Tecnologia

O GRANDE NEGÓCIO DA MÚSICA

Wal-Mart, Dell, Coca-Cola, Pepsi, Amazon e Hewlett-Packard disputam uma nova corrida do ouro digital. Nos últimos meses, essas marcas do capitalismo mundial lançaram ou anunciaram sites próprios para vender músicas na internet. O movimento dá a entender que existe um negócio muito atraente por trás desse comércio virtual. Não é bem assim. A venda on-line de música rende uma receita ínfima e a maior parte vai para pagar direitos autorais. ?Não há um negócio atrativo na venda on-line de músicas?, disse à DINHEIRO Michael Goodman, analista do Yankee Group. ?O faturamento vem de outras fontes.? Nas novas regras de negócios, são os
tocadores de música que rendem dividendos.

AUDIO KEY, DA PHILIPS: Para ser usado pendurado no pescoço. Conecta-se direto ao PC. R$ 999.
O caso mais emblemático, sem dúvida, é o da Apple. A empresa lançou o tocador iPod no final de 2001 e mais de um ano depois abriu sua loja de músicas on-line iTunes. A diferença é brutal. Enquanto a loja digital gerou um lucro para a empresa de US$ 1 milhão até agora (US$ 0,04 por faixa), a comercialização de iPods no último ano fiscal gerou dividendos de US$ 345 milhões (o iPod mais simples é vendido por US$ 299 e custa US$ 50 para ser produzido). Os dois negócios, contudo, estão intimamente relacionados. O efeito da inauguração da loja virtual na venda de aparelhos foi imediato: as vendas dos tocadores pularam de 60 mil por trimestre para 310 mil unidades em três meses.

SAMSUNG NAPSTER: Toca faixas da versão paga do site Napster. Sem previsão para o Brasil. US$ 350.
O sucesso foi tão estrondoso que rapidamente a estratégia da Apple foi copiada por outros fabricantes de computadores e por lojas de aparelhos eletrônicos. ?Pensamos em montar esse serviço na internet com o forte propósito de vender mais equipamentos?, disse à DINHEIRO Randy Mott, vice-presidente de tecnologia da Dell, que lançou seu tocador portátil DJ Dell no final do ano passado. A varejista americana de produtos eletrônicos BestBuy colocou no ar um site para venda de músicas apenas para vitaminar a venda de um dos 40 tocadores de música em formato MP3 disponíveis nas lojas.

APPLE IPOD: Tem memória para armazenar até 10 mil títulos. Chega ao Brasil em abril. US$ 299.
 

No Brasil, o mercado de eletrônicos com tecnologia MP3 ainda é pequeno, mas cresce a passos largos. Philips, Samsung e marcas menos conhecidas disputam o setor e a chegada do iPod da Apple foi anunciada para abril. O lado mais fraco do modelo de venda casada está nas lojas on-line de música. A maior loja nacional é a iMúsica, que surgiu em janeiro de 2000. Desde então, o site conseguiu ampliar o número de músicas nas suas prateleiras, mas ainda carece de um bom acervo. Além disso, a empresa também sofre com a pequena população de internautas brasileiros (somos 14 milhões. Nos EUA são mais de 150 milhões). ?Só com a venda no nosso site não é possível sobreviver. Por isso, estamos crescendo por meio de parcerias com outros portais?, diz Cláudio Campos, vice-presidente do iMúsica. Seguindo a onda internacional, a companhia iniciou negociações com fabricantes de equipamentos para lançar no mercado um aparelho com a sua marca.

NIKE MP3: Voltado para esportistas. Guarda músicas gravadas em CD. R$ 999.
Entre as companhias que estão aderindo à onda há também nomes distantes do universo tecnológico, como empresas de refrigerantes e redes de varejo. No caso da Pepsi o dinheiro virá do aumento das vendas de latinhas. A companhia lança no próximo mês uma promoção em conjunto com o iTunes, da Apple, em que irá imprimir senhas nas tampinhas de refrigerantes. Com os códigos, o consumidor poderá entrar no site e copiar uma música da internet. Espera-se que a campanha gere 100 milhões de downloads gratuitos. Para não ficar de fora, a Coca-Cola anunciou o MyCokeMusic.com, que irá estrear em janeiro na Inglaterra com 250 mil títulos. As canções serão cobradas, mas a grande aposta está nas promoções que virão estampadas nas embalagens.

MOTT, DA DELL: Serviço será montado com o único objetivo de vender mais equipamentos
Mesmo com essa realidade um pouco confusa, a venda de música on-line já aparece como uma tendência irreversível. Tanto que a Wal-Mart resolveu aderir. Ninguém ainda sabe ao certo quais foram os motivos que levaram a gigante a participar da empreitada. A varejista é o maior vendedor de CDs do mundo e a notícia de que a rede abriu no final de 2003 uma loja de músicas na rede surpreendeu a todos. A razão pode estar no longo prazo. Para quem está num negócio em extinção, a única alternativa é pular para o outro lado. ?Os serviços on-line de música certamente irão ferir as vendas do Wal-Mart e é exatamente por isso que eles entraram no negócio?, diz Goodman, do Yankee Group. Se não pode vencê-los, junte-se a eles.