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Como curar seu dinheiro

Após tempos difíceis, o investidor pode obter um alívio para os males de suas aplicações com a possibilidade de troca de comando em Brasília

Como curar seu dinheiro

Cena 1: no domingo 17, os parlamentares aprovam, por ampla maioria, o impeachment da presidente Dilma Rousseff. As primeiras declarações do vice-presidente Michel Temer tratam da extinção de ministérios, dos esforços para equilibrar as contas públicas e do aprimoramento da eficiência do Estado. Na segunda-feira 18, primeiro pregão após a votação do impeachment, os investidores estão muito dispostos a comprar ações brasileiras. O Índice Bovespa, que encerrou a quinta-feira 14 a 52.400 pontos, caminha rapidamente para 65 mil pontos, uma alta de 25%. O dólar cai para R$ 3,20.

Cena 2: no domingo 17, a ausência de inúmeros deputados impede a aprovação do impeachment. Em um evento no Palácio do Planalto, a presidente Dilma Rousseff discursa contra os golpistas derrotados. Dilma fala de uma conciliação nacional que permita retomar o crescimento, mas sem colocar em risco as conquistas sociais. Na segunda-feira 18, primeiro pregão após a votação do impeachment, os investidores vendem maciçamente ações brasileiras. O Índice Bovespa, que encerrou a quinta-feira 14 a 52.400 pontos, retrocede 30%, retornando aos 37 mil pontos do fim de janeiro. O dólar se estabiliza ao redor de R$ 3,90.

Ambas as cenas podem ocorrer. É difícil antecipar a probabilidade de cada uma. Na primeira semana de abril, João Augusto de Castro Neves, diretor para a América Latina da consultoria política Eurasia Group avaliava em 60% as chances de impeachment, mas estimava em 75% as probabilidades de Dilma não concluir seu mandato. “Mesmo que a presidente vença a disputa do impeachment no Congresso, ela pode ser derrotada no Tribunal Superior Eleitoral”, disse Neves em um evento em São Paulo.

Enquanto esta edição estava sendo concluída, lideranças do governo consideravam “apertada” a votação para derrotar o impedimento de Dilma Rousseff. Membros dos partidos de oposição e dissidentes da base aliada evitavam, cuidadosamente, cantar vitória, temerosos de infidelidades entre os parlamentares do baixo clero. Nesse cenário incerto, o que fazer com seus investimentos? O investidor vem atravessando tempos difíceis. A alta dos juros após o segundo trimestre do ano passado só recentemente começou a compensar as perdas para a inflação dos dois anos anteriores. O cenário das ações é pior.

Afetado pela retração do nível de atividade e pela perda do grau de investimento, o índice Bovespa retrocedeu 13% em 2015. Como curar as feridas do seu patrimônio? DINHEIRO ouviu especialistas no assunto, e apresenta as conclusões para você. Começando pelo principal indicador de expectativas, o dólar. A entrada de recursos no País fez a moeda americana encerrar a quinta-feira 14 a R$ 3,51, queda de 10% desde o início do ano, e em um patamar equivalente ao de quando o Brasil ainda possuía o grau de investimento.

O Banco Central (BC) foi obrigado a atuar. Em dois dias, ele vendeu o equivalente a US$ 13 bilhões em contratos de recompra de dólar, os chamados swaps cambiais. Com isso, o BC impediu prejuízos de empresas que tinham apostado na alta do câmbio. “O dólar deve cair mais se o impeachment for aprovado, mas é difícil, até mesmo para os profissionais, antecipar qualquer tendência”, diz Stefano Assis, CEO da melhorcambio.com, um site de comparação de taxas de câmbio. Assis avalia que, qualquer que seja o resultado do domingo, o movimento nas casas de câmbio será intenso nos primeiros dias, com investidores querendo travar preços de compra ou venda da moeda.

No entanto, a pressão de alta será muito forte se o impeachment não passar. O cenário para os juros é menos incerto. “Não se espera uma queda das taxas no curtíssimo prazo”, diz o especialista em finanças Mauro Calil, consultor do Banco Ourinvest. Segundo Calil, há bons argumentos para reduzir os juros. “A economia está parada, os indicadores são fracos e o desemprego pode consolidar-se acima dos dois dígitos logo no começo do segundo semestre”, diz ele. Todos esses fatores justificam um afrouxamento da política monetária.

No entanto, a inflação só agora começou a dar sinais de desaceleração. “O mais provável é que as taxas caiam pouco, no máximo uma redução de um ponto percentual até o fim do ano.” Isso fará com que os investimentos de renda fixa proporcionem uma boa rentabilidade pelos próximos meses. Calil é enfático ao descartar hipóteses extremas, como a de um calote da dívida pública. Não há muitas diferenças para os juros, qualquer que seja o cenário. No caso das ações, porém, o que ocorrer na política terá um impacto profundo. “Mesmo ações que não estão muito baratas hoje serão consideradas pechinchas no caso de uma troca de governo”, diz Calil.

O raciocínio é simples: os resultados das empresas vêm sendo prejudicados pelas expectativas ruins para a economia. A entrada de Temer, considerado menos refratário ao mercado, deve animar os empresários a desengavetar projetos. “Só isso vai mudar os cálculos de valorização futura das empresas”, diz o consultor. Mesmo no caso de uma vitória do impeachment, porém, ele recomenda as ações como uma aplicação de três anos. “Vai demorar algum tempo para o mercado se acertar de maneira sustentável”, diz ele. A sorte está lançada. Façam suas apostas, senhoras e senhores.