Mercado Digital

O Bote da AOLA

Vem aí a AOLA. O braço latino-americano da America Online – maior provedor de acesso à Internet do mundo, com mais de 20 milhões de assinantes e faturamento anual de US$ 5 bilhões – acaba de desenhar uma nova estratégia para o Brasil e países do continente. A ordem de Steve Case, fundador e presidente mundial da companhia, é dar um definitivo bote naquele que, na sua visão, tem potencial para ser o segundo maior mercado do planeta para negócios virtuais, perdendo apenas para os Estados Unidos. Associação com o grupo venezuelano Cisneros, a AOLA já traçou seu business plan, ao qual DINHEIRO teve acesso. O ponto de partida é uma série de alianças e aquisições em diversas áreas, alguns surpreendentes. O primeiro e mais ousado passo deve ser anunciado em grande estilo nos próximos dias e vem em forma de uma parceria com um grande grupo financeiro no País. A AOL será provedora exclusiva de acesso do Banco Itaú. Em troca, a AOL cederá 15% da AOL Latin America, em processo de abertura de capital na Bolsa de Nova York. O percentual, diluído em 10 anos, será repassado à instituição de acordo com a evolução do crescimento de usuários do serviço no Brasil.

A estratégia de se associar a uma grande instituição bancária é vista pelo board da companhia como fundamental na conquista do internauta latino-americano. Tanto que está sendo articulada com todo o cuidado e sigilo, e coordenada pelo próprio Steve Case, que tem na operação brasileira sua menina dos olhos e uma espécie de ponta de lança para o resto do continente. Os executivos da AOL acreditam que uma aliança desse porte terá impacto imediato no crescimento da audiência do serviço e no número de assinantes – e, consequentemente, no aumento de seu faturamento com comércio eletrônico e publicidade. No caso de a AOL se tornar o provedor exclusivo de um banco com mais de 10 milhões de clientes, a liderança do mercado é tida como certa. As contas da gigante americana, de forma simplificada, podem ser traduzidas da seguinte maneira: se 10% dos correntistas migrarem para a AOL Brasil, a empresa ultrapassa líder Universo Online, que hoje tem 680 mil assinantes declarados. Somados aos atuais 103 mil pagantes, o serviço da AOL pode saltar para 1,1 milhão em um piscar de olhos, ultrapassando os rivais Terra e O Site, segundo e terceiro colocados, respectivamente, no ranking dos provedores pagos do País.

O bote da AOLA contempla também o início das operações no México e Argentina ainda no primeiro semestre. Tudo tem de estar tinindo para o IPO (oferta pública de ações) em Wall Stret, previsto para o segundo semestre do ano. A intenção de Case e seus sócios do grupo Cisneros é levantar um mínimo de US$ 575 milhões com a venda dos papéis da AOLA. Mas sabem que, para chegarem ao sucesso, precisam alavancar os números da empresa na América Latina. “Nossos resultados estão em linha com as expectativas que tínhamos quando nos lançamos na região”, afirma Charles Herrington, presidente da AOLA e principal general de Case nessa nova batalha. Estrategicamente, Herrington não abre nenhum dado sobre o mercado brasileiro. Para analistas do setor de Internet, no entanto, o desempenho da AOL Brasil foi prejudicado pelo advento do acesso gratuito apenas dois meses após sua chegada por aqui. Se o assunto e a nova estratégia para o front latino, o executivo esconde suas armas por trás de respostas evasivas. Estaria próximo o anúncio de uma associação com um grande banco no Brasil? “Estamos sempre avaliando alianças estratégicas”, disse a DINHEIRO, por telefone, do QG da AOLA em Fort Lauderdale, na Flórida. “A cada dia a AOL anuncia uma ou duas novas parcerias”.

Herrington recita de cor os dados que tanto encatam seu chefe: as projeções de crescimento do número de internautas na América Latina. Segundo ele, os dados do instituto de análises IDC, especializado na nova economia, demonstram que há hoje 16,2 milhões de pessoas conectadas à rede no continente. “Em 2003 serão 37,8 milhões, mais que o dobro do que temos hoje”, diz. “Isso faz da região prioridade para a companhia”, admite. Há ainda o público de língua espanhola nos Estados Unidos, uma comunidade estimada em 30 milhões de pessoas que ficaria também na mira da AOLA. “Nosso foco, por enquanto, são os internautas da América Latina e do Caribe”, afirma Herrington. “Ainda estamos negociando a possibilidade de atuarmos dentro dos mercado americano”.

A chave desta negociação está, para usar o termo em voga, no conteúdo. A AOL descobriu na prática que para ser bem sucedida fora dos Estados Unidos não basta traduzir para outra língua as toneladas de informação que estão armazenadas em seus computadores em Dulles, nos arredores de Washington, a capital americana. Por isso, outro ponto crucial da novo plano da companhia são as alianças (ou mesmo aquisições) com empresas de conteúdo. A idéia é para dar uma cor local ao noticiário e aos serviços da AOL na América Latina. Também estão em andamento várias negociações com companhias que tenham marcas ou produtos que façam parte do dia-a-dia dos consumidores. “Estamos conversando com grandes empresas que podem viabilizar a distribuição de nossos serviços”, diz Susan Ainsworth , vice-presidente de comunicação da AOLA. Um exemplo disso é o acordo fechado recentemente com a Palm, a fabricante dos organizadores pessoais PalmPillot. Chamado de AOL Palm Mail 1.1, o serviço vai permitir que os assinantes que possuem um Palm acessem o site da AOL usando a mesma senha para ler ou enviar e-mail. O ataque da AOLA também começa a chegar ao público leigo. Já está no ar uma nova campanha publicitária de fixação da marca. Mais focada no usuário comum, a preocupação agora é ensinar o brasileiro a melhor maneira de utilizar a Internet.

A ordem, agora, é reverter a imagem de arrogante que a companhia passou para o mercado quando chegou ao País, e desfazer os equívocos cometidos com alguns usuários menos experientes que tiveram seus computadores reconfigurados após a instalação do programa de navegação. Uma aproximação mais amigável com os consumidores é questão de vida para a AOL, avaliam fontes próximas a empresa. Tanto que só na campanha publicitária que está no ar estão sendo gastos cerca de R$ 30 milhões. A empresa também resolveu apostar nos sorteios como forma de melhorar sua imagem. A partir do dia 24 serão sorteados 20 automóveis, um por dia, e máquinas fotográficas entre os seus assinantes. Outra forma de conquistar o internauta brasileiro e através do preço: desde fevereiro o custo da assinatura caiu de R$ 35 para R$ 25.