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Bolsa aos 60 mil pontos. E agora?

Com valorização de 41% no ano, mercado de ações volta a chamar a atenção dos investidores. A boa notícia é que há lenha para colocar na caldeira e continuar empurrando o trem ladeira acima

Bolsa aos 60 mil pontos. E agora?

Até o final de outubro, deve sumir a poeira sobre a campainha que marca a estreia de uma empresa na BM&FBovespa. O laboratório de diagnóstico por imagens Alliar, a terceira maior rede do País, está prestes a fazer o seu lançamento inicial de ações (IPO, na sigla em inglês), quebrando uma monotonia de quase 15 meses. A última vez em que uma empresa havia feito barulho na sede da bolsa de valores, na rua XV de Novembro, centro de São Paulo, foi a PAR Corretora, que levantou pouco mais de R$ 600 milhões, em junho de 2015. Desde então, nenhuma outra companhia buscou se financiar via mercado de capitais.

As razões são mais do que conhecidas: a economia brasileira afundou no trem fantasma da presidente Dilma Rousseff e provocou um descarrilamento de todo e qualquer projeto. A decisão do Alliar, que pode levantar até R$ 1 bilhão com suas ofertas primária e secundária, indica que o vagão voltou a ser colocado nos trilhos. “O setor de saúde é resiliente e está bastante aquecido, basta ver o valor das ações do Fleury, que mais que dobrou neste ano”, diz Saulo Sturaro, sócio da gestora JK Capital, que estruturou a aquisição do laboratório de diagnósticos Imedi pelo grupo Ghelfond, formando a quinta maior empresa do segmento, em julho passado.

A boa notícia é que o Alliar não está sozinho nessa fila. A Log Commercial Properties, empresa especializada em aluguel de galpões e condomínios, que pertence ao grupo MRV Engenharia, está prestes a remeter seu prospecto definitivo à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e pode fazer sua estreia na bolsa ainda neste ano. O engate de novos IPOs é uma demonstração que os investidores voltaram a confiar no futuro do Brasil. Os fatores políticos eram os que mais influenciavam o pessimismo com os ativos de empresas brasileiras.

A partir do impeachment da ex-presidente Dilma, a turbulência política começou a se dissipar. Nas eleições municipais, os partidos de esquerda foram punidos pelos eleitores e o PT, o principal deles, elegeu apenas o prefeito de uma capital, Rio Branco (AC). A aprovação do Projeto de Emenda à Constituição (PEC) 241, que limita o teto dos gastos públicos, ajuda no entendimento de que o ajuste fiscal está “comprado” pelo legislativo: foram 366 votos a favor em primeira votação na Câmara, um a menos do que o do processo de impeachment. Para o mercado financeiro, esse resultado foi recebido com otimismo e lido como comprometimento com a sequência de reformas (leia mais aqui).



“A reforma econômica, como a PEC 241, é um passo inicial. Mas é preciso andar mais rápido com a da previdência e depois com a trabalhista, para não gerar novas instabilidades políticas”, diz Paulo Guedes, sócio da Bozano Investimentos e um dos fundadores do Banco Pactual. “Não adianta acalmar o andar de cima, com o ajuste fiscal, sem pensar no de baixo, que precisa de emprego.” Esse início de recuperação da macroeconomia brasileira foi suficiente para levar o Ibovespa, o principal índice da Bovespa, aos 61.118 pontos, na quinta-feira 13. É uma valorização de 41% em 2016, quando o indicador chegou a estar abaixo dos 37.500 pontos.

Mesmo assim, ainda é preciso quase 15% de expansão para atingir novamente os 69.962 pontos registrados no primeiro dia do governo Dilma, em janeiro de 2011. Pelos cálculos do mercado financeiro, ainda há um potencial de ganhos com a aprovação da PEC 241, que estaria precificada entre 62 mil e 65 mil pontos. “A melhoria da economia já está acontecendo, o que traz de volta a confiança e o investidor para a bolsa”, diz Celson Plácido, estrategista-chefe da XP Investimentos. “Ainda há um ganho esperado para as ações com a aprovação das medidas. O mercado continua propício ao crescimento.”

No início de outubro, a XP realizou um evento para investidores em Nova York. As 30 vagas foram rapidamente preenchidas e havia fila de espera em caso de desistências. O comportamento surpreendeu a direção da empresa, pois, há seis meses, faltaram interessados em preencher as cadeiras vazias e ouvir sobre as perspectivas do Brasil. Essa volta é um movimento de reconquista da credibilidade do País. Os estrangeiros são fundamentais para o fluxo da Bovespa. Hoje, eles representaram pouco mais da metade do giro médio diário de R$ 7 bilhões da bolsa brasileira.

William Landers, chefe global de mercados emergentes da Black Rock, a maior gestora de investimentos do mundo, afirma que os únicos movimentos que os estrangeiros têm feito, até o momento, são realocação de ativos. Ou seja, tira de um lado e coloca do outro. Não há novas aplicações. Porém, se os indicadores econômicos continuarem na direção esperada (queda de juros, inflação sob controle e expansão do PIB), o Brasil se candidata a receber parte dos US$ 12 trilhões que estão investidos em títulos públicos de países com remuneração negativa.

“O gráfico da bolsa brasileira é ascendente desde 1980, com apenas quatro momentos de grandes quedas: plano Cruzado, eleição de Collor e de Lula e agora com a Dilma”, diz Landers, que chegou a ter US$ 11 bilhões investidos em ativos brasileiros e hoje tem US$ 2,2 bilhões. “Depois desses episódios, o mercado recuperou entre 50% e 60%, em dólar. Hoje, é esse o desconto da alta de 2011.” Alguns investidores, porém, podem levantar dúvidas sobre esse fôlego de expansão do Ibovespa. O preço sobre o lucro (P/L) das empresas, um indicador que representa quantos anos se levaria para ressarcir o custo de compra das ações, está próximo do recorde de 13, na média do mercado.

A maior parte dos analistas, porém, afirma que essa é uma fotografia do momento. É preciso olhar todo o filme que está sendo apresentado para a economia brasileira. Neste ano, a rentabilidade consolidada das empresas deve ser menor do que a que virá em 2018. Há fatores que explicam isso. A pressão nas despesas financeiras será menor, afinal, a taxa básica de juros deve cair entre 3 e 5 pontos percentuais nesse período. As empresas realizaram um forte corte de custos para suportar a queda acumulada de quase 8% do PIB nos últimos dois anos.

E a ociosidade operacional vai ser aproveitada à medida que a demanda volte a acontecer. Esses fatores devem fazer com que esse P/L, daqui a 24 meses, recue para 8 a 9. E, quanto menor esse indicador, mais barato está o ativo. “A alavancagem operacional e as despesas financeiras menores vão causar uma margem de lucro maior em 2018”, diz André Ribeiro, sócio da Brasil Capital, gestora que tem um dos melhores retornos em fundos de ações no período de 12 meses. “Só o movimento passivo da queda dos juros já provoca um aumento de rentabilidade.”

Os riscos para a bolsa brasileira estacionar ou recuar estão mais ligados aos cenários externos do que internos. Hoje, o maior inimigo local é acreditar que somente a PEC do teto dos gastos é suficiente para consertar os estragos na economia. A reforma da previdência é quase obrigatória, pois sem ela o governo terá de cortar até 6% de outras despesas para compensar o aumento dos gastos com as aposentadorias. Os analistas afirmam que as chances de aprovação são razoáveis e, por isso, ninguém acredita numa hipótese de a base governista se esfacelar.

CHINA E EUA As preocupações estão ligadas aos crescentes problemas no mercado externo. Há vários, que não podem ser descartados. Na China, por exemplo, a dívida bruta é explosiva e ninguém sabe quando o governo reduzirá seu nível de gastos. Nos Estados Unidos, o mercado aceita até dois aumentos da taxa básica de juros, que deve começar já no final deste ano. Mais que isso, é provável que o dinheiro migre dos emergentes para os títulos seguros do tesouro americano.

“O Brasil estava esquecido no mercado externo, por isso o incentivo para reativar as economias mundiais não deve diminuir o interesse pelos ativos brasileiros nos próximos 12 meses”, diz Rodrigo Menon, sócio da assessoria financeira Beta Independent. “Isso, claro, com o pressuposto de que não haverá surpresa nas eleições americanas, como a eleição de Donald Trump, nem a desvalorização agressiva do yuan, na China.” A Europa em desaceleração convive com a fragilidade de seu sistema financeiro.

O Deutsche Bank aceitou pagar multa de US$ 9,5 milhões para a Securities and Exchange Commission (SEC), o órgão regulador dos Estados Unidos, em acordo para encerrar processos ligados à crise financeira de 2008. A conta pode chegar a US$ 14 bilhões e abalar fortemente o banco, o que exigiria uma intervenção do banco central da Alemanha. A decisão não é fácil de ser tomada. Ao mesmo tempo em que ela evitaria um efeito dominó em outros países, como França ou Espanha, seria uma afronta ao impedimento que os alemães deram para salvar bancos na Itália e na Grécia.

Para chegar às indicações de setores e ações que podem se dar bem nos próximos meses, é preciso entender o que colaborou com o movimento de valorização de 41% do Ibovespa neste ano. Mesmo com todos esses problemas externos, as maiores altas estão com as empresas ligadas às commodities, que se aproveitaram da expansão de, aproximadamente, 30% do petróleo e do minério de ferro. São empresas como as mineradoras Vale e Usiminas, as siderúrgicas CSN e Gerdau e a petroleira Petrobras que apresentam as altas mais expressivas. Isso significa que o desempenho delas está descolado dos acontecimentos no Brasil e teriam acontecido mesmo que o governo Dilma não fosse destituído.

No entanto, essas empresas passam a ser de alto risco à medida que a economia brasileira se recupera e as incertezas no mercado externo aumentam. “Até agora a bolsa subiu empurrada pelas commodities”, diz Luis Fonseca, sócio da gestora Nest Asset Management. “Há mais incertezas no mundo do que no Brasil e a economia doméstica ainda não se refletiu na bolsa. Essas são as empresas que vão mudar de patamar.” Olhar para o médio e longo prazos exige, principalmente, entender o que está acontecendo com a economia brasileira. Está claro para os analistas que as melhores oportunidades estão ligadas ao mercado interno.

Mas quais delas podem ser as mais beneficiadas? Pela primeira vez, depois de muitos anos, empresas estatais voltam a entrar na lista de preferência. A Sabesp, o Banco do Brasil e a Eletrobras estão entre as que mais devem se beneficiar sem as interferências do governo. A gigante do setor elétrico, por exemplo, que voltou a ter os papéis negociados na Bolsa de Nova York (leia aqui), escolheu Wilson Ferreira Jr., um executivo com profundo conhecimento do setor privado, para melhorar sua gestão. Não à toa, a ação da companhia, que foi bastante penalizada nos últimos anos, sobe mais de 135% no ano.

Outra indicação é olhar a onda de privatizações, com o Plano de Parcerias de Investimentos (PPI). Empresas ligadas à infraestrutura e construção não podem ser descartadas, como Ecorodovias e Rumo Logística. O setor financeiro está diminuindo sua carteira de inadimplentes e vai se beneficiar de um custo de captação menor de dinheiro, o que coloca Itaú Unibanco e Bradesco na lista de preferências. E a retomada da expansão do PIB vai influenciar diretamente na volta do consumo, o que vai favorecer BRF e Ambev. O trem da nova economia está pronto para receber novos passageiros. Pense bem se esse é o seu momento de embarcar nessa viagem.

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