Tecnologia

A NOVA ORDEM

Faz pouco tempo que uma piada divertia os diretores de tecnologia de grandes companhias. As gargalhadas giravam em torno do fato de que nenhum executivo da área havia perdido o emprego por ter comprado um computador potente para a empresa, mesmo que o equipamento não fosse necessário. Hoje, tal raciocínio representaria uma demissão sumária. Há uma nova ordem nesse mundo. Os especialistas perdem poder para quem entende pouco de tecnologia mas sabe muito sobre as reais necessidades do negócio. A baixa no mercado de CIO (sigla em inglês para Chief Information Officer), o título dado aos homens responsáveis pela infra-estrutura tecnológica, é irreversível.

Hoje para ocupar a função é dispensável o conhecimento profundo do ?tecnoquês?. A maior qualidade é a capacidade de relacionar o real investimento em tecnologia e o impacto no caixa das empresas. Quem não entende de plano de negócio, planilha de custos, visão estratégica está sendo ultrapassado pela visão emergente. Essa tendência foi apontada em estudo recente do instituto de pesquisas e estatísticas na área de tecnologia Gartner Group. Cerca de 35% dos atuais diretores entrevistados pelo Gartner chegaram aos cargos sem ter experiências de qualquer tipo na área de tecnologia. ?Profissionais que falam muitos jargões e termos técnicos estão sob o alerta vermelho. Hoje, a língua deve ser a mesma dos presidentes e de outros executivos de primeiro escalão?, afirma Ione Coco, vice-presidente de programas para executivos do Gartner Group.

O administrador Rubens Nascimento, do laboratório Boehringer Ingelheim, é um expoente dessa nova geração de CIOs. Ele passou longe do mundo dos computadores antes de assumir a função. Colocado na posição de decidir sobre a compra de um lote de equipamentos de comunicação móvel para a subsidiária brasileira optou pelo argumento financeiro ao tecnológico. ?Recusei a pro-
posta de comprar notebooks?, diz Nascimento. ?Escolhi os computadores de mão. Eram mais baratos?, justifica. A decisão
se mostrou acertada e a matriz resolveu exportar o modelo para
as filiais do México, Argentina e Venezuela.

No Brasil, essa tendência é reforçada pela situação econômica. Por exemplo, muitas empresas deixaram de renovar as licenças de software com os fabricantes. Num cenário de contenção de gastos, profissionais que almejam a vidamente as novidades tecnológicas podem se tornar um obstáculo para a melhoria dos resultados operacionais. De acordo com o Gartner, 40% dos contratados reportam diretamente ao presidente, tornando-se integrados nos negócios da empresa. É o caso do engenheiro Roberto Busato, o CIO mundial da Bunge. Na companhia há 25 anos, ele assume que não entende nada do assunto, mas tem a seu favor uma equipe alta-
mente especializada. ?O que estou fazendo é comunicar a área de tecnologia com a área de negócios?, diz.