Tecnologia

UM ANO PARA VIVER EM PERIGO

Tudo indica que a abundância americana, aquela que gerou oito anos de crescimento ininterrupto e uma nova dimensão para a palavra prosperidade, finalmente começou a produzir uma recessão ? a primeira da Nova Economia. As dúvidas sobre isso ficaram menores desde a primeira semana de dezembro, quando Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve, veio a público anunciar que estava de olho no encolhimento estatístico da maior economia do mundo, que deixou de crescer a 5% para crescer a pouco mais de 2% ao ano. Depois de denunciar a ?exuberância irracional? das bolsas em 1996 e elevar cinco vezes as taxas de juros a partir de 1999, o homem mais influente nos mercados financeiros avisou, no último dia 5, que o sinal havia mudado. ?Em uma economia que começa a perder vitalidade, devemos permanecer alertas?, disse Greenspan. Todo mundo entendeu que isso significa uma redução dos juros ? talvez de meio ponto percentual, talvez já esta semana, na reunião do FED no dia 19. Com isso, o otimismo voltou moderadamente às bolsas, que haviam despencado como jacas maduras na semana anterior, diante dos primeiros sinais de esfriamento do mercado de tecnologia. Logo, é possível que Greenspan, um pouco à Fernando Henrique, consiga segurar no verbo a economia que detém 22% do PIB global e produziu, nos últimos três anos, 30% do crescimento mundial. É possível, mas não provável. Indicadores se acumulam sugerindo que a recessão chegou em vários setores industriais, que ela é forte e que Greenspan se atrasou em reconhecê-la ? como havia feito, aliás, em 1990, quando os EUA entrou no gelo pela última vez.

?As coisas estão se movendo muito mais rápido do que eu imaginava. É assustador?, disse à DINHEIRO o economista Michael Mandel, autor do polêmico The Coming Internet Depression. Publicado em outubro, e já adquirido no Brasil pela Editora Record, o livro causou rebuliço ao prever que o deslizamento das bolsas ? associado à redução das compras de tecnologia e à retração dos capitais de risco ?, provocará algo muito pior do que uma recessão passageira. Mandel acredita que uma conspiração de eventos já em curso levará a uma versão high tech da Crise de 29, com direito a desemprego, falências e uma nova onda de concentração de capital em Wall Street. Ele previa, no entanto, que o Apocalipse iria se instalar gradualmente, ao longo dos próximos dois anos. Mas nas últimas semanas, com a queda da demanda por computadores e novas estatísticas sobre redução do crescimento e do consumo americanos, ele reduziu seu prazo e escureceu suas previsões. ?Sou o único que tem falado em depressão, mas acho que não ficarei sozinho por muito tempo?, diz Mandel, que é também editor da revista americana BusinessWeek. Ele sustenta que nos próximos meses ocorrerão três eventos simultâneos para provocar o cataclisma: redução a menos da metade do capital de risco, que vinha despejando US$ 100 bilhões no mercado de tecnologia; redução, também substancial, dos investimentos em telecomunicações, tão logo as empresas acusem as baixas taxas de retorno dos investimentos e, finalmente, corte nos gastos das empresas com tecnologia da informação. ?Em vez de trocar seus equipamentos a cada dois anos, as companhias trocarão em três ou quatro anos?, diz Mandel. ?Isso terá um efeito dramático na economia.? O setor de informática é um dos poucos setores industriais que continuavam crescendo em ritmo acelerado, ajudando a manter o momento econômico. Os recentes resultados negativos de empresas como Intel, Dell e Gateway sugerem que isso começou a mudar. ?Grandes empresas, como Microsoft e Intel, sofrerão menos com o crash, porque têm muito capital?, prevê o economista. ?Vai haver um grande movimento de consolidação.?

O pessimismo dessas previsões, é bom que se avise, não é compartilhado por outros economistas. Robert Shiller, um dos grandes especialistas americanos nos movimentos das bolsas de valores ? autor do livro Exuberância Irracional, já publicado no Brasil, em que prevê a queda do valor das ações ? também acredita que haverá uma recessão, mas acha que ela não será de forma alguma dramática. Sua lógica, histórica, é de que recessões se seguem a períodos de expansão, como um ajuste necessário. O valor das ações cairia, assim como o ritmo de evolução do PIB e a geração de empregos, em direção a um cenário de hardlanding ? o famoso pouso forçado ? que, visto do Brasil, nem é tão ruim assim. Os economistas americanos definem o hardlanding como crescimento de PIB menor que 2% ao ano, por dois trimestres consecutivos, com taxa de desemprego de 4,5%. Já o softlanding teria crescimento do PIB entre 3% e 4% e desemprego estável em apenas 4%. Ambos são cenários benignos quando comparados à hipótese catastrófica de Mandel.

Na semana passada, falando à DINHEIRO, o autor de Internet Depression não encontrava indicadores que justificassem otimismo. ?Os europeus deveriam estar aquecendo os motores para substituir o crescimento americano, mas, em vez disso, estão elevando as taxas de juros?, diz Mandel. ?Os bancos centrais estão exageradamente preocupados com a inflação.? Isso significa, na opinião do economista, que a queda dos lucros das empresas e a depressão podem ser globais ? com efeitos negativos sobre os investimentos americanos no exterior e o comércio mundial. É certo que uma recessão nos EUA, aguda ou não, provocaria uma retração proporcional da economia global.

Capital de Risco: O investimento que financia inovação cairá pela metade, reduzindo a produtividade

 

Diante de previsões como essa, muita gente que sempre desconfiou do conceito de Nova Economia começa a preparar o enterro de mais um modismo. Mas será que o engasgo da economia americana significa que a idéia de uma Nova Economia foi para o buraco? ?De forma nenhuma?, diz Mandel. Ele sustenta que a crise em curso decorre justamente da existência real de um novo modelo econômico, dependente em grande medida do capital financeiro e da inovação tecnológica. O capital de risco, assim como o da bolsa, permite que se criem empresas, produtos e serviços em um ritmo muito mais acelerado, que aumenta brutalmente a produtividade e os lucros. Quando esse investimento se reduzir, a taxa de inovação e produtividade cairá, com forte impacto macroeconômico. A isso irá se somar um recuo das empresas tradicionais, que perderão o acesso fácil ao financiamento das bolsas e irão retardar seus projetos de tecnologia, sobretudo aqueles ligados à Internert, desacelerando um dos setores mais dinâmicos da Velha e da Nova Economia. Em uma economia antiga, a magnitude dos eventos seria contornada pela política monetária de Greenspan. No cenário novo, diz Mandel, o jogo é mais rápido e os movimentos mais dramáticos, imprevisíveis. ?Ninguém sabe como uma economia erguida sobre tecnologia da informação e inovação rápida vai reagir a uma queda brusca?, diz ele. ?Estamos entrando em território totalmente desconhecido.?

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