Tecnologia

A ORDEM AGORA É MANTER O CONTROLE

Se tem um assunto tirando o sono de muito CEO é a Internet. O motivo da insônia está no quintal das empresas, mais exatamente na tela do computador de cada funcionário. A rede mundial de computadores, aclamada pela velocidade e mobilidade que trouxe à comunicação corporativa, foi parar no banco dos réus. Acusação: distrair as pessoas durante o expediente, diminuindo a produtividade e expondo a segurança das empresas. Segundo pesquisas americanas, 40% do tempo que se navega no escritório é gasto com assuntos pessoais; 20% do tráfego das redes corporativas é preenchido com fotos e bate-papos e 73% das mensagens recebidas em horário comercial têm arquivos anexos (porta de entrada para a grande maioria das contaminações por vírus). Feitas as contas, só nos Estados Unidos as empresas estariam deixando de embolsar US$ 20 bilhões por ano com a brincadeira. ?Num primeiro momento, as companhias deixaram o funcionário livre na Internet, até para ele se auto-treinar?, avalia Leonardo Scudere, vice-presidente regional para Mercosul da ISS, especialista em segurança de redes. ?Mas agora elas começaram a se preocupar com a dispersão que isso gera.?

No Brasil, apesar da falta de estatísticas, dá para presumir que o incômodo dos chefões é até maior. Isso porque, em casa, as pessoas invariavelmente têm um acesso mais lento ? e caro ? do que no trabalho. E, portanto, é muito mais prático e econômico usar a conexão da empresa para tratar dos chamados assuntos não corporativos. Eles incluem uma vasta lista que começa naquele inofensivo e-mail no meio da tarde para combinar o jantar de logo mais. Passa pelas correntes com piadinhas, os sites de esportes e fofocas, a compra de um CD, o dowload de um game novo, um bate-papo via ICQ, uma garimpada no Napster, seu mapa-astral on-line e o envio do seu currículo. E acaba na troca de mensagens pornográficas, na disseminação de vírus e até em espionagem industrial. Isso mesmo. Nos Estados Unidos, 24% dos funcionários admitem receber e-mails com informações confidenciais vindas de empregados de outras companhias. Também se estima que 50% dos ataques de hackers vêm de dentro das empresas. ?Na Internet houve uma preocupação muito grande com visual e o marketing, mas não com a segurança?, acredita Scudere. ?É como fazer um carro e não colocar o freio.?

Não é bem assim. As empresas estão, sim, se equipando com freios. No Brasil, pelo menos 35% das maiores corporações adotaram programas de controle de uso do correio eletrônico e da Internet. O assunto é tratado veladamente. Citibank e Itaú, por exemplo, quando perguntados, preferem se omitir. Entre as que falam sobre o tema, a bandeira defendida não poderia ser mais politicamente correta: liberdade com responsabilidade. É o caso da IBM. ?O uso pessoal é permitido desde que não atrapalhe o trabalho?, explica Luiz Rotstein, gerente de suporte de infra-estrutura da empresa. Postura parecida foi adotada pela Hewlett Packard (HP), onde não existe nenhum tipo de policiamento no uso do computador. ?A Internet é um veículo para fazer negócio e dar rapidez?, diz Jair Pianucci, diretor de RH da HP. ?Como é que vamos dar um acelerador e ao mesmo tempo colocar um freio para controlar as pessoas?? Mesmo assim, todos os funcionários da empresa assinam um termo de conduta ? no qual são sabatinados anualmente ?, onde dizem estar cientes de que o e-mail é para fins profissionais e que certos sites são bloqueados. Este ano, uma pessoa descumpriu as regras e foi demitida.

Para saber como anda o lado espião de seu patrão, basta avaliar em que estágio está a política de controle no seu trabalho. O primeiro passo é a advertência. Foi o que fez o Banco Central na semana passada, ao soltar um memorando com recomendações para uso da Internet. ?Para evitar a restrição preferimos, nesse primeiro momento, optar pela conscientização?, explica Roberto Ozu, chefe do Departamento de Informática do banco. No passo seguinte, as empresas partem para um controle mais efetivo, mas não tão duro. Um bom exemplo é a Microsoft, que, de tempos em tempos, coleta e analisa uma amostra aleatória de e-mails, para ver se algo está fora de controle. Além disso os empregados assinam um termo onde são informados das normas de conduta virtual. ?Todos sabem que o uso indevido pode gerar demissão por justa causa?, revela Cláudio Neszlinger, diretor de RH da Microsoft. ?Fica na consciência de cada um.?

Num último estágio entra o monitoramento efetivo. É o que faz a Nestlé, por exemplo, onde os funcionários assinam um termo de uso da rede só para fins comerciais, abrindo assim uma brecha para a empresa poder verificar qualquer mensagem. Outro caso é o da Xerox. A companhia já adota uma política de verificar e-mails por amostragem, impedir spans e restringir o acesso a Napster, chats e MP3, por exemplo. Em 1999, esse tipo de controle levou a 40 demissões nos Estados Unidos. No começo do ano que vem, no entanto, a Xerox vai ativar um inspetor que considera mais eficaz. É uma ferramenta que vai indicar em relatórios diários onde cada funcionário navega, por quanto tempo e em que freqüência. Também está em estudo um mecanismo para controle de e-mails. ?O correio e seu conteúdo são corporativos e por isso, a empresa tem o direito de ler o que está nele?, afirma Dinis Abramovitch, gerente de tecnologia da Xerox. ?Não queremos cercear o uso da Internet e sim, que seja produtivo.?

O melhor aliado das empresas nessa política do ?olho vivo? tem sido a tecnologia. Esqueça aquela idéia de que enquanto você digita um e-mail há um censor lendo tudo tintim por tintim. Como nas grandes companhias ? que chegam a ter um tráfego de 200 mil mensagens por dia ? isso seria inviável, as ferramentas de controle são bem piores do que qualquer Grande Irmão real. Elas podem bloquear o envio ou recebimento de uma mensagem ou o acesso a um site automaticamente, sem que o funcionário sequer perceba. Imagine o seguinte: o dono da sua empresa não quer que você se ofereça para um concorrente. Ele cria então uma regra que faz com que todas as mensagens com o nome do concorrente e/ou a palavra ?curriculum?, por exemplo, não sejam enviadas e caiam numa central de controle. ?Fazemos o filtro de acordo com a regra que a empresa decidir?, explica Hernan Armbruster, diretor da Trend Micro, uma das maiores do mundo nesse setor. Com a ferramenta desenvolvida pela Trend Micro é possível monitorar qualquer tipo de e-mail, de qualquer origem, inclusive dos provedores gratuitos. ?O filtro é importante para a segurança?, diz Armbruster. ?Posso até explicar para meu funcionário como atravessar uma rua, mas se eu colocar um farol, vou ajudá-lo mais.?

Mesmo que o funcionário dispense esse tipo de camaradagem do patrão, a legislação não impede que as empresas ajam assim. A alegação é simples: como a Internet corporativa é para fins de trabalho, o chefe pode monitorar um e-mail, assim como pode abrir o computador do subordinado para puxar uma planilha. ?Mas o ideal é que a companhia adote uma política de controle clara, avisando aos funcionários que informações tratadas na empresa não têm caráter pessoal?, explica a professora de Direito da USP Maristela Basso. Cabe, portanto, às empresas tomar as rédeas da situação. Não que isso seja garantia de alguma coisa. Por mais que se incrimine a Internet, tem quem a considere uma ré facilmente defensável. ?Para mim, é óbvio se um empregado é ótimo, ruim ou péssimo?, diz Thomas Case, fundador do Grupo Catho. ?Não é a Internet que vai influenciar isso.?

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