Tecnologia

Dinheiro cai na rede


Consolidação. Não há outra palavra para definir o momento pelo qual passa o mercado brasileiro de tecnologia. Há poucas semanas, o fundo de investimentos GP incumbiu Marcos Wettreich, criador do iBest, a unir várias empresas de médio porte de internet numa só. Wettreich sondou os sites BuscaPé, Bondfaro e Dotz e, assim que a empresa for efetivamente criada, terá seu capital levado a mercado. O GP está longe de ser o único a querer aproveitar essa onda. Na quinta-feira da Paixão, as ações da empresa de software empresarial Totvs (lê-se Totus, do latim tudo, todos, totalidade) subiram 10% e seu valor de mercado superou R$ 1 bilhão, depois que a empresa anunciou a compra da RM Sistemas, de Rodrigo Mascarenhas, numa aquisição que pode superar R$ 200 milhões, dependendo dos resultados da RM em 2006. Detalhe: a aquisição aconteceu 35 dias depois da Totvs abrir capital e colocar R$ 460 milhões em caixa. ?Estamos nos tornando um grande grupo de software?, diz Laércio Cosentino, presidente da Totvs, que foi formada pela união da Microsiga e Logocenter. ?A empresa é movida a desafios e está sempre buscando oportunidades?.

A nova tendência é bastante diferente da febre por investimentos em empresas de tecnologia do início dos anos 90, segundo os especialistas. Primeiro, porque agora negocia-se o capital apenas de empresas que já se mostraram sustentáveis. Depois, porque boa parte das companhias tem buscado o mercado de capitais para se financiar, em vez de investidores privados. ?Ter capital aberto é um belo diferencial para empresas de software de gestão?, diz Cosentino. ?Para os clientes, significa longevidade?. Em outras palavras, os investimentos em tecnologia não serão jogados fora, já que dificilmente uma empresa aberta acaba de uma hora para outra. Como a Totvs, as produtoras de software Datasul e CPM entraram com pedido de abertura de capital. A Politec, da mesma área, é outra que anunciou a mesma intenção . ?É nossa melhor chance de ganhar musculatura para enfrentar os grandes grupos internacionais?, afirma Hélio Oliveira, presidente da Politec.

O interesse dos investidores não tem manifestado-se apenas nas novatas na Bovespa. A nova oferta de ações do Submarino, que abriu seu capital há um ano, captou estimados R$ 812 milhões. Caso único no mercado brasileiro, a holding de participação em empresas de tecnologia IdeiasNet abriu seu capital antes do estouro da bolha e viu suas ações virarem pó. Reestruturou o modelo de negócios e está, aos poucos, assistindo à recuperação dos papéis. ?Nosso objetivo é consolidar setores por meio de aquisições?, diz Rodin Spielmann, diretor de relações com investidores da IdeiasNet, que já conta com 18 companhias. ?Os investidores entenderam o rumo do mercado?. Apesar de as empresas brasileiras de tecnologia terem valor de mercado superior a R$ 3 bilhões, o interesse dos investidores não está apenas nas empresas abertas. Na semana passada, a integradora de sistema Dedalus comprou a Primesys TI, braço de serviços tecnológicos da Portugal Telecom no Brasil, por valor não revelado. Em março, investidores profissionais adquiriram empresas especializadas no software de gestão SAP e formaram a Braxis. Ainda não é a Nasdaq, mas esse quadro, mesmo nos áureos tempos da internet, não tinha sido visto no País.