Tecnologia

A REVANCHE

Comportamentos passionais são raros dentro do mercado de tecnologia. No caso da fabricante de softwares para redes de computadores, a americana Novell, tal princípio está longe de ser uma regra. Há dez anos, a companhia alimenta um sentimento de vingança em relação à Microsoft, que na metade dos anos 90 quase provocou a falência da Novell. Tudo porque a versão para empresas do Windows desbancou o NetWare, o programa pioneiro em conectar computadores dentro do mundo corporativo. O NetWare era dono de 70% do mercado e com a chegada do produto de Bill Gates ficou com apenas 4%. A Novell sobreviveu aos piores dias graças às vendas de programas de segurança de dados e de identidade, alcançando em faturamento R$ 1,1 bilhão no ano passado, mas nunca recuperou o faturamento de anos anteriores. Hoje a companhia enxerga uma oportunidade para fustigar quem provocou tanto prejuízo. A aposta da Novell é abrir uma frente de batalha contra a Microsoft auxiliada pelo Linux, o sistema operacional concorrente do Windows. ?Estamos prontos para cruzar espadas
com os nossos adversários?, afirma Flávio Caraccio, diretor de marketing da Novell no Brasil.

Nessa briga, a Novell conta com o apoio de outra marca importante do setor que perdeu a hegemonia em alguns mercados em função do surgimento da Microsoft: a IBM. A empresa investiu US$ 50 milhões em ações da Novell, que graças à injeção de capital comprou a SuSE, companhia alemã de produtos em Linux que estava em franca expansão. Foi a segunda aquisição de uma empresa de Linux. Em agosto de 2003, a Ximian também foi comprada pela Novell. ?Voltamos a ser relevantes e vitais?, afirma Alan Nugent, diretor de tecnologia da Novell nos Estados Unidos. Essa relevância pode ser vista nos contratos em andamento na área de Linux, mercado em franca expansão em todo o mundo. As vendas de computadores para redes de empresa com esse sistema operacional cresceram 50% nos últimos três meses de 2003 em relação ao mesmo período de 2002.

Fundada em 1983 por seguidores da religião Mórmon, a Novell inovou ao colocar dentro das companhias o seu programa que permitia os computadores trocarem informações entre si. O banho de água fria chegou com o Windows, de quem a Novell acusou de práticas comerciais ilegais. Com o Linux, a situação transformou a vítima
em algoz. Para Francisco Pesserl, diretor da consultoria brasileira Lexcorp, a estratégia anti-Microsoft não será tão fácil de ser executada. ?Lutar contra a Microsoft é difícil e o mercado não é o mesmo de dez anos atrás?, afirma. A Novell pensa o contrário e pagará a aposta com sabor de vingança.