos 46 anos, o mainframe tem um novo desafio a superar.