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Carnaval antecipado

A ginga dos juros altos fez investidores internacionais trazerem bilhões de dólares ao Brasil. Saiba como entrar nesse cordão

Carnaval antecipado

A ginga brasileira, quem diria, seduziu até os mais sisudos dos americanos. Sócio menos conhecido de George Soros, o reservado gestor de recursos Stanley Druckenmiller sempre foi considerado como um detentor do toque de Midas. Nos quase 25 anos em que administrou o fundo Duquesne, encerrado em 2010, Druckenmiller proporcionou rentabilidades médias anuais de 30% a seus cotistas. Ele é visto como um especialista em macroeconomia, e no impacto que os movimentos econômicos provocam sobre os mercados. Não por acaso, suas decisões de investimento são acompanhadas com lupa por uma legião de seguidores. Em meados de junho, ele atravessou o samba. Surpreendeu o mercado ao dizer que, ao lado de contratos de ouro e de ações do Facebook, tinha aplicado US$ 102 milhões de seu próprio dinheiro em países emergentes. Mais especificamente, em um fundo negociado em bolsa (Exchange-Traded Fund, ou ETF) que reproduz um índice de ações de países emergentes. Pelas contas dos especialistas da consultoria americana GuruFocus, o gestor obteve um ganho de 9,7% em apenas três meses. Nada mau quando se compara com os juros americanos, ainda próximos de zero. “Não há mais expectativas de alta para as ações de países desenvolvidos”, disse Druckenmiller no mês passado. Sua percepção é compartilhada por outros gestores de recursos e investidores individuais que, pressionados pela manutenção de taxas de juros muito baixas na Europa e nos Estados Unidos, estão injetando bilhões de dólares nesses mercados. Para investidores de China, Rússia, México e Brasil, mesmo pouco afeitos à batucada, homens como Druckenmiller estão provocando um carnaval antecipado no início do segundo semestre. Em cinco meses, as reservas internacionais cresceram US$ 12 bilhões, retornando aos níveis pré-crise.

Os números do mercado brasileiro mostram isso com precisão. Nas seis semanas do segundo semestre, o Índice Bovespa subiu 13%, elevando o ganho anual para 34,5%. Um movimento mais nítido pode ser notado nas cotações do câmbio. Desde o início de agosto, o dólar comercial depreciou-se 4% em relação ao real, encerrando a R$ 3,13 na quinta-feira 11. Os prognósticos são de novas quedas. No fim de junho, o relatório Focus, do Banco Central (BC), indicava uma estimativa de R$ 3,60 para o dólar em dezembro deste ano. No relatório mais recente, do dia 5 de agosto, essa média já havia recuado para R$ 3,30, e deve cair mais. “Não se descarta uma taxa de câmbio de R$ 2,80 no fim do ano”, diz Pedro Paulo Silveira, economista-chefe da Nova Futura Corretora. O motivo é simples: a vinda de recursos internacionais, loucos para cair no samba e desfrutarem das delícias da rentabilidade abaixo do Equador, está pressionando as taxas.

Há duas causas para isso. A primeira é a percepção, por parte dos investidores internacionais, de que o risco político diminuiu. As probabilidades de retorno da presidente afastada Dilma Rousseff, que rondavam os dois dígitos há pouco mais de um mês, caíram para perto de zero com os eventos mais recentes em Brasília. Na madrugada da quarta-feira 10, o plenário do Senado aprovou, por 59 votos a 21, o relatório da Comissão Especial do Impeachment que recomenda que a Dilma seja julgada pela Casa, algo que deve começar no próximo dia 25 de agosto. Uma vitória tão folgada mostra que Michel Temer já pode acomodar-se mais confortavelmente na cadeira.

A segunda causa é a liquidez internacional, que deve continuar forte apesar dos prognósticos de que o banco central americano comece a elevar as taxas em setembro. Em um artigo divulgado na quarta-feira 10, Andy Jobst e Huidan Lin, economistas do Fundo Monetário Internacional, avaliam que a política do Banco Central Europeu (BCE), de adotar juros negativos há dois anos, já dá sinais de fadiga de material. Mesmo tendo salvo os problemáticos bancos europeus, essa política deixou um excesso de dinheiro no sistema bancário, o que deverá obrigar os bancos a emprestar mais. Como não há muitas alternativas na própria Europa nem nos Estados Unidos, países como o Brasil são uma das opções.

Como ganhar com isso? Os aspectos da nossa batucada que mais fascinam os gringos são as aplicações de renda fixa. Títulos do Tesouro de prazo mais longo proporcionam uma rentabilidade nominal de 12% ao ano até 2021, taxa impossível de ser obtida em qualquer mercado mais maduro por meio da aplicação em títulos públicos.  Investidores com vocação para o risco podem continuar apostando na queda do dólar, que sempre pode surpreender se entrar mais dinheiro de fora. Como tem pouca margem de manobra devido à dívida pública elevada, o BC não tem como esterilizar a entrada de moeda por meio da emissão de títulos. Assim, será difícil ao governo tentar defender as exportações contendo a apreciação do real. Mas vale um aviso: esse será um caminho com as surpresas de um baile de carnaval pouco antes do sol raiar.