Tecnologia

ELEBRA NUNCA MAIS

O imenso galpão, deserto, está coberto de poeira. Não fosse o vôo rasante de alguns pássaros que entram pelas janelas quebradas, não há movimento no ambiente, iluminado apenas pelos tímidos raios de sol da tarde de inverno paulistano. Caixas empilhadas, armários vazios com portas abertas e circuitos espalhados pelo chão completam o clima de abandono. Mas houve tempos em que no mesmo espaço havia uma atividade febril com um vaivém constante de operários e o barulho de máquinas funcionando. No alto do edifício uma enorme placa é o último vestígio de que ali funcionava aquela que já deteve o título de maior empresa do setor de informática do País, a Elebra. Abatida por 11 pedidos de falência, 400 títulos protestados e uma dívida estimada em R$ 21 milhões, a companhia deu os últimos suspiros nos primeiros dias de agosto, quando um punhado de modens, único produto sobrevivente do extenso portfólio de outrora, foi vendido. Máquinas e equipamentos foram transferidos para um depósito em Embu, próximo a São Paulo. Solitária, a única funcionária no local, abrigada na guarita, faz o papel de vigia e recepcionista. Quando um visitante lhe pergunta se ali funciona a Elebra, ela responde: ?Depende?.

A resposta é dúbia e, paradoxalmente, precisa. O prédio está lá, não há uma única máquina em funcionamento, mas a poucos quilômetros dali, numa sala de cerca de 100 metros quadrados, um grupo de 5 funcionários da empresa trabalha naquilo que seria uma espécie de espólio da Elebra. Eles atendem fornecedores, organizam a papelada e aguardam ansiosos uma ligação de um improvável cliente. Outras perguntas também justificam a dúvida da mulher na guarita. Por exemplo: quem são os atuais acionistas da Elebra? Depende. Dois empresários, Nelson Tanure e Alexandre de Carvalho, dividem o capital com um grupo de 19 ex-executivos da empresa. Mas há uma complexa briga na Justiça.

Talvez seu nome pouco signifique nos dias de hoje, mas a Elebra
já foi a maior empresa do setor de informática do País. Há exatos
10 anos, quando a reserva do mercado de informática dava seus últimos suspiros, a Elebra vivia dias de glória. No quadro de acionistas brilhavam nomes ilustres como Guinle e Paula Machado.
O logotipo, o perfil estilizado da cabeça de uma águia, estava estampado na maioria das impressoras em funcionamento no País.
Os braços do grupo estendiam-se para diversos setores, de telecomunicações a sistemas de defesa. Seu faturamento atingia US$ 500 milhões anuais. Mais de cinco mil pessoas trabalhavam
nas oito unidades de negócios.

Filha dileta da reserva de mercado, a Elebra começou a morrer quando o berço em que foi gerada desapareceu. A empresa não foi vítima de morte súbita, daquelas que abateram as empresas americanas nos últimos tempos. Sua agonia foi lenta e dolorosa, num longo processo de definhamento que reduziu a outrora potência tecnológica a quase nada. Em um primeiro momento, ela foi desmembrada e vendida aos pedaços. A Alcatel ficou com uma parte. A Digital, com outra. Outros ativos foram para a Unysis.

Corte de luz. O que restou foi parar nas mãos de Tanure e Carvalho. Em 2000, quando a empresa já mostrava a debilidade que a levaria à morte, Tanure propôs uma troca com um grupo de 19 funcionários graduados. Eles ficariam com um terço das ações ordinárias em troca do passivo trabalhista a que tinham direito. Tanure também teria se comprometido a fazer um aporte de R$ 4,5 milhões para reavivar a companhia. O dinheiro, segundo os funcionários, não chegou. Era o começo do fim.

A Elebra transformou-se em uma sombra de organização. Quando recebia uma rara encomenda, os funcionários elaboravam uma lista com os componentes necessários para produzir os modens e procurava um fornecedor, a Multicircuits, que fazia as compras ? a Elebra já não tinha crédito na praça. Os 25 funcionários não tinham salário. A cada semana, os menos abonados recebiam R$ 250, quando havia dinheiro para tanto. A iluminação era garantida por um gerador a diesel ? a Eletropaulo havia cortado o fornecimento de energia por falta de pagamento. Volta e meia, aparecia um fornecedor para uma visita e acabava confessando que fora ali para ver se a Elebra ainda existia. Dos 19 funcionários, 17 entraram na Justiça com uma tese inédita defendida pelo advogado Ronaldo Martins, do escritório Martins e Salvia. Segundo a CLT, diz ele, débitos trabalhistas só podem ser quitados em dinheiro. A compra da parte do capital com o passivo trabalhista, portanto, não teria validade. Assim, Tanure e Carvalho continuariam devendo aos funcionários. No dia 2 de setembro, uma juíza da 54ª Vara Trabalhista de São Paulo dará seu veredito ? em primeira instância. Ou seja, o nome Elebra continuará vivo pelo menos nos tribunais.