Tecnologia

A OBSESSÃO DE ELLISON

Faz oito meses que o presidente e fundador da Oracle, Larry Ellison, azucrina o seu maior rival na área de programas de gestão corporativa, a Peoplesoft. Em junho do ano passado, ele surpreendeu o mercado ao anunciar sua intenção de incorporar a concorrente e um dos principais nomes nessa área de atuação. Desde então, foram feitas três ofertas de compra. A primeira de US$ 5,1 bilhões e a última de US$ 9,4 bilhões. Nenhuma foi suficiente para convencer os diretores da Peoplesoft.

Pelo contrário, eles ficaram enfurecidos e desconsideraram todas as propostas porque enxergam em Ellison um oportunista que tenta a toda hora e de qualquer maneira prejudicar os negócios dos outros. Craig Conway, presidente da Peoplesoft, declarou que seu rival era atroz e suas táticas ainda mais. Para alcançar seu objetivo, o presidente da Oracle utiliza todas as artimanhas. A última visa diretamente os acionistas da companhia adversária. Na terça-feira passada, todos receberam uma carta assinada por Ellison e o seu diretor-financeiro, Jeff Henley, explicando por que deveriam considerar a oferta de compra. É uma manobra conhecida no mercado de ações como compra hostil, take over no jargão dos operadores de bolsa. Até agora ninguém se pronunciou, mas caso Ellison tenha sucesso, há ainda um último obstáculo a ser driblado. Conseguir a aprovação da compra pelo Departamento de Justiça americano. Embora a decisão final da instituição é esperada para o início de março, o departamento sinalizou esta semana ser desfavorável à aquisição por considerá-la anticompetitiva. A vitória de Ellison é improvável e quem o conhece de perto sabe que ele dificilmente perderá seu ar blasè.

O presidente da Oracle é mais conhecido entre seus pares pela falta de limite dos seus atos, pela arrogância e por seus desejos megalomaníacos. Grande desafeto de Bill Gates, da Microsoft, a quem inutilmente tenta igualar em fortuna e prestígio, Ellison chegou a declarar publicamente que pagou milhões de dólares para agências de espionagem investigarem supostas ações ilegais da empresa fabricante do Windows no final da década de 90. Ele é um homem de obsessões e a Peoplesoft tornou-se uma delas.

 

Hostilidade. A saga do interesse da Oracle pela rival é certamente um caso notório dentro da indústria de tecnologia. A oferta inicial, de US$ 5,1 bilhões, foi desconsiderada de bate-pronto e teve repercussões negativas. O primeiro comunicado oficial da Oracle explicava que a empresa não venderia ativamente os produtos da rival, mas que usaria a sua base de clientes e incorporaria certas ferramentas tecnológicas em seus próprios aplicativos. Craig Conway, presidente da Peoplesoft, afirmou que a intenção de Ellison nada mais era do que atrapalhar a aquisição que estavam fazendo da J.D. Edwards, que foi concluída posteriormente. Obstinado, o presidente da Oracle aumentou a sua oferta em cerca de 20%. Para revidar, a Peoplesoft criou um curioso acordo jurídico com seus clientes de que caso fosse vendida e certas linhas de produtos fossem descontinuadas, seus usuários receberiam uma recompensa entre três a cinco vezes o valor do licenciamento dos programas. Essa nova jogada atraiu a atenção das agências reguladoras americana e européia, que começaram a estudar a proposta de compra e analisar se tinham em mãos um caso de monopólio de mercado. Nem assim Ellison desanimou. No Vale do Silício, a região nos Estados Unidos onde se concentram as mais importantes empresas de tecnologia, o fundador da Oracle tem poucos amigos e é alvo de piadas recorrentes sobre o seu temperamento volátil e seu estilo bélico de fazer negócios. Uma dessas piadas, mesmo sendo uma brincadeira, ilustra bem o que se pensa dele: a diferença entre Deus e Larry Ellison é que Deus não pensa que é Larry Ellison. Haja ego.