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Os riscos do Tesouro Direto

Os títulos do governo nunca foram tão populares, mas a volatilidade do mercado está expondo seus pontos fracos. Ainda vale a pena investir?

Os riscos do Tesouro Direto

A primeira página de qualquer livro-texto sobre finanças ensina que investir em títulos do governo nacional é a aplicação mais segura de qualquer economia. Os chamados títulos soberanos são a última linha de defesa dos investidores. São garantidos pelo Erário, sua remuneração vem da receita de impostos e, se por alguma tragédia tudo der errado, o governo ainda conta com a alternativa de imprimir dinheiro e pagar o que deve, mesmo que isso provoque uma inflação galopante.

Esses atrativos vêm carreando mais e mais aficionados para o Tesouro Direto, uma modalidade de investimento lançada em outubro de 2002, que permite às pessoas físicas comprarem títulos públicos sem a intermediação de fundos de investimento, que são os grandes detentores desses papéis. Características como a acessibilidade – é possível começar a investir com apenas R$ 30 – e a oferta de papéis de longo prazo, que pagam juros e mais a variação dos índices de inflação, fizeram o Tesouro Direto bater recordes. Em agosto, dado mais recente disponível, 187 mil investidores possuíam pelo menos uma fração de um título em seu patrimônio.

O volume total investido atingiu o montante de R$ 20,6 bilhões. Esses, porém, não foram os únicos recordes do Tesouro Direto. Em momentos de nervosismo do mercado, a Secretaria do Tesouro Nacional, comandada por Marcelo Saintive, interrompe as negociações, e esses desligamentos atingiram o pico no mês passado. Em 2015, o Tesouro Direto já desligou a chave 88 vezes, das quais 26 apenas em setembro. De maneira inédita, os negócios chegaram a ser suspensos três vezes no mesmo dia em duas oportunidades, na sexta feira 24 e na segunda-feira 28.

“O sistema é parecido com o das bolsas de valores, que interrompe os negócios para proteger os investidores das oscilações muito intensas das taxas de juros”, diz a economista mineira Débora Marques Araújo, analista de finanças e controle do Tesouro Nacional e uma das responsáveis pelo Tesouro Direto. A economista explica que o Tesouro monitora constantemente os preços dos títulos públicos no mercado secundário e calcula os preços considerados justos três vezes por dia.

“Interrompemos os negócios quando percebemos que as cotações do mercado estão se afastando muito da nossa precificação”, diz ela. O Tesouro não divulga os parâmetros utiliza para disparar a interrupção dos negócios. “Esse dado é estratégico”, diz Débora.
O apetite por tirar o sistema da tomada em setembro – não ocorreram interrupções em apenas três dias naquele mês – deveu-se a três fatores, conjugados, que provocaram muita turbulência no mercado.

Um deles foi a crise política, outro foi a perda do grau de investimento no dia 9 de setembro, que, por si só, levou a uma interrupção dos negócios, e a ainda incerta pressão da alta do dólar sobre os índices de inflação. “Isso aumentou a demanda por proteção, especialmente dos títulos de longo prazo indexados ao IPCA”, diz Mauro Calil, especialista em investimentos do banco Ourinvest. 
Só esse fato mostra que o Tesouro Direto não é uma aplicação tão isenta de riscos quanto parece. Voltando ao livro-texto de finanças, define-se risco como a possibilidade de o investidor perder dinheiro ou poder de compra a partir de sua aplicação financeira.

No caso das aplicações de renda fixa, há dois grandes riscos, o de crédito e o de mercado. O primeiro e o mais grave, trata-se do famoso calote. Mas, nesse aspecto, o investidor pode dormir sossegado. Todos os especialistas ouvidos por DINHEIRO descartam a hipótese de que os títulos não sejam integralmente honrados, ou seja, que o investidor deixe de receber os juros ou o principal investido na data combinada. “O exemplo mais próximo de descumprimento ocorreu na Argentina na década passada, quando o governo alongou unilateralmente os vencimentos e reduziu os juros a pagar”, diz Calil. “Mas um cenário semelhante no Brasil é impensável.”

No entanto, o risco de mercado, que pode fazer o investidor perder dinheiro se tiver de vender seus títulos antes do vencimento, aumentou nos últimos dias. O fato de uma interrupção dos negócios impedir ou dificultar as transações com os títulos já representa um risco mais elevado. “O investidor pode não encontrar compradores dispostos a pagar o que o título vale naquele momento específico”, diz o analista de investimentos independente Clodoir Vieira.

Como evitar esses riscos? Os títulos do Tesouro Direto continuam sendo uma boa alternativa para preservar o patrimônio do investidor no longo prazo. Alguns deles, como os indexados ao índice de inflação IPCA pagam juros e a variação dos preços por prazos de até 35 anos – o papel mais longo vence no início de 2050. No entanto, o investidor pode perder dinheiro tenha de se desfazer desses papéis antes da hora. “Muitas vezes, fazemos um planejamento financeiro que nos permitirá manter um título longo até seu vencimento, mas é preciso ter em mente que imprevistos ocorrem e podem nos obrigar a nos desviar da rota traçada”, diz Calil.

Assim, sua recomendação é evitar os papéis mais longos e, neste momento de turbulência, optar por papéis mais curtos. A rentabilidade nominal é bastante parecida, mas as oscilações de preço são menos abruptas. Vieira faz uma recomendação adicional. Em momentos tensos, diz ele, o melhor é evitar as perdas na saída, mesmo abrindo mão de parte do ganho. “Uma boa estratégia defensiva é comprar papéis pós-fixados, como aqueles indexados à taxa Selic, que são neutros em relação à oscilação da taxa de juros.”