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Elementar, meu caro investidor

O trabalho dos gestores  é garimpar ações em que ninguém está prestando muito atenção para montar suas posições. Conheça as apostas de três corretoras

Elementar, meu caro investidor

Os gestores de fundos de ações passam a maior parte de seu tempo lendo notícias e analisando balanços, conversando com representantes da área de Relações com Investidores das empresas, e na frente de seus computadores, analisando essas informações, fazendo cálculos e acompanhando os pregões. Parte essencial desse trabalho é descobrir empresas com potencial de valorização e cujas ações estão baratas, e comprá-las antes da concorrência. DINHEIRO conversou com três gestores de fundos para descobrir como eles garimpam papéis – e quais são as suas principais apostas para este ano.

Para Luiz Alves, gestor do fundo Versa, que rendeu 182% em 2016 ante 38,9% do Índice Bovespa, as ações mais promissoras são a construtora Gafisa, a Companhia Paranaense de Energia (Copel) e a empresa de serviços de engenharia e locação de equipamentos Mills. Alves considera em sua avaliação a relação entre patrimônio líquido e o valor atual das ações, além de perspectivas para a economia brasileira e o setor de atuação das companhias.

Apostar em uma fabricante de componentes automotivos, como rodas e chassi, poderia parecer loucura, diante de uma queda de 20% na venda de veículos novos em 2016, certo? Não para Rafael Burquim, sócio e responsável pela área de renda variável da Solis Investimentos, cujo fundo Solis Value Master encerrou o ano com alta de 56,64%. A menina dos olhos de Burquim é a Iochpe-Maxion, a maior produtora de rodas de veículos leves do mundo. A companhia obtém 80% de sua receita no exterior, sendo os principais mercados a Europa, com 40%, e os Estados Unidos, com 30%, e deve colher os frutos de uma reestruturação recente.

Há cerca de quatro anos, a geração de caixa medida pelo Ebitda (lucros antes dos juros, impostos, depreciação e amortização), indicador da produtividade e da eficiência de uma empresa, gravitava ao redor de 18%. Atualmente, essa margem recuou para 10%, mas, segundo Burquim, melhorias operacionais e o início de uma nova planta de rodas de alumínio devem elevar esse percentual para 12% ainda neste ano. A taxa de penetração das rodas de alumínio no Brasil é de 30%, ante 70% dos Estados Unidos. Então, há muito espaço para crescimento.“Apesar de as ações terem subido 20% em 12 meses, ainda estão 50% mais baratas se compararmos o valor com o de 2014”, diz ele.

Outra da lista de setores que encerraram o ano no vermelho é uma incorporadora, a Gafisa. Ela aparece como principal aposta por conta da perspectiva de queda de até 375 pontos-base na taxa Selic neste ano. A baixa pode baratear os financiamentos imobiliários. Isso, e o fato de a Gafisa ter freado novos empreendimentos há três anos. “À medida que os lançamentos diminuem, os distratos encolhem. Acredito que a reconstituição do lucro acontecerá em três anos. Esse papel tem potencial de subir até 40%”, afirma Alves. Para ele, para ser rentável, a ação tem que valer mais que o patrimônio líquido.

Hoje, a ação da Gafisa é negociada a 27% do patrimônio líquido. É pouco, e bem menos que seus concorrentes. Even é negociada a 40%, Cyrella a 75% e MRV a 100%, diz ele. Tradicional prestadora de serviços para empreiteiras, a Mills sofreu com a retração de seus clientes, muitos envolvidos na Operação Lava Jato. Com uma ociosidade de 40%, a empresa passou por uma reestruturação que cortou pessoal, fechou filiais, vendeu ativos não-essenciais e trouxe recursos de um fundo de private equity, o que reduziu a dívida a quase zero.

A combinação com o pacote de infraestrutura prometido pelo governo de Michel Temer, explicam o porquê de o gestor do fundo Versa apostar que o preço da ação, hoje negociada a 75% do valor patrimonial, possa duplicar ou triplicar nos próximos anos. A expectativa da renovação de concessões na malha ferroviária paulista, aliada a um plano de investimentos de R$ 7 bilhões, cuja primeira fase já aconteceu, justifica o ingresso da Cosan Logística nos fundos da Solis. “Essa ação pode ter seu valor duplicado nos próximos anos, apesar de o papel já ter se valorizado 60% em 12 meses”, diz Burquim. Como a empresa ainda está na segunda fase de implantação de melhorias, que devem demandar R$ 4 bilhões, a margem Ebitda de 40% está negativa.

A empresa de energia Copel é uma das poucas empresas integradas do setor, que atua tanto na geração quanto na distribuição de eletricidade. E é a geração que acende o interesse dos gestores. A Copel optou por não firmar contratos de longo prazo com distribuidoras, o que lhe permite abocanhar as margens maiores do mercado à vista de eletricidade. Além disso, o controlador, o governo do Paraná, sinalizou a intenção de reduzir sua participação nas estatais. Isso poderia impulsionar a liquidez e os preços das ações ordinárias, hoje negociadas a 35% do valor patrimonial, e reduzir sua diferença de quase 30% com as ações preferenciais. “A ação tende a se reprecificar”, diz Alves.

Para João Braga, gestor de renda variável da XP Gestão, três papéis de empresas de saneamento – Sabesp, Copasa e Sanepar –, além da distribuidora de energia elétrica Transmissão Paulista são as grandes apostas, e já somam 34% da carteira. No caso da transmissora de energia, a possibilidade de crescimento está nos leilões de linhas de transmissão no estado de São Paulo, previstos para o primeiro trimestre. Já as empresas de saneamento devem ser beneficiadas pelo marco regulatório do setor, que usa a base de ativos para reajustes tarifários, e que devem ocorrer nos próximos meses.